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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    04 de outubro de 2026

    O satirista norte-americano John Oliver, apresentador do Last Week Tonight, afirmou que a família Bolsonaro é formada por criminosos e representa perigo para o Brasil, a América Latina e o mundo, ao comentar a eleição presidencial marcada para este domingo (4/out).

    No encerramento de um episódio do programa que foi ao ar na semana passada, John Oliver disse que há muito em jogo no Brasil e afirmou esperar que, neste domingo, a mensagem de desafio e os agachamentos de academia de Lula ganhem mais tração do que o alarmismo e o que chamou de problemas evidentes de Flávio Bolsonaro com o pai. O satirista ainda desejou que, se os eleitores rejeitarem Flávio, a família Bolsonaro não apenas aceite o resultado.

    O comentário foi feito ao fim de um bloco de mais de 20 minutos sobre a eleição brasileira. Oliver tratou o pleito como escolha entre a continuidade de Luiz Inácio Lula da Silva e o retorno político da família do ex-presidente Jair Bolsonaro, representado pelo filho mais velho.

    O QUE JOHN OLIVER DISSE NO ENCERRAMENTO?

    Oliver encerrou o bloco com esta avaliação: “Há claramente muito em jogo no Brasil neste momento. E não estou dizendo isso apenas porque não sou um grande fã dos Bolsonaro — o que é um eufemismo tão grande quanto dizer que o filme Dark Horse provavelmente não vai ganhar um Oscar. Mas também acho que eles são uma família claramente em busca de vingança e, infelizmente, o atual governo dos Estados Unidos parece muito disposto a ajudá-la a conseguir isso.”

    Ele reconheceu o constrangimento de pedir voto a quem está no Brasil, “especialmente porque lá o voto é realmente obrigatório”. Em seguida, limitou o recado ao desejo de que “no próximo domingo, a mensagem de desafio e os lunges de academia de Lula acabem ganhando muito mais tração do que o alarmismo e os flagrantes problemas de Flávio com o pai”.

    O fecho recorreu a uma frase do roteiro de Dark Horse, filme que o episódio tratou como peça de propaganda. Oliver disse esperar que, se Flávio for rejeitado, a família não se limite a aceitar o resultado e seja, nas palavras que atribuiu a um dos piores roteiros que já leu, “abalada pela penetração disso”.

    Veja abaixo e assista ao bloco na íntegra, no final desta matéria:

    O Last Week Tonight é um programa de sátira. As caracterizações de Oliver — inclusive a ideia de família em busca de vingança e a crítica à disposição do governo americano de ajudá-la — são comentário do episódio. A condenação de Jair Bolsonaro aparece no bloco como fato já decidido pela Suprema Corte brasileira, na versão apresentada pelo programa.

    O QUE ESTÁ EM DISPUTA NESTE DOMINGO?

    Oliver situou a votação e falou em 160 milhões de eleitores. Além do presidente, disse que o pleito escolhe governadores, dois terços do Senado e todos os deputados da Câmara.

    O bloco apresentou candidatos com apelidos curiosos, como MC Jagger e Shrek. Um veterinário se destacou na eleição presidencial, com anúncios de IA mostrando-o correndo com cães e gatos. Em outro vídeo, ele oferecia botox para mulheres de baixa renda, pedindo que marcassem nos comentários quem merecia o tratamento, o que Oliver considerou uma provocação constrangedora.

    O QUE O PROGRAMA RELEMBROU DE 2022?

    O episódio voltou à eleição de 2022, quando Jair Bolsonaro, então presidente, tentou a reeleição e perdeu para Lula. Oliver descreveu Bolsonaro como figura de extrema direita e recuperou uma frase atribuída a ele sobre uma parlamentar: “Eu nunca a estupraria porque você não merece”. Também atribuiu ao governo dele a supervisão de destruição recorde na Amazônia.

    A vitória de Lula, segundo o programa, foi por menos de dois pontos percentuais, a margem mais estreita numa eleição presidencial brasileira desde o fim da ditadura militar, em 1985. Oliver disse que Bolsonaro nunca reconheceu formalmente a derrota, deixou o país antes da posse e foi para Orlando, onde teria sido visto em selfies, numa fila de supermercado e comendo frango frito.

    No Brasil, apoiadores pediram que as Forças Armadas anulassem o resultado. O programa descreveu o desfecho como invasão violenta das sedes do Executivo e do Congresso, em Brasília, com confronto com a polícia, gás lacrimogêneo e depredação, num episódio que Oliver comparou ao 6 de janeiro nos Estados Unidos. A alegação dos invasores, segundo o bloco, era a de que Bolsonaro não havia perdido de fato.

    POR QUE JAIR BOLSONARO NÃO PODE CONCORRER?

    Oliver afirmou que Bolsonaro passou a ser investigado por incitar os tumultos e que, meses depois, a Polícia Federal concluiu que havia plano de golpe militar, não só incentivo a protestos. O episódio mencionou documentos e um plano de assassinar o então presidente eleito Lula e o vice Geraldo Alckmin, impresso num computador do palácio por um ex-auxiliar militar. O programa disse que os planos de reverter a eleição e tomar o Supremo Tribunal Federal ruíram porque os comandantes de duas das três Forças recusaram participar.

    Oliver fez uma distinção: Bolsonaro não foi acusado, no relato do episódio, de participar da parte relativa ao assassinato. Depois das provas do plano mais amplo, a Suprema Corte o mandou a julgamento, considerou-o culpado e o condenou a 27 anos e 3 meses de prisão. Essa condenação, segundo o satirista, é a razão pela qual ele não pode concorrer de novo.

    O programa acrescentou que ele não está preso em estabelecimento penal. Depois de menos de quatro meses, obteve autorização para cumprir o restante em prisão domiciliar por problemas de saúde. Oliver listou episódios médicos já noticiados — covid-19 depois de críticas a cuidados sanitários, cálculo na bexiga, obstrução intestinal atribuída a camarão mal lavado e três internações por soluço — e depois descreveu outra cena: já condenado e monitorado, Bolsonaro admitiu em vídeo ter encostado um ferro de solda na tornozeleira eletrônica para tentar abri-la.

    COMO TRUMP ENTROU NA DISPUTA, SEGUNDO O SATIRISTA?

    Oliver traçou paralelo com Donald Trump: um líder que perdeu a eleição, foi para a Flórida e, na leitura do programa, passou a buscar revide. Durante o julgamento de Bolsonaro, o episódio relatou uma carta de Trump anunciando tarifa de 50% sobre importações do Brasil a partir de 1º de agosto, com menção expressa ao processo contra o aliado. Trump teria chamado o julgamento no Supremo de “caça às bruxas que deveria acabar imediatamente”.

    O bloco também afirmou que o governo americano revogou vistos de ministros do STF e aplicou sanções financeiras. Oliver sustentou que a pressão pode ter efeito inverso. Em comício, Lula disse que o Brasil não aceita intromissão e que já havia avisado Trump, por telefone, para não interferir nas eleições brasileiras, porque, se o fizesse, perderia. O programa disse que a popularidade de Lula subiu de forma perceptível quando ele denunciou as tarifas como ataque à soberania.

    COMO OLIVER DESCREVEU LULA?

    Oliver comparou Lula a Joe Biden: político de carreira, centro-esquerda pragmático, programas sociais, apoio à exploração de petróleo na Amazônia e, ao mesmo tempo, contenção do desmatamento. Falou em preocupação com a idade — Lula com 80 anos — e em vídeos de treino publicados nas redes, com agachamentos e rosto sério durante rosqueamentos. Tratou as imagens como material estranho para um chefe de Estado, mas também como tentativa de mostrar disposição física.

    O problema eleitoral, segundo o episódio, é outro. Muitos eleitores veriam Lula como candidato do sistema. O desemprego estaria no menor nível desde 2012, mas o custo de vida seguiria como queixa central. Oliver ainda citou eleitores que recusavam os dois nomes principais e reproduziu falas de rua em que entrevistados diziam não votar em nenhum dos dois.

    O QUE O EPISÓDIO AFIRMOU SOBRE FLÁVIO?

    Flávio Bolsonaro, disse Oliver, tenta se apresentar como o pai sem a carga judicial. Teria se chamado de “Bolsonaro vacinado” e veiculado anúncio em que credita a formação à mãe, à esposa e às filhas, não ao pai. No mesmo bloco, Oliver mostrou o filho dizendo que nas veias corre “sangue Bolsonaro” e incluindo o pai nos comícios por uma simulação de imagem e voz feita com inteligência artificial, já que a prisão domiciliar e a proibição de se comunicar com o público impediriam a presença real. Na peça, a voz atribuída a Jair diz estar preso e silenciado por decisão injusta, baseada em algo que nunca fez.

    O programa atribuiu a Flávio a frase de que “ser homossexual não é normal” e o comentário de que não gosta de ver dois homens barbudos se beijando e acha isso repugnante. Também disse que ele defendeu a ditadura militar de 21 anos, afirmando que naquele período havia segurança, saúde, educação de qualidade e respeito — regime que, Oliver lembrou, matou e torturou opositores.

    Na política externa e na segurança, o episódio o alinhou a Benjamin Netanyahu e ao presidente da Argentina, Javier Milei, e relatou a proposta de construir cinco prisões no modelo de El Salvador. Oliver ainda afirmou que Flávio já prometeu perdoar o pai se eleito. O programa registrou que o Supremo decidiu que indulto não pode ser usado para proteger aliado político, mas lembrou que o próximo presidente poderá indicar ao menos três, e talvez quatro, dos 11 ministros da Corte.

    Sobre as pesquisas, Oliver disse que Flávio parece em alta, que cerca de metade dos brasileiros declara que jamais votaria em Lula e que parcela semelhante jamais votaria em Flávio, e que a disputa deve ser apertada. É provável, segundo o bloco, que nenhum dos dois passe de 50% no primeiro turno. Nesse caso, haveria segundo turno em 25 de outubro.

    O QUE É DARK HORSE E QUAL O ELO COM O BANCO MASTER?

    Boa parte do episódio foi dedicada a Dark Horse, filme em inglês sobre Jair Bolsonaro, centrado na facada de 2018, com Jim Caviezel no papel principal. Oliver descreveu o trailer vazado como peça em que o personagem enfrenta estrangeiros, ambientalistas e “pedófilos de Hollywood”, e leu trechos de um roteiro vazado com falas como “a mesma merda, outro vaso” e “boatos são como puns: saem de babacas”. A cena de abertura, segundo o programa, termina com a rubrica “ela é abalada pela penetração disso”, instrução de reação da atriz, não fala de diálogo.

    O satirista ligou o filme a investigações sobre o financiamento e ao caso do Banco Master, instituição que o episódio chamou de banco quebrado sob apuração numa fraude de US$ 10 bilhões. Um trecho relevante do dinheiro teria vindo de Daniel Vorcaro, descrito como banqueiro preso em marcos, com suspeita de liderar o esquema. Oliver disse que Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões a Flávio para produzir o filme e que se acredita que só metade foi paga. Mensagens, segundo o programa, mostraram Flávio pedindo recursos, inclusive uma transferência de US$ 4 milhões, depois de negar associação com o banqueiro. Na véspera de Vorcaro ser preso ao tentar embarcar para Dubai, Flávio teria escrito: “Irmão, eu estou e sempre estarei com você”.

    Flávio, no relato do episódio, sustenta que nada no financiamento foi criminoso e que aceitou o dinheiro porque o filme já estava em andamento e ele não queria que “essa obra de arte” se perdesse. Oliver contestou o rótulo de obra de arte e disse que a distribuidora adiou a estreia para depois da eleição. O filho, portanto, não colheria o efeito de propaganda e seguiria exposto ao escândalo. O programa ainda citou um aluguel de peruca de Jim Caviezel por 10 mil reais, cerca de US$ 2 mil, e protestos de rua com a pergunta sobre o destino do dinheiro.

    Oliver acrescentou que o caso do Banco Master continua a se expandir e que surgiu informação de contato de Vorcaro com um ministro do Supremo que acompanhou o julgamento e a prisão de Jair Bolsonaro. O ministro nega irregularidade. O episódio o descreveu como aliado de Lula e disse que Flávio e apoiadores usam esse ponto para dividir o escândalo e reduzir o dano.

    O QUE A SÁTIRA DEIXA EM ABERTO?

    A análise, limitada ao que o próprio episódio organiza, é que Oliver não apresenta a eleição como preferência estética. Ele amarra o voto de domingo à condenação de 27 anos e 3 meses, ao plano de golpe narrado no bloco, à prisão domiciliar, à tornozeleira, à tarifa americana e à promessa de perdão. O desejo de vitória de Lula aparece como rejeição a esse conjunto.

    O que o episódio não resolve é o tamanho real da vantagem. Oliver fala em corrida apertada, rejeição alta aos dois polos e segundo turno possível em 25 de outubro. Também não trata como encerrado o uso político do contato atribuído a Vorcaro com o ministro do STF.

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