Brasília (DF)
30 de outubro de 2026
Luiz Inácio Lula da Silva completou 81 anos na terça-feira (27/out) dois dias depois de derrotar Flávio Bolsonaro no segundo turno por 51,79% a 48,21%, uma virada de 4,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno . O Financial Times classificou o resultado como uma das maiores vitórias inesperadas da política democrática moderna — mas o quarto mandato começa com o mercado em pânico e o Congresso nas mãos da direita.
O Financial Times publicou, nesta sexta-feira (30/out), perfil assinado por Geoff Dyer e Michael Pooler sob o título “Lula, Brazil’s 81-year-old comeback kid” — algo como “Lula, o garoto prodígio de 81 anos do Brasil”. A reportagem descreve a trajetória do presidente que, de sapateiro na infância no sertão pernambucano a líder sindical em São Paulo, chegou ao quarto mandato presidencial depois de passar 580 dias preso por condenações posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal.
A vitória sobre Flávio Bolsonaro, de 45 anos, veio depois de pesquisas que não davam chance a Lula e de um primeiro turno em que o senador terminou 2,2 milhões de votos à frente. No segundo turno, o presidente virou o placar e venceu por margem de 4,4 milhões de votos — a maior votação já registrada por um candidato à Presidência no país, segundo o Tribunal Superior Eleitoral.
O Financial Times atribui parte da virada a uma operação digital comandada pelo deputado André Janones (Rede-MG). O canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, chegou a 5 milhões de seguidores após uma série de decisões judiciais que suspenderam e reativaram a ferramenta . O próprio Lula, que admitiu no ano passado não ter celular, gravou vídeos e participou de mobilizações nas redes — uma adaptação tardia às táticas que a direita radical dominava desde 2018.
A ressaca do dia seguinte: mercado em queda e dívida no radar
A festa do aniversário teve um preço. Na segunda-feira (26/out), o Ibovespa caiu 17% e o real perdeu cerca de 10% frente ao dólar, segundo o Financial Times . O mercado não reagiu à vitória em si, mas ao que ela sinaliza: um governo que prometeu expandir gastos num país cuja dívida bruta caminha para 98% do PIB, conforme estimativa do FMI citada pelo jornal .
Durante a campanha, Lula prometeu transporte público gratuito nos fins de semana e um aumento de 15% no principal programa social. O custo estimado é de pelo menos 43,6 bilhões de reais no próximo ano . O Financial Times é direto: “Em muitos aspectos, o quarto mandato de Lula será o mais difícil de sua carreira”.
Segundo o jornal voltado para investidores e alinhado à Faria Lima, o presidente herda uma armadilha fiscal que ele mesmo ajudou a construir. Desde o início do terceiro mandato, em janeiro de 2023, a dívida pública subiu mais de 10 pontos percentuais. Os juros reais próximos de 10% sufocam investimentos e consomem o orçamento com o serviço da dívida. Sem um ajuste crível, o governo pode perder a capacidade de financiar suas próprias promessas, afirma.
O adversário que se destruiu sozinho
O jornalão diz que Flávio Bolsonaro facilitou o trabalho de Lula. Investigado por lavagem de dinheiro, o senador deixou o Brasil em um jato particular na quarta-feira (28/out), desembarcando em Miami com a família, após descumprir ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF, para entregar os passaportes . Do exterior, divulgou uma carta sem provas em que alegou fraude eleitoral e se autoproclamou “o verdadeiro presidente eleito”.
O Financial Times registra que a primeira versão da carta usava a grafia inglesa “Brazil” em vez de “Brasil” — um deslize para quem se apresentava como nacionalista. Rogério Marinho, coordenador da campanha derrotada, resumiu o clima entre aliados: “Flávio está desabafando”.
A fuga para os Estados Unidos ecoa o episódio de Jair Bolsonaro, que também deixou o país após perder a eleição de 2022 e depois foi preso por envolvimento em trama golpista. A diferença é que Flávio não tinha a mesma base de apoio popular do pai — e até aliados próximos evitaram defendê-lo publicamente .
O que muda no xadrez internacional
A vitória de Lula representa um obstáculo aos planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de ampliar a influência americana na América Latina. Anthony Pereira, professor da Universidade Tulane, afirmou ao Financial Times que “o trumpismo pode ser uma influência em declínio no mundo”.
Andre Pagliarini, autor de uma biografia de Lula e professor na Universidade Estadual da Louisiana, avalia que o presidente brasileiro deve manter uma política externa independente, equilibrando interesses chineses e americanos — especialmente no setor de terras raras, onde o Brasil tem potencial estratégico . “Lula não vai mudar radicalmente de direção no cenário mundial”, disse Pagliarini ao The Star.
O ponto central é que a vitória de Lula não reverte o avanço da direita na região. Trump continua no poder, Milei governa a Argentina e a direita brasileira, embora derrotada na Presidência, saiu das urnas com maioria no Congresso Nacional. O quarto mandato de Lula será exercido sob fogo cruzado entre um mercado desconfiado e um Legislativo que pode bloquear suas iniciativas.
IMPORTANTE
As eleições legislativas, realizadas três semanas antes, deram à direita posições dominantes na Câmara e no Senado. O governo precisará negociar cada projeto relevante com um Legislativo hostil. A análise do Urbs Magna é de que o capital político acumulado na vitória tem prazo de validade curto — e será consumido rapidamente nas primeiras batalhas fiscais.
O que fica
A vitória de Lula é inegavelmente histórica. Um homem que passou fome na infância, perdeu um dedo numa prensa industrial aos 17 anos, foi preso e depois absolvido, volta ao poder pela quarta vez aos 81 anos — algo que nenhum presidente brasileiro havia feito. O Financial Times está certo ao chamar isso de uma das maiores viradas da política democrática moderna.
Mas o título do jornal também carrega uma ironia que o texto não esconde. O comeback kid de 81 anos herda um país mais endividado, mais polarizado e mais desconfiado do que aquele que deixou em 2010. A festa de aniversário acabou. A ressaca começou na segunda-feira de manhã, com o Ibovespa em queda livre e o Congresso esperando para testar até onde vai o capital político do presidente reeleito.
FAQ Rápido
Lula realmente foi chamado de “garoto prodígio” pelo Financial Times?
Sim. O título original do perfil é “Lula, Brazil’s 81-year-old comeback kid”. A expressão “comeback kid” é usada em inglês para designar alguém que retorna vitorioso depois de ser dado como derrotado. A tradução “garoto prodígio” é uma adaptação possível, embora o tom do Financial Times seja mais de constatação de uma virada surpreendente do que de elogio juvenil.
Por que o mercado reagiu tão mal à vitória de Lula?
Porque a campanha eleitoral foi marcada por promessas de expansão de gastos num momento em que a dívida pública brasileira já está em trajetória insustentável. O Financial Times cita estimativa do FMI de dívida bruta em 98% do PIB neste ano e déficit de 8% . O mercado teme que Lula não tenha disposição política para cortar despesas.
O que acontece com Flávio Bolsonaro agora?
Flávio está nos Estados Unidos e descumpriu ordem judicial para entregar os passaportes. O STF descartou, por ora, operação policial ou medida de busca e apreensão . A situação jurídica dele permanece indefinida, e o governo americano sinalizou que pode conceder vistos a ele e à família.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:

Nenhuma novidade no texto, primeiro um elogio sarcástico, e depois a análise pró Faria Lima.