Brasília (DF)
17 de setembro de 2026
O Instituto Iter, fundado pelo ministro André Mendonça, recebeu R$ 5,2 milhões da Cedro Participações, holding do empresário mineiro Lucas Kallas, que manteve negócios em comum com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. A informação, publicada nesta quinta-feira (17/set) pelo UOL, chega no auge da crise que envolve a relatoria do caso Master no STF.
O que o contrato determina?
Segundo a reportagem de Cézar Feitoza, o acordo foi firmado em abril de 2024 na modalidade de mútuo conversível. O valor previsto era de R$ 5,9 milhões. Desse total, R$ 5,2 milhões chegaram ao instituto. Nesse tipo de operação, quem empresta pode depois converter o crédito em participação societária ou exigir a devolução do dinheiro.
O Iter afirmou que os recursos foram depositados na conta da pessoa jurídica e aplicados na estruturação e nas atividades da entidade, com acompanhamento contábil. Disse ainda que “jamais distribuiu a seus acionistas qualquer valor a título de lucro, dividendo ou participação nos resultados” e que “não houve, em nenhum momento, utilização dos recursos para finalidade diversa daquela contratualmente estabelecida”.
O contrato revelado não é, pelas fontes disponíveis, uma doação nominal a André Mendonça. Trata-se de mútuo entre a Cedro Participações e o Instituto Iter. A Cedro nega sociedade comercial com Daniel Vorcaro. O Iter nega que Vorcaro tenha participado das tratativas. Nenhuma das notas comprova, por si só, pagamento ilícito ao ministro. O ponto jornalístico é outro: o instituto fundado pelo relator do caso Master recebeu milhões de uma holding cujo controlador teve negócios e viagens documentados com o banqueiro investigado.
Quando o dinheiro parou — e o que veio depois
Em janeiro de 2026, o instituto interrompeu os repasses restantes e começou a devolver o valor à Cedro. Em nota ao UOL, o Iter declarou ter encerrado o empréstimo porque “já se encontrava em situação de sustentabilidade financeira”. Um aditivo antecipou o vencimento da dívida, com correção pela taxa Selic. Até a publicação da reportagem, cerca de 5,3% do total havia sido restituído.
No mês seguinte, em 12 de fevereiro de 2026, Mendonça foi sorteado relator das investigações do Master no Supremo, após a saída de Dias Toffoli. A cronologia não prova que a devolução tenha sido feita por causa da relatoria. Mostra, contudo, que o encerramento do mútuo e a assunção do processo ocorreram em sequência curta.
Procurado pelo UOL, o ministro não se manifestou sobre os R$ 5,2 milhões. O instituto informou que Mendonça e Kallas não discutiram os termos da operação. As tratativas, segundo o Iter, ficaram com o presidente da entidade e ex-ministro da Educação Victor Godoy Veiga, e com Carlos Adel de Freitas e Eduardo Soares de Couto, da Cedro.
Quem é Lucas Kallas e qual é o elo com Vorcaro
Lucas Kallas controla a Cedro Participações, holding com atuação em mineração, agronegócio e logística. A empresa declara faturamento anual de R$ 2,5 bilhões. A Cedro sustentou, em nota, que Vorcaro “jamais teve qualquer relação societária ou vínculo empresarial com os negócios da Cedro Participações ou de suas controladas”. Disse ainda que participar de companhias de capital aberto “não configura sociedade comercial”.
O UOL descreveu, no entanto, sobreposições empresariais e pessoais. No fim de 2023, a Cedro detinha 8% da biotecnológica Biomm. Em fevereiro de 2024, a gestora WNT, ligada a Vorcaro e a Nelson Tanure, também comprou ações da companhia. A participação do grupo de Vorcaro chegou a 25% em janeiro de 2025. Kallas investiu ainda na Latache Capital, gestora que chegou a ser acionista da Oncoclínicas, empresa que aplicou R$ 478 milhões em CDBs do Master.
E-mails extraídos do celular de Vorcaro, segundo a mesma reportagem, registram viagem dos dois a Caracas, no fim de novembro de 2023, para prospectar negócios de petróleo. Eles teriam ocupado suítes separadas num hotel cujo custo, de US23mil(cercadeR 121 mil), foi pago por Vorcaro. Três dias depois da última diária, em 4 de dezembro de 2023, os dois entraram no Palácio do Planalto no mesmo minuto, conforme o registro da portaria.
A Cedro informou ter saído da Biomm e da Latache em abril de 2026 para concentrar investimentos em mineração. Kallas afirmou que viagens integram a agenda regular da holding. A Revista Fórum registrou que o empresário não figura como investigado na Operação Compliance Zero, que apura as fraudes do Master.
O encontro na sede do próprio instituto
Há outro ponto de contato, anterior à relatoria. Em 14 de março de 2025, Mendonça recebeu Vorcaro na sede do Iter, em São Paulo. O encontro, de 20 a 30 minutos, foi confirmado pelo próprio ministro à Coluna do Estadão. A articulação envolveu o advogado Ciro Rocha Soares e o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP).
Em nota de 2 de setembro, o gabinete de Mendonça afirmou que o tema foi a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, sobre precatórios de interesse do banco, então com pedido de vista de outro ministro. O Supremo julgou o caso por unanimidade contra a tese defendida pelo empresário. O Iter também disse que uma tentativa posterior de incluir Vorcaro em evento da casa, em Belo Horizonte, foi barrada pelo CEO Victor Godoy.
No início de setembro de 2026, depois que o Núcleo Fórum Investiga apontou ao menos R$ 10.849.759,82 em 55 contratos e instrumentos públicos do Iter — 54 deles sem licitação prévia —, Mendonça deixou a sociedade. A entidade anunciou conversão em organização sem fins lucrativos. O instituto afirma que o ministro atuava no âmbito acadêmico e jamais recebeu dividendos.
Por que a revelação pesa agora
Flávio Dino já havia pedido ao presidente Edson Fachin explicações sobre o elo entre o Master, o Iter e contratos com a Prefeitura de São Paulo, citando o encontro de março de 2025, conforme o g1. A nova cifra privada se soma a esse debate no momento em que Mendonça relata o inquérito, Moraes acusa seletividade na quebra de sigilo e Fachin tenta conter o conflito interno da Corte.
Nesta quinta-feira (17/set), enquanto a reportagem do UOL circulava, a colunista Daniela Lima registrou que Mendonça foi aplaudido em voo de Brasília a São Paulo, com gritos de “nosso herói”. O gabinete não comentou o episódio. No mesmo dia, Fachin cancelou sessão que discutiria acusação de Moraes contra o relator, segundo a Reuters.
O problema institucional não depende de prova de propina neste contrato específico. Depende da aparência de proximidade entre o relator de um dos maiores escândalos financeiros do país, o instituto que ele fundou e um empresário da órbita de Vorcaro. Em um tribunal já tensionado pela disputa eleitoral de 2026, a dúvida sobre imparcialidade passa a ser, ela mesma, um fato político.
Dino cobrou apuração do elo institucional. Fachin adiou o exame conjunto das condutas dos ministros. A relatoria do Master permanece com Mendonça.
FAQ rápido
O instituto de Mendonça recebeu dinheiro direto de Vorcaro?
As fontes localizadas não mostram transferência da pessoa ou do Banco Master ao Iter neste contrato. O credor formal é a Cedro Participações, de Lucas Kallas.
O mútuo é ilegal?
O questionamento público recai sobre o conflito de interesses aparente, dado o papel atual de Mendonça no caso Master.
Mendonça ainda controla o Iter?
Segundo o UOL e o Estadão, o ministro deixou a sociedade no início de setembro de 2026. O instituto diz que ele não recebia lucros e atuava como docente.
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