Brasília (DF)
06 de outubro de 2026
Nesta terça-feira (6/out), o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse ser contra o fim da escala 6×1 e ofereceu, no lugar, a “liberdade” de o trabalhador escolher a própria carga horária. A fala, gravada no QG da campanha em Brasília e replicada em vídeo nas redes, omite o efeito prático da alternativa do PL: quem trabalhar menos recebe menos. A proposta em discussão no Senado faz o caminho inverso e mantém o salário.
O QUE ELE DISSE
Questionado sobre a PEC que começa a ser debatida no plenário, Flávio Bolsonaro afirmou ter uma proposta “infinitamente melhor” do que a que está na mesa:
“Eu tenho uma proposta infinitamente melhor do que essa proposta que tá na mesa, que é a liberdade para o trabalhador escolher a sua própria carga horária. Tem muitas mães, por exemplo, que não conseguem trabalhar 8 horas por dia porque não têm com quem deixar seus filhos.”
Ele prometeu resolver os dois problemas de uma vez: um voucher de creche privada, quando não houver vaga na rede pública, e a possibilidade de a mãe montar a jornada — “trabalhar 4 horas por dia, 4 horas de manhã ou 4 horas à tarde, ou trabalhar no final de semana”. Completou que quem quiser trabalhar mais vai trabalhar mais, e quem não conseguir vai poder priorizar outras coisas da vida. O voucher é promessa de campanha. Não há, nas fontes consultadas, projeto aprovado nem fonte de custeio definida.
Nas redes sociais, o senador foi duramente criticado. O perfil abaixo afirma ter pesquisado a carreira de Flávio Bolsonaro e ironiza o fato de a direita, crítica do Estado, pretender eleger alguém que, segundo ela, só trabalhou como político: o primeiro emprego formal documentado teria sido o de assistente técnico da liderança do PPB na Câmara, em Brasília, de dezembro de 2000 a junho de 2002, aos 19 anos, por indicação do pai, com salário de R$ 4.712 em 2001 (cerca de R$ 13.500 corrigidos até 2019, segundo a BBC) e presença por folha mensal, enquanto cursava Direito presencial no Rio e estagiava na Defensoria — incompatibilidade apontada por reportagens da época, sem resposta da assessoria. Meses depois, em 2002, foi eleito deputado estadual pelo mesmo partido, início da carreira até o Senado; o comentário responde a uma postagem segundo a qual ele é contra o fim da escala 6×1.
A FRASE DAS REDES E O QUE A PROPOSTA REALMENTE FAZ
A leitura que circula — de que, se vencer, os eleitores dele terão de trabalhar duro — não é uma citação literal. É uma conclusão possível a partir do que ele defende. A alternativa articulada pelo coordenador de campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), e assinada também por Flávio, troca a redução geral da jornada por um regime de hora trabalhada, negociado entre patrão e empregado. Segundo a Folha e O Globo, a remuneração acompanha as horas. Jornada menor, salário menor. O texto não acaba com a 6×1.
IMPORTANTE: A PEC em discussão no Senado, a 221/2019, reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de repouso remunerado — um deles, de preferência, o domingo — e veda a redução do salário. A transição prevista é de 42 horas em 60 dias e 40 horas depois de 12 meses. A proposta de Flávio Bolsonaro não entrega esse mesmo direito: a hora a menos sai do bolso de quem reduzir a carga.
ONDE A FALA EXAGERA
Há dois pontos em que o candidato não está amparado pelo que as fontes mostram.
O primeiro é o timing. Flávio disse que Lula, “em 4 anos de governo, não faz” e só agora, “no meio do segundo turno”, viria “de uma forma oportunista” atrás de voto. A caracterização é política. O fato é outro. A PEC 221/2019 tramita desde 2019, foi aprovada na Câmara no primeiro semestre de 2026 e passou pela CCJ do Senado em setembro, com relatório de Omar Aziz (PSD-AM). O que ocorre nesta semana é o início das sessões de debate em plenário, pautadas por Davi Alcolumbre (União-AP) entre os dois turnos. O calendário tem efeito eleitoral. Não é um tema inventado na reta final.
O segundo é o poder de compra. Flávio afirmou que, no governo atual, “o brasileiro rala, trabalha, sua cada vez mais para comprar cada vez menos” e não tem folga para a família. Levantamento da consultoria 4intelligence, publicado pelo O Tempo no domingo (4/out), mostra o contrário em relação a 2022: o salário mínimo comprava, em agosto de 2026, 11,3% mais cestas básicas do que em agosto de 2022.
A renda média do trimestre encerrado em agosto também superava a de 2022. O piso de 2026 é de R$ 1.621, reajustado de 6,79%, acima da inflação, conforme o g1. O mesmo estudo registra que o poder de compra de alimentos ainda está cerca de 13% abaixo da média de 2010 a 2019. Dizer que se compra cada vez menos, porém, não se sustenta no dado mais recente.
O QUE A PEC MUDA PARA QUEM TRABALHA 6X1
A escala 6×1 é a rotina de seis dias de serviço e um de descanso, comum no comércio e em serviços. A PEC em plenário empurra o padrão para cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem corte de salário. Para virar emenda, precisa de 49 votos em cada um dos dois turnos do Senado. Antes da votação, o regimento exige sessões de debate. Alcolumbre manteve a pauta desta terça mesmo depois do primeiro turno de domingo (4/out).
Flávio Bolsonaro evitou, de novo, dizer como votará. Em agosto, na Record, já tinha recusado cravar o voto e repetido a tese da jornada montada pelo trabalhador, segundo o Valor Econômico. O plano de governo do PL não menciona o fim da 6×1. A única referência a jornada, conforme O Globo, é a combinação direta entre trabalhador e empresa.
POR QUE ISSO IMPORTA NO SEGUNDO TURNO
O fim da 6×1 é uma das bandeiras da reeleição de Lula. Para quem trabalha no comércio, em escala e no cuidado de filhos, a diferença entre as duas propostas não é de retórica. Numa, a hora a menos continua paga. Na outra, a hora a menos deixa de ser paga, e o acordo individual pode prevalecer sobre a negociação coletiva. A análise é que chamar isso de liberdade, sem dizer que o salário cai junto, transfere ao empregado o custo de um direito que a PEC em debate pretende garantir a todos.
O desdobramento imediato está no plenário. Se a oposição esvaziar as sessões, a votação não ocorre nesta semana. Se o governo reunir 49 votos nos dois turnos, a escala 6×1 deixa de ser a regra constitucional, com transição de um ano.
FAQ
Flávio Bolsonaro é contra o fim da escala 6×1?
Sim. Nesta terça-feira (6/out), ele criticou a PEC em discussão no Senado e defendeu uma alternativa em que o trabalhador negocia a própria carga, com pagamento por hora.
Quem reduzir a jornada na proposta dele continua ganhando o mesmo?
Não. Folha, O Globo e Metrópoles registram que a remuneração é proporcional às horas. Jornada menor significa salário menor. A PEC 221/2019 proíbe essa redução.
Lula só encampou o tema no segundo turno?
Não. A PEC é de 2019, passou na Câmara no primeiro semestre de 2026 e na CCJ do Senado em setembro. O que começa agora, entre os turnos, é o debate de plenário.
SIGA NAS REDES SOCIAIS

![]()
Compartilhe via botões abaixo:
