Brasília (DF)
15 de setembro de 2026
Flávio Bolsonaro (PL) reuniu presidentes de bancos e executivos de grandes empresas na casa de Marcelo Kayath, no Itaim, em São Paulo, e deixou parte dos presentes sem um programa de governo reconhecível. A avaliação foi colhida pela âncora da CNN Brasil, Thais Herédia.
O encontro testou, no coração da eleição de 2026, se o herdeiro eleitoral de Jair Bolsonaro consegue atravessar a desconfiança do mercado sem entregar números, metas e um desenho institucional claro.
O jantar ocorreu no apartamento de Kayath, ex-presidente do Credit Suisse no Brasil e sócio da gestora QMS, a poucos quarteirões da Avenida Faria Lima. Segundo a Folha de S.Paulo, o candidato chegou às 20h e saiu às 22h. Pela manhã do dia 27 de agosto, ele já havia se encontrado com o alto escalão do Bradesco em Osasco.
A lista publicada por Caio Junqueira, também na CNN Brasil, e confirmada em linhas gerais por Estadão, O Globo e Folha, inclui pelo menos:
- Milton Maluhy Filho (Itaú Unibanco)
- Luiz Carlos Trabuco (Bradesco)
- Gilson Finkelsztain (Santander Brasil)
- Roberto Campos Neto (Nubank, ex-presidente do Banco Central)
- Christian Egan (B3)
- Daniel Goldberg (Lumina)
- Fábio Ermírio de Moraes (Grupo Votorantim)
- Fernando Simões (JSL/Simpar)
- João Camargo (Esfera Brasil)
- José Galló (ex-Renner)
- Pedro Parente (eB Capital)
- Richard Gerdau (Gerdau)
- Fábio Carvalho (Abril)
- o anfitrião Marcelo Kayath (QMS)
A Folha acrescentou Fábio Barbosa, conselheiro de Ambev e Votorantim. Pequenas diferenças de grafia entre as listas (Gallo/Galló, Ermínio/Ermírio) não alteram o recorte: estavam ali os principais bancos privados e nomes do conselho de grandes grupos.
Daniella Marques coordenou o bloco econômico. O Estadão registrou que Flávio a apresentou como “braço direito, esquerdo, perna direita e esquerda”.
Por que o mercado saiu sem resposta?
Relatos feitos à coluna de Herédia descrevem um candidato nervoso, que precisou da assessora para se acomodar à mesa. O anfitrião tentou aquecer o ambiente. Os convidados queriam saber qual é o projeto de país. “Saíram do jantar sem identificar uma proposta suficientemente estruturada”, escreveu a jornalista.
O Valor Econômico resumiu o mesmo vazio com outra palavra: falta de “profundidade”. Flávio apontou três frentes — segurança pública, disciplina fiscal e articulação com o Congresso —, sem transformar as bandeiras em medidas, prazos ou responsável técnico.
No Estadão, um participante classificou a noite como “um jantar de aproximação”. Marques falou em eficiência de gastos e ajuste das contas, também sem detalhar cortes.
O que Flávio disse sobre Centrão e STF?
Duas fontes do jantar disseram a Junqueira que o senador tratou o próprio isolamento eleitoral como trunfo. Sem composição prévia com o Centrão, afirmou ter liberdade para escolher ministros e “blindar” a área econômica — inclusive Minas e Energia — caso vença em outubro.
A pergunta sobre o programa econômico partiu de Maluhy, segundo a mesma apuração. Flávio não aprofundou números.
Sobre o STF, a questão atribuída a Goldberg foi direta: como conter o que o executivo descreveu como excesso de poder da Corte. A resposta relatada à CNN foi a via democrática pelo Congresso. O candidato não falou em impeachment. Disse esperar um Legislativo mais à direita e que isso faria o tribunal “voltar a respeitar a Constituição Federal”.
A campanha, no relato de Herédia, girou em torno da oposição ao PT e da recusa a um quarto mandato de quem, segundo Flávio, não resolveu os problemas centrais do país. Ficou em aberto a estratégia para o eleitor que não se reconhece no bolsonarismo nem no petismo.
Vários dos nomes da mesa de Kayath apareceram, dias depois, na agenda de Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio da Alvorada.
Quem é Marcelo Kayath e por que o anfitrião incomodou o Planalto?
Kayath votou em Lula em 2022, doou R$ 200 mil à direção nacional do PT, R$ 74 mil ao PSD em 2018, e chegou a ser cotado para a Fazenda e para o Banco Central, conforme a Folha. Lauro Jardim registrou que aliados de Flávio o veem como nome para a Fazenda. Em maio, o mesmo anfitrião já havia recebido o senador em Miami.
Em 31 de agosto, a coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, informou que Kayath ligou para Fernando Haddad depois do jantar, relatou o encontro e admitiu colaborar com a campanha de Flávio. Haddad, amigo antigo do anfitrião, teria pedido para ser avisado de agendas semelhantes. Ministros relataram ao colunista o desconforto de Lula, sobretudo com a presença de Trabuco.
O gesto descreve o método da elite financeira nesta disputa: sentar com os dois polos, medir risco e preservar canal. Quatro dias após o Itaim, Lula recebeu empresários e banqueiros no Alvorada. A CNN apurou que os convites do presidente haviam sido feitos em 15 de agosto, portanto antes do jantar de Flávio, e não como resposta automática a ele.
O que a noite diz sobre a candidatura
Herédia fixou o dilema estrutural: Flávio herdou base mobilizada do pai e ainda constrói pontes fora desse círculo. Parte da mesa preferia Tarcísio de Freitas como nome da direita. Reconhecer o senador como competitivo não é o mesmo que enxergá-lo com projeto de governo.
Na mesma sexta-feira (28 de agosto), Junqueira publicou análise em tom distinto — “Faria Lima já topa Flávio Bolsonaro” —, na qual descreveu o candidato como “digerível”, embora o mercado não se tenha encantado. A tensão entre as duas peças da própria CNN é útil ao leitor: abrir a porta da Faria Lima não fecha a conta do programa.
A análise do Urbs Magna separa o que está documentado do que permanece como aposta. Documentado: a lista, o nervosismo relatado, a recusa em detalhar o ajuste, a fórmula Congresso-Centrão-STF e o telefonema posterior a Haddad. Aposta: transformar essa mesa em governabilidade democrática, com regras claras para o orçamento público e para a relação entre os Poderes. Sem esse desenho, o jantar funciona como vitrine, não como contrato.
FAQ rápido
O jantar de Flávio com a Faria Lima teve apoio formal dos bancos?
Não. As reportagens descrevem um encontro reservado de aproximação. Nenhuma das fontes públicas apresentadas nesta matéria registra endosso institucional de Itaú, Bradesco, Santander, B3 ou Nubank.
O que o candidato prometeu sobre o STF?
Segundo duas fontes ouvidas pela CNN Brasil, Flávio disse que o caminho é o Congresso, sem falar em impeachment, e associou um Legislativo mais à direita a um Supremo que, em sua avaliação, voltaria a observar a Constituição.
Haddad teve relação com o anfitrião do jantar?
Sim. O Metrópoles descreveu Kayath como amigo de Haddad. A Folha e O Globo registram que o executivo foi cotado para postos econômicos no governo Lula e recusou convite para uma diretoria do Banco Central.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
