Brasília (DF)
20 de outubro de 2026
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) excluiu de sua conta no X publicações em que criticava o Bolsa Família e chamava o benefício de “bolsa-farelo”. Os posts eram de 2011, quando Flávio era deputado estadual no Rio de Janeiro. Mensagens de 2013 e 2014 também foram excluídas. Nelas, o então parlamentar associava o programa à manutenção da pobreza e acusava o PT de usá-lo com fins eleitorais.
Ele também utilizou o termo para se referir ao programa Renda Melhor, criado pelo governo do Rio de Janeiro em 2011. À época, a iniciativa pagava um benefício adicional de até R$ 300 para as famílias que já recebiam Bolsa Família. O objetivo era combater a extrema pobreza.
Um dos trechos recuperados, de 24 de novembro de 2011, em resposta ao jornalista Ancelmo Gois, diz: “Fui o único voto contra na @alerj ao projeto ‘Renda Melhor’, q chamei de ‘bolsa-farelo’, pelo seu caráter clientelista eleitoral”.
O print é eterno, Flávio. Bolsa-farelo? https://t.co/pcW7b4LJA9
— Dieguinho (@diegoschueng) October 20, 2026
Em junho de 2013, ele escreveu que o PT “perpetua a pobreza com o bolsa-farelo, mantendo as pessoas nessa dependência para não perder seus votos”. No ano seguinte, em referência à Comissão da Verdade, publicou: “#ComissãoDaVerdadeDescobre que dinheiro cai do céu e ninguém precisa trabalhar dobrado para manter quem vive de bolsa família”. Outra publicação de 2014 questionava a metodologia do desemprego: “Os milhões que recebem bolsa-família ou auxílio-desemprego, não procuram emprego. Para o PT, estão empregados”.
Em junho de 2026, o jornal O Estado de S. Paulo baixou o histórico completo das publicações de Flávio no X, com base em levantamento da AP Exata Inteligência, e publicou reportagem sobre a mudança de posicionamento do senador. A exclusão dos posts só pôde ser constatada porque o jornal tinha a planilha com texto, data, horário e links originais.
POR QUE ISSO IMPORTA?
O contraste é direto: nos últimos anos, e especialmente na campanha de 2026, Flávio Bolsonaro tem defendido a manutenção do Bolsa Família, chamando-o de “direito adquirido do povo brasileiro”. Nesta segunda-feira (19/out), ele reforçou em vídeo que o benefício está garantido e que quem recebe pode ficar “tranquilo”.
A exclusão dos posts antigos ocorre em meio a propostas da campanha para ampliar o período de transição para beneficiários que conseguirem emprego formal ou abrirem negócio. A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, disse em entrevista à CBN Bahia que um eventual governo Flávio pretende implementar uma regra de transição de dois anos, com retorno automático ao benefício caso a renda caia. Após a repercussão, ela gravou vídeo desmentindo a informação de que o programa seria encerrado e afirmou que, com Lula, a manutenção é de um ano e o retorno em até 36 meses; com Flávio, seria de dois anos e retorno automático.
O QUE O BOLSA FAMÍLIA REPRESENTA INTERNACIONALMENTE?
O programa, criado no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, é reconhecido por instituições internacionais. Em 2013, o Bolsa Família foi o vencedor da primeira edição do Award for Outstanding Achievement in Social Security, concedido pela Associação Internacional de Seguridade Social (ISSA), com sede na Suíça. O anúncio ocorreu em 15 de outubro de 2013, em Genebra, e a cerimônia de entrega foi realizada em novembro daquele ano, em Doha, no Catar, com a então ministra Tereza Campello recebendo a honraria.
A ISSA descreveu o modelo brasileiro como experiência excepcional e pioneira na redução da pobreza e promoção da seguridade social. O prêmio, concedido a cada três anos após avaliações técnicas, ficou conhecido no setor como o “Nobel da seguridade social”. Fontes oficiais da própria ISSA listam o Brasil (2013), especificamente pelo Bolsa Família, entre os vencedores históricos do prêmio.
Estudos posteriores reforçam impactos mensuráveis. Pesquisa publicada em 2025 na revista The Lancet Public Health, liderada por pesquisadores da UFBA e parceiros internacionais, estimou que o programa evitou mais de 700 mil mortes e cerca de 8 milhões de internações hospitalares entre 2004 e 2019, com efeitos mais fortes em crianças menores de cinco anos e idosos. Condicionalidades de frequência escolar e vacinação são apontadas como elementos centrais do desenho.
O QUE ACONTECE AGORA?
A campanha de Flávio afirma que não pretende extinguir o programa e propõe mecanismos de transição mais longos para incentivar a formalização. Críticos, como o vereador Nabil Bonduki, argumentam que apagar o histórico não altera o registro público de posicionamentos anteriores. Até o momento, não houve esclarecimento oficial da equipe de Flávio sobre a motivação das exclusões.
IMPORTANTE: A exclusão de posts antigos não altera o conteúdo das publicações originais, que foram preservadas por arquivos jornalísticos e levantamentos de dados. O discurso atual de manutenção do programa é o registrado nas falas recentes do candidato e de sua equipe.
A análise aponta que o episódio ilustra a tensão recorrente em campanhas brasileiras entre o histórico de críticas a programas de transferência de renda e a necessidade eleitoral de garantir a permanência de políticas com amplo alcance social e reconhecimento internacional.
FAQ Rápido
Flávio Bolsonaro apagou os posts?
Sim. Publicações de 2011, 2013 e 2014 em que usava o termo “bolsa-farelo” deixaram de estar disponíveis em sua conta no X, conforme apuração do Estadão, UOL e O Globo.
O Bolsa Família ganhou prêmio internacional?
Sim. Em 2013, o programa venceu a primeira edição do Award for Outstanding Achievement in Social Security da ISSA, anunciado em Genebra e entregue em Doha.
Flávio promete manter o Bolsa Família?
Sim. O candidato tem afirmado publicamente que o benefício é um direito adquirido e que será mantido, com propostas de transição para quem aumentar a renda.
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