Brasília (DF)
16 de outubro de 2026
A campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, pagou R$ 600 mil à empresa de cibersegurança Elytron, que tentou vender nos Estados Unidos um sistema de inteligência artificial voltado a operações clandestinas de influência política em eleições, segundo reportagem exclusiva do Intercept Brasil publicada nesta sexta-feira (16/out). O partido também registrou pagamento de R$ 131,9 mil à mesma companhia. A informação é relevante porque envolve recursos públicos de campanha e a integridade do processo eleitoral brasileiro em pleno segundo turno.
O QUE OS REGISTROS DA JUSTIÇA ELEITORAL MOSTRAM?
Segundo o sistema DivulgaCand, da Justiça Eleitoral, constam três notas fiscais da Elytron para a campanha de Flávio. Duas, no valor de R$ 500 mil cada, foram emitidas em 16 de setembro de 2026; uma delas aparece como cancelada. A terceira, de R$ 100 mil, data de 2 de outubro. O total informado soma R$ 600 mil. Na prestação de contas parcial entregue no fim de setembro, a campanha havia declarado despesas de R$ 600 mil. Na prestação de contas parcial entregue no fim de setembro, a campanha havia declarado despesas de R$ 1 milhão com a empresa. O PL informou pagamento de R$ 131,9 mil em 20 de julho, descrito como “serviços técnico-profissionais”.
As notas fiscais citam atividades genéricas: “consultoria em tecnologia da informação”, “apoio forense”, “investigação de phishing”, “teste de segurança” e “monitoramento de infraestrutura”.
O QUE OS DOCUMENTOS REVELADOS DESCREVEM?
Documentos obtidos pelo Intercept por meio de Vincent Edward Reed, empresário e tecnologista norte-americano que atuou como consultor da Elytron entre 2024 e 2025, detalham uma oferta feita nos Estados Unidos. A operação previa coleta massiva de dados, identificação de grupos de eleitores e ações direcionadas como disseminação de boatos e desinformação, criação de contas falsas em redes sociais, uso de “técnicas de guerra psicológica” e métodos de infiltração para desacreditar adversários.
Reed relatou ao veículo: “Quando vi a demonstração [do sistema] e o dashboard, pude entender do que era capaz. E isso foi preocupante para mim porque vi que estava mirando eleitores e poderia atingi-los com deepfakes de IA”. Ele também afirmou que o termo “manipulação” foi usado e que denunciou o caso ao FBI e ao Comitê de Supervisão da Câmara dos Deputados dos EUA, sem avanço nas apurações. Reed ajudou a apresentar o sistema a pessoas ligadas à campanha de Donald Trump em 2024; não há confirmação de contratação.
IMPORTANTE: Os documentos descrevem uma oferta de ferramenta com potencial de influência clandestina. A reportagem do Intercept afirma expressamente que não há evidências de que o sistema tenha sido utilizado pela campanha de Flávio Bolsonaro ou pelo PL nas eleições de 2026. Os pagamentos comprovam relação financeira, mas não demonstram, por si só, a execução de operações ilegais.
COMO A CAMPANHA E A EMPRESA RESPONDERAM?
A campanha de Flávio Bolsonaro respondeu que “não contrata nenhum serviço que viole a legislação eleitoral” e classificou como grave e com “claro viés político eleitoreiro” a associação da contratação — descrita como serviço de segurança da informação contra ataques cibernéticos — a práticas de manipulação. Afirmou que a contratação seguiu procedimentos regulares. A resposta integral foi disponibilizada pelo Intercept.
A Elytron repudiou a associação de seu nome à disseminação de informações falsas, deepfakes ou operações clandestinas. Declarou atuar exclusivamente em segurança cibernética defensiva e que os serviços prestados à campanha e ao PL têm finalidade técnica e preventiva. A empresa negou ter prestado serviços à campanha de Trump ou autorizado apresentações para operações de influência política.
CONTEXTO E ANTECEDENTES
A Elytron é empresa brasileira de cibersegurança com sede em São Paulo, fundada em 2018. Seu site institucional destaca ferramentas de inteligência artificial e conceito de “Cyber Army”. A reportagem do Intercept aponta conexões da empresa com figuras do entorno bolsonarista, como o lutador Renzo Gracie, e com o empresário Pablo Marçal, que integrou a equipe de Flávio desde o fim de setembro de 2026 após ter sua candidatura à Presidência barrada por inelegibilidade.
O caso ocorre em um cenário de intensas disputas no Tribunal Superior Eleitoral sobre desinformação e uso de inteligência artificial nas eleições de 2026. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
O QUE ACONTECE AGORA?
A análise aponta que a transparência sobre o uso de recursos de campanha e a natureza exata dos serviços contratados permanece essencial para a confiança no processo democrático. A ausência de provas de uso do sistema descrito não elimina a necessidade de esclarecimento sobre a discrepância entre o valor declarado na prestação de contas parcial (R$ 1 milhão) e os lançamentos detalhados (R$ 1 milhão) e os lançamentos detalhados (R$ 600 mil).
FAQ Rápido
O que a Elytron ofereceu nos Estados Unidos?
Um sistema de inteligência artificial para operações de influência política que incluía mapeamento de eleitores, criação de contas falsas, disseminação de desinformação e técnicas de guerra psicológica, segundo documentos apresentados por um ex-consultor.
Há provas de que Flávio Bolsonaro usou esse sistema no Brasil?
Não. A reportagem do Intercept Brasil afirma que não há evidências de uso pela campanha ou pelo PL nas eleições de 2026.
Qual foi a resposta da campanha?
A campanha negou a contratação de qualquer serviço que viole a legislação eleitoral e afirmou que o contrato se destinava exclusivamente à proteção cibernética.
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