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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    17 de outubro de 2026

    Na sabatina da TV Globo desta sexta-feira (16/out), Flávio Bolsonaro afirmou que a produtora de Dark Horse “prestou contas de tudo” e que a Polícia Federal confirmou o áudio atribuído a Daniel Vorcaro sobre R$ 30 milhões “por fora” destinados a um filme de Lula. As duas afirmações são desmentidas por checagens jornalísticas, pelo liquidante do Banco Master e pela própria PF, que no mesmo dia pediu a prorrogação do inquérito que investiga o candidato.

    O diálogo, conduzido por Renata Lo Prete, girou em torno dos quase R$ 70 milhões (cerca de US$ 12,3 milhões) efetivamente enviados, a pedido de Flávio, de um total de aproximadamente R$ 134 milhões (cerca de US$ 24 milhões) negociados com Vorcaro. O dinheiro não foi direto à produtora brasileira: passou pela empresa Entre Investimentos e foi para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro.

    O QUE FLÁVIO DISSE SOBRE AS CONTAS DO FILME?

    Quando Renata perguntou por que o fundo, inativo por quase quatro anos, ainda não esclareceu o destino dos recursos, Flávio respondeu: “Mas já vieram a público quem… quem a produtora do filme aqui no Brasil, ela prestou contas de tudo. Não tinha um centavo que a produtora não usava que não tivesse autorização do fundo.”

    A afirmação é falsa. O UOL Confere classificou a declaração como FALSO: não existe prestação de contas pública completa sobre o filme. A perícia privada contratada pela própria produtora Go Up Entertainment indica custo aproximado de US$ 13 milhões (cerca de R$ 75 milhões) e atribui parte dos recursos ao Havengate, mas não detalha a origem completa nem todos os pagamentos. O fundo, originalmente criado para um empreendimento imobiliário no Texas que nunca saiu do papel, permaneceu operacionalmente inerte por anos até receber as remessas em 2025.

    No mesmo dia da sabatina, o liquidante da massa falida do Banco Master, Eduardo Bianchini, informou à Câmara dos Deputados que não encontrou “documentos, registros contábeis ou contratuais” de patrocínio ou financiamento do filme pelo banco, nem operações com o Havengate. A informação, publicada por O Globo e pela coluna de Mônica Bergamo na Folha, contradiz a narrativa de “patrocínio privado” formal.

    IMPORTANTE: A PF investiga se houve lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento de Dark Horse. Flávio é apontado como “interlocutor direto” de Vorcaro nas tratativas. O inquérito, sob o ministro André Mendonça do STF, teve pedido de prorrogação por mais 90 dias exatamente nesta sexta-feira (16/out). O delator Antônio Carlos Freixo Júnior (“Mineiro”) afirmou que a operação lhe foi apresentada como investimento imobiliário, não como filme.

    POR QUE A DIFERENÇA ENTRE R134 MILHO E R134 MILHO É DE 75 MILHÕES DE CUSTO?

    Flávio atribuiu a diferença a um “contrato que não foi cumprido” e disse que os recursos de Vorcaro e de outros investidores bastaram para concluir o filme. A perícia da produtora confirma o custo aproximado de R$ 75 milhões com recursos privados. O que permanece em aberto é o caminho completo do dinheiro que saiu de estruturas ligadas a Vorcaro, passou pelo fundo ligado a Eduardo e chegou (ou não) integralmente à produção. A PF pediu cooperação internacional aos Estados Unidos para rastrear os recursos do Havengate.

    O ÁUDIO SOBRE O FILME DE LULA E A AFIRMAÇÃO “CONFIRMADO PELA PF”

    Ao ser confrontado, Flávio citou o áudio divulgado pela revista Veja em 9 de outubro, no qual Vorcaro afirma ter colocado “até mais” em um filme de Lula, “por fora”, e que o de Flávio “foi patrocínio normal”. O candidato disse que a própria defesa confirmou a voz e que “está confirmado pela Polícia Federal”.

    Renata interrompeu: a entrevista se pauta por fatos estabelecidos em investigações ou apurações da Globo, e o tema “mistura coisas que a gente não tem um terreno firme para pisar”. Flávio insistiu; ela retrucou que não está confirmado pela PF.

    O UOL Confere também classificou a afirmação como FALSO. A PGR rejeitou a proposta de delação de Vorcaro por falta de provas (pagamentos alegados em espécie). Fontes da PF e da PGR ouvidas pela CNN afirmaram que o áudio não integrou depoimento formal aceito e que não há confirmação oficial do conteúdo. A campanha de Lula classificou o material como “farsa”. O relato atribui a intermediação a João Vaccari Neto (ex-tesoureiro do PT) e o recebimento a Paulo Okamotto, do Instituto Lula, em troca de acesso a fundos de pensão. Não há prova pública de que os R$ 30 milhões tenham sido efetivamente pagos.

    Flávio ainda chamou Vaccari de “Vacare” e disse que ele “toca o Instituto Lula”. O instituto é administrado por Paulo Okamotto. Vaccari foi condenado em casos de fundos de pensão na Lava Jato, mas não dirige a instituição.

    A COMPARAÇÃO COM A GLOBO E O CASO KACHAR

    Flávio equiparou o financiamento do filme a patrocínios comerciais da Globo (citou valores aproximados de R$ 100-160 milhões no programa de Luciano Huck) e à demissão de Frederic Kachar, ex-diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio, ocorrida na quinta-feira (15/out) após vazamento de conversas com Vorcaro. Renata esclareceu que compra de espaço comercial é transação de mercado, com regras de transparência e sem interferência editorial, enquanto o financiamento de um filme pedido por um senador candidato e roteado por fundo opaco nos EUA está sob investigação criminal. A Globo classificou a relação de Kachar como “inadequada” com um anunciante e o desligou.

    O QUE ACONTECE AGORA?

    A PF continua apurando a origem dos recursos, o destino final no Havengate e se parte do dinheiro pode ter servido a outras finalidades. Flávio mantém a defesa de que se trata de “patrocínio privado para um filme privado sem nenhuma contrapartida” e que, na época do pedido, Vorcaro “não tinha absolutamente nada de errado”. Os documentos públicos e as checagens mostram opacidade, ausência de registros formais de patrocínio no banco e afirmações factualmente incorretas feitas ao vivo.

    A análise aponta que a transparência exigida de um candidato à Presidência não se confunde com a defesa de uma relação privada. Quando o candidato afirma que “não tem nada a esconder”, o eleitor tem o direito de ver os contratos, o fluxo completo dos recursos e as respostas oficiais às investigações — não apenas a versão apresentada na entrevista.

    FAQ Rápido

    A produtora de Dark Horse prestou contas públicas de todos os recursos?
    Não. Não há prestação de contas pública completa. A perícia privada da própria produtora não detalha a origem integral dos valores que passaram pelo fundo Havengate.

    A Polícia Federal confirmou que Vorcaro pagou R$ 30 milhões “por fora” a um filme de Lula?
    Não. A PF não confirmou o conteúdo do áudio como fato estabelecido. A PGR rejeitou a delação por falta de provas.

    Flávio Bolsonaro está sendo investigado pelo financiamento do filme?
    Sim. Desde julho de 2026 a PF o investiga como interlocutor direto de Vorcaro. O inquérito (lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção) teve pedido de prorrogação por 90 dias nesta sexta-feira (16/out).


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