Brasília (DF)
30 de outubro de 2026
A Justiça Federal da Argentina determinou que órgãos do governo de Javier Milei preservem todas as imagens de câmeras de segurança que registraram a passagem de Flávio Bolsonaro pelo território argentino antes de sua saída para os Estados Unidos. A ordem busca esclarecer se houve colaboração oficial na fuga do senador brasileiro, que estava proibido de deixar o Brasil por decisão judicial.
A ordem da juíza Capuchetti
A magistrada federal María Eugenia Capuchetti expediu a determinação na quarta-feira (28/out), conforme revelou o jornal argentino Clarín. A medida atende a um pedido da procuradora Paloma Ochoa, que analisa denúncias apresentadas por parlamentares da oposição ao governo Milei.
A ordem foi encaminhada a quatro órgãos estratégicos: a Direção Nacional de Migrações, a Agência de Arrecadação e Controle Aduaneiro (ARCA) , a Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA) e a Gendarmaria Nacional . Todos atuam nos pontos por onde Flávio Bolsonaro e sua família passaram: a Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, e o aeroporto da cidade argentina.
A determinação é de preservação, não de entrega imediata das imagens. Segundo fontes judiciais ouvidas pelo Clarín, a Justiça quer garantir que os registros existam caso decida abrir formalmente uma investigação criminal.
O roteiro da passagem pelo país vizinho
Os registros oficiais da Direção Nacional de Migrações da Argentina confirmam que Flávio Bolsonaro entrou no país às 22h50 de terça-feira (27/out), acompanhado da esposa Fernanda Bolsonaro e das duas filhas. A travessia ocorreu pela Ponte Tancredo Neves, com documentação válida — o senador utilizou passaporte italiano, enquanto os familiares usaram documentos brasileiros.
Cerca de quarenta minutos depois, às 23h30, a família embarcou em um jato privado da empresa Baires Fly S.A. no Aeroporto de Puerto Iguazú. A aeronave Gulfstream G400, matrícula LV-JQW, decolou às 0h21 de quarta-feira com destino declarado a Guayaquil, no Equador, onde fez escala antes de seguir para Miami.
IMPORTANTE
A ordem judicial argentina não significa que Flávio Bolsonaro seja réu em um processo penal na Argentina. Trata-se de uma medida preliminar de preservação de provas, solicitada pela fiscalía, para que a magistrada decida se existem elementos suficientes para abrir uma investigação formal sobre a atuação de funcionários do governo Milei. O governo argentino sustenta que o senador entrou e saiu do país sem impedimentos legais ou alertas da Interpol.
Por que a oposição argentina quer explicações
As denúncias que motivaram a ordem judicial foram apresentadas pelos deputados Gabriel Solano, da esquerda, e Esteban Paulón, do socialismo . Ambos pedem que se apure se o governo Milei utilizou recursos e estruturas do Estado para facilitar a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil, onde o senador tinha a saída proibida por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Entre os citados nas denúncias estão o próprio presidente Javier Milei, o chanceler Pablo Quirno, a ministra da Segurança Alejandra Monteoliva e o assessor presidencial Santiago Caputo . A presença de Caputo na província de Misiones na noite da decolagem é um dos pontos que alimentam as suspeitas da oposição. O jornal argentino La Nación informou que o assessor estava na região e que sua figura é central na articulação política do governo.
O impacto no Congresso argentino
A controvérsia chegou ao Congresso argentino. Deputados da oposição protocolaram pedidos de interpelação contra três ministros: Diego Santilli, chefe de Gabinete; Pablo Quirno, das Relações Exteriores; e Alejandra Monteoliva, da Segurança .
O deputado Pablo Juliano, de Províncias Unidas, questionou: “¿Por qué el Estado argentino tiene que ayudar a quienes buscan evadir la Justicia?” . Já Agustín Rossi, do peronista Unión por la Patria, afirmou: “Bolsonaro se fugó. Milei lo ayudó. Los hechos están a la vista. Las explicaciones, no”.
A análise do Urbs Magna aponta que o episódio cria um constrangimento diplomático adicional para o governo Milei, que já mantém relações tensas com o Brasil desde a vitória de Lula no segundo turno. O governo argentino não felicitou o presidente brasileiro pela reeleição, e a fuga de Flávio — figura próxima ao clã Bolsonaro e derrotada nas urnas — aprofunda o desgaste.
O que diz o governo Milei
O chefe de Gabinete Diego Santilli afirmou que Flávio Bolsonaro “ingresó con la documentación correspondiente, en regla y terminó saliendo en avión, también en las mismas condiciones” . A Direção Nacional de Migrações havia negado inicialmente a entrada do senador no país, antes de confirmar a passagem horas depois.
O governo argentino sustenta que não havia alerta da Interpol ou impedimento migratório que obrigasse a barrar a entrada de Flávio. A defesa oficial é de que o senador brasileiro utilizou documentação europeia válida e que a Argentina não recebeu pedido formal de asilo político .
O que acontece agora
A juíza Capuchetti também solicitou à Cancillería argentina que informe se recebeu pedidos de cooperação de autoridades estrangeiras sobre a situação judicial de Flávio Bolsonaro . A Direção Nacional de Migrações deverá entregar todos os registros de entrada do senador no país.
A decisão sobre abrir ou não uma investigação criminal cabe à procuradora Paloma Ochoa, que pediu as diligências preliminares antes de se pronunciar. Não há prazo público definido para essa definição.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro já está em Miami, nos Estados Unidos, onde chegou na manhã de quarta-feira (28/out) . O governo americano confirmou que emitirá vistos para o senador e sua família .
FAQ RÁPIDO
Flávio Bolsonaro está sendo investigado na Argentina?
Não formalmente. A Justiça argentina apenas determinou a preservação de imagens para decidir se abre uma investigação sobre a atuação de funcionários do governo Milei. Não há acusação formal contra o senador no país vizinho.
Por que a Justiça argentina quer essas imagens?
Para verificar se houve colaboração irregular de agentes públicos argentinos na passagem de Flávio Bolsonaro pelo país, incluindo possível escolta policial e facilitação migratória, conforme denúncias da oposição.
Flávio Bolsonaro pode ser extraditado?
Não há pedido de extradição formulado pelo Brasil até o momento. A Argentina não confirmou ter recebido solicitação nesse sentido. O senador está nos Estados Unidos, país com o qual o Brasil mantém acordo de extradição, mas o processo depende de decisão política e jurídica daquele país.
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