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RESUMO
URBS MAGNA

| Brasília (DF)
30 de agosto de 2026

O jornal O Globo publicou neste domingo (30/ago) o editorial Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa, no qual recusa qualquer pedido de desculpas pela cobertura da Lava Jato. O texto responde à sabatina de quinta-feira (27/ago) no Jornal Nacional e importa porque reabre, em plena campanha de 2026, o conflito entre liberdade de informar e o modo como a grande imprensa construiu a imagem jurídica de Luiz Inácio Lula da Silva.

O que o editorial afirma?

A peça parte da cobrança feita pelo Presidente na entrevista conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli. Segundo o jornal, Lula “cita a Operação Lava-Jato e diz que a imprensa brasileira nunca pediu desculpas a ele”.

A âncora, “falando em nome do Grupo Globo”, teria rebatido: “O jornalismo da Globo cumpriu sua obrigação de noticiar os fatos durante aquela cobertura”.

O editorial descreve a operação como investigação da Polícia Federal e do Ministério Público, julgada em três instâncias, com “cifras bilionárias” e “confissões”. Diz que o jornalismo “não é adivinho” e “não grampeia ilegalmente juízes ou promotores”.

No texto, o editorialista admite, em seguida, que os grampos “revelaram que juiz e promotores não agiram de forma isenta e que havia conluio entre eles”. E cita a suspeição de Sergio Moro pelo Supremo Tribunal Federal e a anulação dos processos contra Lula.

E também lembra a frase de William Bonner em 2022 — “Portanto o senhor não deve nada à Justiça” — e a resposta de Lula sobre corrupção confessada: “você não pode dizer que não houve corrupção se as pessoas confessaram”.

O fechamento é direto: “Não há do que se desculpar.”

O que Lula disse no Jornal Nacional?

A sabatina foi ao vivo, depois do telejornal, na série de entrevistas com candidatos à Presidência. Relatos da Folha de S.Paulo, da BBC News Brasil e do G1 coincidem no eixo: perguntas sobre investigações que envolvem o filho Fábio Luís Lula da Silva, o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro (“Marcola”) e a lobista Roberta Luchsinger ocuparam fatia relevante do tempo.

Na Folha, o presidente afirmou na sexta-feira (28/ago), em Salvador: “A imprensa um dia vai pedir desculpa porque a imprensa brasileira comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu.”

No Brasil de Fato, a fala da quinta-feira (27/ago) aparece assim: “Eu fui vítima da Lava Jato, a maior mentira que contaram nesse país para me afastar da eleição. Eu fiquei 580 dias preso para provar que o Moro estava mentindo.” E: “A imprensa comprou essa mentira. A imprensa nunca me pediu desculpa por ter criado um monstro chamado Moro”.

O mesmo veículo registra a defesa da presunção de inocência do filho e a recusa a interferir na Polícia Federal. A Folha também reproduziu a ressalva de Lula sobre o ofício jornalístico: “Nunca espero que o jornalista vá fazer pergunta para me agradar.”

O que o editorial reconhece — e o que deixa de lado?

Há um ponto factual no qual o próprio O Globo não discrepa do acervo judicial: o STF declarou a suspeição de Moro e anulou condenações que pesavam contra Lula.

Em 8 de março de 2021, o ministro Edson Fachin afastou as condenações da 13ª Vara Federal de Curitiba por incompetência territorial. Em 23 de março de 2021, a Segunda Turma reconheceu a parcialidade no caso do tríplex do Guarujá. Em 23 de junho de 2021, o plenário confirmou essa suspeição por 7 votos a 4, conforme Folha, UOL e CNN Brasil.

O editorial trata esses julgamentos como prova de que a imprensa também noticiou a correção posterior. A lacuna está em outro lugar: o texto não examina o método da cobertura enquanto o processo ainda corria — quando a repetição de jargões acusatórios, a espetacularização de denúncias e a sincronia com a força-tarefa de Curitiba já produziam efeito político.

A anulação de condenação e declaração de suspeição do juiz não equivalem, por si sós, a um veredito de “nunca houve corrupção no entorno da Petrobras”. Tampouco equivalem a um atestado de que a cobertura jornalística tenha sido apenas o relato neutro de atos oficiais. São decisões do STF sobre competência, imparcialidade e validade de atos processuais. O editorial mistura esses planos quando afirma que “não há do que se desculpar”.

Qual método a cobertura ajudou a naturalizar?

Em 14 de setembro de 2016, o então procurador Deltan Dallagnol apresentou à imprensa um PowerPoint que colocava o nome de Lula no centro de um esquema descrito com expressões como “comandante máximo” e “maior beneficiado”. A denúncia formal tratava do tríplex; a peça de comunicação atribuía ao petista o comando de uma organização criminosa.

O G1 registrou a ação de danos morais. Em 2022, o STJ condenou Dallagnol a indenizar Lula, por entender que a apresentação usou qualificações incompatíveis com o dever funcional, conforme Veja e a coluna de Reinaldo Azevedo na Folha.

Aquele vocabulário — chefe, beneficiário, comandante, condenado antes do trânsito em julgado definitivo — circulou com força no telejornalismo. Dissertações e teses posteriores, como a de Camilla Shaw na UFF sobre enquadramentos de Moro no Jornal Nacional e a de Natasha Benevides Rodrigues na UERJ sobre cobertura massiva dos maxiprocessos, descrevem a publicização da culpa antes da sentença e a criminalização da política como efeito recorrente daquele ciclo.

A série Vaza Jato, publicada a partir de junho de 2019 pelo The Intercept Brasil, mostrou conversas em que o então juiz e procuradores discutiam estratégia, timing e impacto público. Em 15 de maio de 2026, o Consultor Jurídico noticiou estudo, baseado nesse acervo, segundo o qual a relação entre a Globo e a força-tarefa incluía vazamentos coordenados, escolha de datas de depoimento com olho no Jornal Nacional e articulação em torno das “Dez medidas contra a corrupção”.

O ConJur atribui o trabalho a doutor em Direito pela USP que não se identificou; o conteúdo remete a mensagens já divulgadas na Vaza Jato e à autobiografia de Rodrigo Janot.

O monitoramento do ‘Manchetômetro’, relatado pelo Brasil de Fato em 1º de fevereiro de 2020, apontou que o Jornal Nacional, na cobertura da Vaza Jato, deu mais espaço à contestação da autenticidade do material e à defesa de Moro do que à crítica ao conluio revelado.

Como o debate se moveu depois da sabatina?

Ainda neste domingo (30/ago), Leonardo Attuch escreveu no Brasil 247 que o editorial “desfaz ilusões” ao recusar acerto de contas depois de 580 dias de prisão, da anulação das condenações e do reconhecimento da parcialidade de Moro. O texto é opinativo e deve ser lido como tal.

Colunistas do próprio O Globo avaliaram a entrevista com notas baixas e ênfase na defensiva do presidente. A divergência pública, portanto, não é só entre Planalto e emissora: está dentro do campo jornalístico.

Por que isso importa nas eleições de 2026?

Sem converter opinião em fato, o editorial reduz o ofício da imprensa a “relatar fatos oficiais” e omite o intervalo em que a cobertura antecipou culpa, ampliou peças de acusação e conviveu com uma força-tarefa depois declarada parcial. Esse intervalo teve consequência institucional. A prisão de 2018 retirou Lula da urna. A correção do STF em 2021 restituiu direitos políticos.

Tratar o segundo momento como prova de isenção do primeiro esvazia o debate sobre democracia , devido processo legal e poder de agenda da televisão aberta. Investigar corrupção permanece dever da imprensa e do Estado.

O ponto em disputa não é se a Petrobras registrou prejuízo — o próprio Lula reconheceu confissões, segundo o editorial — e sim se a cobertura do Jornal Nacional operou como relato ou como caixa de ressonância de um método depois desautorizado pela mais alta corte do país.

O que permanece aberto é se o Grupo Globo aceitará discutir esse método com a mesma ênfase com que recusa o pedido de desculpas.

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1 comentário em “Globo diz que “Lula ainda não entendeu o trabalho da imprensa”; opinião omite método contra ele na lava jato”

  1. Reinaldo Gonçalves da Cruz

    A IMPRENSA É PAGA POR GRANDES GRUPOS ECONÔMICOS, PORTANTO, É SELETIVA, MOSTRA O QUE INTERESSA AO MERCADO, PERCEBERMOS QUE O COMPROMISSO COM A VERDADE, NEM SEMPRE CORRESPONDE COM REALIDADE

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