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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    30 de setembro de 2026

    Fernando Haddad classificou o histórico de Flávio Bolsonaro como “currículo tão podre” em plenária do PT em São Paulo, no dia 22 de setembro. A frase importa porque o senador do PL disputa a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva e porque o petista listou apurações públicas — rachadinha, milícia, Banco Master e emenda parlamentar — que o próprio candidato do PL contesta.

    O QUE HADDAD DISSE?

    A declaração ocorreu na Plenária de Mobilização do Partido dos Trabalhadores, no Espaço Cultural Elza Soares, na zona oeste da capital paulista, segundo a Agência Estado. Haddad, candidato do PT ao governo de São Paulo, afirmou: “Esse rapaz Flávio é muito novo para ter um currículo tão podre.”

    E acrescentou: “Veja esse rapaz, Flávio Bolsonaro. Quem é esse rapaz? Tudo que se sabe dele não é bom. Tudo. E se sabe muito pouco. E nada é bom. A gente tem a notícia de que ele se envolveu com rachadinha. Tem a notícia que ele se envolveu com a milícia. Tem a notícia que ele se envolveu com o Vorcaro do Banco Master. Tem a notícia que ele liberou emenda para miliciano.”

    Haddad disse ainda que o senador “só tem 40 anos e tem essa ficha corrida”. O registro civil aponta outra idade: Flávio Nantes Bolsonaro nasceu em 30 de abril de 1981 e tem 45 anos. A comparação política do petista foi com Lula, “há 50 anos lutando pelo Brasil” contra “a fome, a ignorância, a miséria e a desinformação”, segundo a mesma cobertura da Agência Estado.

    Várias das linhas que Haddad citou estão em investigação, foram denunciadas e depois recusadas pela Justiça ou voltam agora sob novos pedidos de reabertura. O que existe, e pode ser documentado, é o conjunto de apurações, vínculos e decisões judiciais.

    QUAIS APURAÇÕES HADDAD CITOU?

    A rachadinha na Alerj

    Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro denunciou Flávio Bolsonaro, o ex-assessor Fabrício Queiroz e outros investigados por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita no esquema conhecido como rachadinha no gabinete da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Em 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia. O caso não desapareceu do debate.

    Na terça-feira (29/set), o ministro Gilmar Mendes, do STF, manteve a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Danielle da Nóbrega, ex-assessora de Flávio na Alerj e ex-mulher do miliciano Adriano da Nóbrega. Na decisão, reproduzida pelo G1, Gilmar citou a avaliação do MP-RJ de que a conta de Queiroz teria funcionado como “centro de arrecadação de valores provenientes de diversos assessores vinculados ao gabinete do então Deputado Estadual Flávio Nantes Bolsonaro”. Relatórios do Coaf apontaram movimentações compatíveis com o repasse sistemático de parte dos salários.

    No mesmo período, o grupo Prerrogativas e o deputado Rui Falcão (PT-SP) pediram ao MP-RJ a reabertura do inquérito, com base em informações sobre um cofre no Banco do Brasil acessado na véspera da compra de imóveis em dinheiro vivo em 2012, segundo o Correio Braziliense.

    Milícia, medalha e folha de pagamento

    Quando era deputado estadual, Flávio apresentou moção de louvor a Adriano da Nóbrega em 2003 e, em 2005, propôs a Medalha Tiradentes ao então policial. Adriano estava preso preventivamente, acusado de homicídio. Anos depois, o MP-RJ o apontou como líder de milícia na Zona Oeste e integrante do chamado Escritório do Crime. Ele morreu em 2020, em confronto com a polícia na Bahia.

    A mãe e a então mulher de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio na Alerj. Em sabatina no Jornal Nacional, em 28 de agosto, o senador disse que a homenagem ocorreu quando Adriano “era um policial exemplar” e que “na época não era isso”, conforme o UOL.

    A emenda e o miliciano do caso Marielle

    A revista piauí e o Estadão mostraram que a assessora Maria de Fátima Bezerra Castro negociou, em 2023, a liberação de emenda de Flávio com Robson Calixto Fonseca, o Peixe, depois condenado pelo STF pelos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes. O valor apontado em petição do deputado Lindbergh Farias ao ministro Alexandre de Moraes é de R$ 199,9 mil ao Instituto de Formação Profissional José Carlos Procópio (Ifop), pago em novembro de 2023, segundo o Metrópoles.

    A defesa de Flávio disse ao Poder360 que a destinação foi regular e que a responsabilidade pela execução cabe a quem recebeu o recurso.

    Banco Master, Vorcaro e o filme Dark Horse

    O Intercept Brasil, a CNN Brasil e a Agência Brasil documentaram a tratativa entre Flávio e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Relatórios da Polícia Federal apontam pedido na casa de R$ 134 milhões e pagamentos da ordem de R$ 61 milhões. A PF descreve o senador como “interlocutor direto” de Vorcaro, com cobranças, reuniões e acompanhamento das gravações.

    Em 16 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!” O senador afirma que buscou patrocínio privado para filme privado e nega irregularidade. A produtora e o deputado Mário Frias disseram não ter recebido centavo de Vorcaro. A apuração no STF trata de suspeitas de lavagem, evasão de divisas e corrupção. Flávio nega.

    Há ainda inconsistência curricular à parte: páginas oficiais da Alerj e do Senado chegaram a atribuir ao senador pós-graduação na UFRJ que a universidade não confirma, episódio admitido pela campanha como erro, segundo o Valor Econômico.

    AVANÇOS DO GOVERNO LULA

    No trimestre encerrado em agosto de 2026, a taxa de desocupação ficou em 5,3%, a menor para o período na série da Pnad Contínua do IBGE, iniciada em 2012. A população ocupada chegou a 103,5 milhões, recorde da série. A Agência Brasil registrou também marcas em carteira assinada, massa salarial e contribuição previdenciária.

    Levantamentos anteriores da Tendências Consultoria, já usados em cobertura do portal, apontaram recomposição da classe média e recuperação de consumo nas faixas de menor renda após o período de 2019-2022. O governo atual recompôs o Bolsa Família, ampliou a faixa de isenção do Imposto de Renda e retomou a política industrial e o crédito à agricultura familiar — medidas que o eleitor sente no emprego e no supermercado, ainda que a polarização as transforme em disputa de narrativa.

    O BOLSONARO DEIXOU?

    O contraponto não é simétrico nem retórico. A CPI da Covid no Senado acusou o governo de Jair Bolsonaro de atraso injustificável na compra de vacinas da Pfizer e da CoronaVac, de irregularidades no contrato da Covaxin e de omissão com dolo no enfrentamento da pandemia, conforme o relatório relatado por Renan Calheiros e a cobertura do Estadão e da G1. O 8 de janeiro de 2023 e a condenação do ex-presidente por tentativa de golpe completam o quadro institucional que o filho agora tenta herdar como capital eleitoral.

    TEM ALGO ERRADO

    Pesquisas de intenção de voto, como a AtlasIntel/Bloomberg já relatada por este portal, têm mostrado Lula à frente em cenários de primeiro turno. Ao mesmo tempo, gestoras e o mercado de previsão passaram a precificar Flávio com cerca de 60% de chance, movimento que o próprio Urbs Magna registrou como cotação de apostadores, não como amostra do eleitorado. Confundir Polymarket com urna é erro metodológico. Tratar toda pesquisa desfavorável como golpe, sem prova de adulteração amostral, é outro.

    O que sustenta o voto em Flávio, à luz do debate público, é outro mecanismo: o sobrenome como atalho de identidade; a recusa a instituições que investigam o clã; o discurso de perseguição; e o ambiente digital em que denúncias viram “perseguição” e dados oficiais de emprego viram “maquiagem”. Não é necessário inventar entrevistado selecionado para reconhecer o efeito. A polarização brasileira já opera assim desde 2018. O eleitor que rejeita o PT por memória de crise e de Lava Jato pode votar no filho mesmo quando o currículo do filho é o objeto da frase de Haddad.

    Há ainda o vetor externo. Relatório da Abin citado pela Folha e reconstituído pelo Urbs Magna, em matéria sobre pressão dos Estados Unidos classificou como crítica a possibilidade de interferência norte-americana no pleito de 2026. Flávio aparece, nesse tabuleiro, como o nome que interessa a quem trata soberania brasileira como peça negociável. A análise é esta: o contraste não é apenas moral. É de projeto — Estado de bem-estar e política industrial de um lado; herança de ruptura institucional e alinhamento automático do outro.

    ESTABILIDADE x INCERTEZA

    A urna de 4 de outubro não julgará processo penal. Julgará memória. Haddad resumiu o dilema ao colocar 50 anos de militância de Lula diante de uma ficha que, mesmo sem sentença definitiva em todos os capítulos, já ocupa inquéritos, mensagens, emendas e quebras de sigilo. O brasileiro foi avisado, em relatórios do Coaf, em CPIs, em decisões do STF e agora no palanque de São Paulo. Persistência no mesmo atalho familiar não é mistério estatístico. É escolha política, com custo.



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