Brasília (DF)
18 de outubro de 2026
A coligação Brasil PrNeste domingo (18/out), apoiadores de Flávio Bolsonaro (PL) exibiram na Avenida Paulista, em São Paulo, um míssil inflável com a inscrição em inglês “Trump nuke Brazil” — traduzida como pedido para que Donald Trump lance um ataque nuclear contra o Brasil. O episódio, a uma semana do segundo turno, coloca em evidência o grau de subordinação de parte da base bolsonarista a uma potência estrangeira e o risco real que essas manifestações extremas representam para os próprios participantes e para a soberania do país.
O ato, denominado “Bloco do 22”, reuniu cerca de 71,9 mil pessoas no horário de pico, segundo a contagem do Monitor do Debate Político da USP/Cebrap em parceria com a More in Common. Flávio discursou e afirmou que faltam sete dias para “livrar o Brasil do PT”. Também prometeu que o pai, Jair Bolsonaro, colocaria a faixa presidencial nele caso vencesse. A organização do evento chegou a pedir, pelo carro de som, que os participantes recolhessem bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, numa tentativa de priorizar símbolos nacionais. O míssil, contudo, permaneceu visível e foi amplamente registrado.
O QUE O MÍSSIL INFÁTEL REVELA?
A estrutura branca, carregada por manifestantes vestidos de verde e amarelo, não é um detalhe isolado. Ela materializa um discurso recorrente de entrega da soberania. Em 23 de outubro de 2025, o próprio Flávio Bolsonaro publicou no X uma resposta ao então secretário de Guerra americano Pete Hegseth, que havia anunciado mais um ataque a embarcação no Pacífico. O senador escreveu, em inglês: “How envious! I heard there are boats like this here in Rio de Janeiro, in Guanabara Bay, flooding Brazil with drugs. Wouldn’t you like to spend a few months here helping us fight these terrorist organizations?” (“Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”).
A declaração gerou reações imediatas na época e foi interpretada como sugestão de operação militar estrangeira em águas brasileiras. Flávio tentou se justificar depois, acusando a imprensa de “defender traficante”, mas a frase permaneceu pública. O míssil inflável deste domingo funciona como continuidade visual daquele pedido: a base radicaliza o que o candidato já verbalizou.
POR QUE ISSO IMPORTA PARA O ELEITOR E PARA A DEMOCRACIA?
A análise aponta que gestos desse tipo, ainda que praticados por um grupo pequeno em relação ao total de presentes, carregam custo político elevado. Em 2022, o episódio em que Carla Zambelli perseguiu um homem armada nas ruas de São Paulo foi frequentemente citado como fator que afastou eleitores indecisos. Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência, comparou o míssil exatamente a esse “caso Zambelli” das eleições de 2026, afirmando que “ninguém quer ver o seu país bombardeado”. Deputadas como Erika Hilton e Sâmia Bomfim classificaram a cena como escândalo e lesa-pátria.
Pesquisas recentes (Quaest, Datafolha e outras) mostram empate técnico entre Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno, com o senador numericamente à frente em vários levantamentos dentro da margem de erro. Expectativas anteriores de vitória de Lula ainda circulam em parte do eleitorado, e ações que pareçam subordinar o país a Trump podem reforçar rejeição entre quem prioriza soberania e estabilidade institucional. O risco não é apenas eleitoral: pedir bombardeio ao próprio território expõe os manifestantes a uma lógica perigosa. Quem celebra o ataque de uma potência estrangeira contra o Brasil está, objetivamente, torcendo para que mísseis atinjam solo brasileiro — inclusive as cidades onde eles próprios vivem.
ANTECEDENTES DA RELAÇÃO BOLSONARO-TRUMP
A família Bolsonaro mantém aproximação pública com Trump. Flávio foi recebido na Casa Branca em maio de 2026. O senador promete adesão ao “Escudo das Américas”, iniciativa americana que prevê cooperação em inteligência e possibilidade de deslocamento de tropas. Tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros e o debate sobre classificação de facções como organizações terroristas também fazem parte do contexto. Enquanto o governo Lula defende autonomia, setores bolsonaristas tratam a interferência externa como vantagem estratégica. O míssil inflável torna essa opção explícita e visual.
IMPORTANTE: O pedido escrito no inflável (“Trump nuke Brazil”) e a declaração anterior de Flávio sobre a Baía de Guanabara são fatos públicos, registrados em imagens, vídeos e na rede social do próprio senador. Não se trata de interpretação: trata-se de mensagem clara de solicitação de ação militar estrangeira em território ou águas brasileiras. A organização do ato tentou conter bandeiras estrangeiras, mas não impediu a permanência do objeto. Até o momento das primeiras reportagens, a campanha de Flávio não havia se manifestado sobre o episódio.
O QUE ACONTECE AGORA?
O segundo turno está marcado para 25 de outubro. O debate entre os candidatos ocorreu no mesmo domingo à noite. Episódios como o do míssil tendem a ser explorados pela campanha de Lula como prova de risco à soberania e à democracia. Para a base de Flávio, o desafio é explicar por que um ato em defesa de “Brasil acima de tudo” carregou um pedido de bombardeio americano. A ironia do título desta matéria não é gratuita: em um cenário de empate técnico e alta rejeição mútua, ações extremas podem contribuir para o resultado que parte dos próprios manifestantes afirma temer.
FAQ Rápido
O que estava escrito no míssil inflável?
“Trump nuke Brazil”, expressão em inglês que significa pedido para que Donald Trump ataque o Brasil com armas nucleares.
Flávio Bolsonaro já havia falado em bombardeio antes?
Sim. Em outubro de 2025, ele publicou no X sugerindo que o secretário Pete Hegseth ajudasse a combater “organizações terroristas” na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Quantas pessoas participaram do ato na Paulista?
Cerca de 71,9 mil no horário de pico, segundo o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap e More in Common (estimativa entre 63,3 mil e 80,5 mil).
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