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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    25 de outubro de 2026

    Os mercados brasileiros registraram forte queda nesta segunda-feira (26/out) após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial, segundo reportagem do Financial Times. Investidores apostavam em um resultado favorável a Flávio Bolsonaro e interpretam o retorno de Lula como fator que deve agravar as preocupações fiscais da maior economia da América Latina.

    A análise do Urbs Magna indica que o relato do Financial Times captura com precisão o movimento imediato dos preços e o desalinhamento entre o que o mercado havia precificado e o resultado eleitoral, mas carrega um viés implícito ao tratar a “dor fiscal” quase exclusivamente pela ótica dos investidores e dos títulos de dívida.

    Ao enfatizar as promessas de gastos sociais de Lula — transporte gratuito nos fins de semana, perdão de dívidas e aumento de assistência — como fator de risco, sem o mesmo espaço para o custo social de manter juros reais elevados e uma dívida que já pressiona as famílias mais pobres, o texto corre o risco de apresentar a disciplina de mercado como fim em si, e não como meio.

    O Congresso mais à direita, citado pela própria FT como freio natural, reduz o espaço para excessos, o que torna o tom de alarme inicial menos inevitável do que a narrativa de “mais dor fiscal” sugere. A reação dos ativos é factual; a hierarquia que coloca o interesse do mercado acima da capacidade de o Estado atender demandas sociais legítimas permanece uma escolha editorial, não um dado inexorável.

    O QUE O FINANCIAL TIMES REGISTROU SOBRE A ABERTURA DOS MERCADOS?

    De acordo com o Financial Times, a moeda brasileira e as ações desabaram na segunda-feira. O real chegou a cair 11,8%, atingindo R5,64pordoˊlarnaabertura,anteR5,64pordoˊlarnaabertura,anteR 4,98 na sexta-feira. Os futuros ligados ao índice de referência de ações caíram mais de 17%. A negociação na bolsa de São Paulo foi interrompida no início da sessão, quando o índice recuou 10%.

    As apostas em taxas de juros de longo prazo subiram de forma acentuada, apagando o rali observado desde a vitória de Bolsonaro no primeiro turno, em 4 de outubro. Lula obteve mais de 51% dos votos no segundo turno de domingo, surpreendendo investidores que estavam posicionados para a vitória do adversário de direita. O filho do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, preso, havia liderado o primeiro turno. Diversas pesquisas prévias ao desempate apontavam ligeira vantagem para o candidato de oposição.

    O real havia acumulado alta de cerca de 4% neste mês, com investidores apostando que Bolsonaro estaria mais disposto a enfrentar o grande déficit orçamentário do Brasil e a reduzir as taxas de juros de dois dígitos.

    QUAIS FORAM AS REAÇÕES DOS ANALISTAS CITADAS PELA FT?

    Jim Reid, chefe de macro global do Deutsche Bank, afirmou ao Financial Times: “O resultado surpreendeu um mercado que havia precificado cada vez mais uma vitória de Bolsonaro… os investidores antecipavam uma chance melhor de consolidação fiscal”.

    O rendimento dos títulos em euro do Brasil com vencimento em 2036 subiu de 5,8% para 6% no início do pregão europeu. As ações do Banco Santander, da Espanha, que possui grande unidade no Brasil, caíram 3,8%.

    O FMI projeta que o déficit fiscal do Brasil será equivalente a cerca de 8% do PIB neste ano, embora o déficit orçamentário do governo fique em torno de 0,6% antes do custo do serviço da dívida. Economistas alertam que a dívida pública, em cerca de 83% do PIB, é elevada para uma economia emergente e constitui um dos motivos pelos quais o banco central manteve os juros altos, com a taxa básica em 13,75%.

    Enquanto Bolsonaro havia prometido certo grau de austeridade, Lula fez promessas significativas de gastos na campanha, incluindo transporte público gratuito nos fins de semana, perdão de dívidas para indivíduos e aumento de pagamentos de assistência social. Críticos acusaram-no de concessões eleitorais para garantir votos.

    COMO OS INVESTIDORES REAGIRAM E O QUE PODE ACONTECER AGORA?

    Investidores correram para apostar contra o real. O grupo de derivativos CME Group informou cerca de US$ 2,4 bilhões em operações notionais em contratos futuros ligados ao real brasileiro no início do pregão de Londres, volume cerca de três vezes superior à média diária deste ano. Embora menos líquidos que o mercado à vista, os futuros podem ser negociados 24 horas por dia em dólares, permitindo que operadores globais apostem no real antes da abertura do mercado à vista no Brasil, ao meio-dia de Londres.

    Apesar da vitória histórica de Lula no segundo turno, ele enfrentará um Congresso com mais cadeiras ocupadas por partidos de direita, após as eleições para a Câmara e o Senado realizadas junto com o primeiro turno. Segundo Reid, do Deutsche Bank, isso “deve restringir a capacidade da administração de perseguir uma agenda fiscal materialmente mais frouxa”.

    Kurt Knowlson, gestor de portfólio da Aviva Investors, observou que as medidas de gastos anunciadas por Lula antes do segundo turno “significam que o ponto de partida para a tão necessária consolidação fiscal está mais alto agora”. Ele acrescentou: “A realidade é que a fraqueza [da moeda] e taxas de juros de longo prazo e reais mais altas serão novamente necessárias para fornecer o mecanismo de disciplina, a menos que um caminho fiscal crível possa ser anunciado em curto prazo”.

    Antes do resultado de domingo, o real havia subido 10% em relação ao dólar neste ano, enquanto o mercado de ações brasileiro figurava entre os de melhor desempenho do mundo, com alta de 38% em termos de dólar, apenas ligeiramente atrás do índice da Coreia do Sul, concentrado em semicondutores.

    IMPORTANTE: A reportagem do Financial Times descreve a reação inicial dos mercados com base em posições de investidores e dados de abertura. Não se trata de projeção definitiva de política econômica do novo mandato, mas de precificação de risco fiscal maior em comparação com o cenário de vitória de Bolsonaro que o mercado havia incorporado.

    A análise aponta que a combinação de um Congresso mais à direita e a necessidade de um caminho fiscal crível pode funcionar como freio natural, mesmo diante das promessas de campanha. O descompasso entre o que os investidores precificaram e o resultado eleitoral explica a magnitude da correção inicial.


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