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    RESUMO
    URBS MAGNA


    Brasília (DF)
    02 de novembro de 2026

    O programa Fantástico, da TV Globo, exibiu reportagem com documentos exclusivos do sistema de imigração da Argentina que detalham a logística da saída do então candidato derrotado Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos. A matéria mostrou a rota da família, passagens por fronteira terrestre, empresas de fachada, personagens até então desconhecidos do público e um jatinho de luxo pago por um intermediário nos Estados Unidos. O material faz parte de uma investigação feita em cooperação internacional.

    A ROTA DA FUGA

    Segundo a reportagem, Flávio Bolsonaro teria deixado Brasília em um avião ligado ao advogado Wiler Tomás — citado em uma das versões como William Tomás. O jato de prefixo PR-AAA decolou às 5h05 da manhã da terça-feira, 27 de outubro, e pousou às 8h40 em San Fernando, na região de Buenos Aires. De lá, o senador teria seguido em outro voo privado para o aeroporto de Puerto Iguazú, cidade argentina na fronteira com Foz do Iguaçu, no Paraná. O aeroporto tem pista de 3.300 metros, capaz de receber grandes jatos executivos.

    A mulher de Flávio, Fernanda, e as duas filhas do casal teriam seguido outra rota. Saíram de Brasília em um segundo avião com destino a Cascavel, no oeste do Paraná. Ali começou a etapa terrestre da operação. Imagens obtidas pelo Fantástico mostram uma van chegando ao hangar do aeroporto de Cascavel às 20h02 do dia 27 de outubro. O veículo é identificado como sendo da Iguaçu Dallas Travel Turismo Limitada, de Foz do Iguaçu.

    A EMPRESA FANTASMA E O CRUZAMENTO DA FRONTEIRA

    A reportagem foi ao endereço da empresa que consta nos registros da Receita Federal, mas no local existe apenas um estacionamento. Pessoas que trabalham nas proximidades disseram nunca ter visto a empresa de turismo funcionar ali. Uma funcionária do estacionamento afirmou ser irmã de uma das representantes da Dallas e disse não saber onde a empresa opera.

    Pelos dados oficiais do sistema de imigração da Argentina, duas vans da empresa cruzaram a fronteira por Foz do Iguaçu em direção à Argentina naquela noite. Os registros indicam que Flávio Bolsonaro estaria dentro de uma delas. Na van que saiu de Cascavel aparecem os dados da mulher e das duas filhas do senador.

    O que chamou a atenção foram os registros do próprio Flávio no sistema: são três entradas por via terrestre na Argentina, na mesma van. Às 22h37, com passaporte italiano. Às 22h40, com dados da carteira de identidade. Às 23h11, com passaporte brasileiro. Os dois registros com documentos brasileiros foram cancelados. O único que permaneceu válido foi o da entrada com passaporte italiano.

    Segundo a investigação, a van que transportava a família passou pelo controle de imigração por volta das 22h40. A outra van tinha passado cerca de sete minutos antes. Os registros migratórios mostram a entrada de três homens associados a esse segundo veículo: o motorista Neri Luiz da Lacorte; o advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro; e um cidadão israelense identificado como Menahen Boqi HaLevi, que seria um ex-oficial do Serviço de Inteligência de Israel.

    O EX-OFICIAL ISRAELENSE E O ADVOGADO

    Menahen aparece em fotografias em eventos com autoridades israelenses, inclusive o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, além de feiras internacionais de equipamentos de segurança. Ele entrou no Brasil pelo aeroporto de Guarulhos no dia 19 de outubro. Os registros indicam que já havia estado outras três vezes no Brasil neste ano.

    Na quinta-feira, quando pretendia embarcar para Bogotá, na Colômbia, no aeroporto internacional de Guarulhos, foi levado pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos. Depois do depoimento, comprou uma nova passagem, desta vez para os Estados Unidos.

    O Fantástico apurou que o advogado Roberto Jorge Alexandre também tinha passagem para o mesmo voo com destino à Colômbia e embarcou normalmente. Alexandre advogou para o ex-presidente Jair Bolsonaro e o visitou no complexo penitenciário da Papuda, em Brasília. A reportagem tentou falar com o advogado em diferentes números de telefone, mas não conseguiu completar a ligação.

    Os motoristas das duas vans seriam pai e filho. O Fantástico encontrou Neri Luiz da Lacorte em casa. Ele contou que sua missão foi buscar dois homens em um posto de gasolina em Foz do Iguaçu e levá-los até o aeroporto da cidade. Neri negou que o filho estivesse ao volante da outra van e disse não ter visto qualquer pessoa da família Bolsonaro: “Aí, eu tirei-os lá no aeroporto. E desceram, eu fiz a volta. E quando estava saindo, tinha uns repórter assim na minha frente: ‘Você é que o Bolsonaro?’ Não, não, não sei de nada. A ninguém, ninguém, ninguém, ninguém, ninguém, ninguém.”

    A Dallas Turismo publicou notas nas redes sociais negando que o candidato derrotado tenha sido transportado em um dos veículos da empresa.

    O QUE DIZ A IMPRENSA ARGENTINA

    O jornalista argentino Nicolás Munafó estava no aeroporto de Puerto Iguazú quando as vans chegaram. Ele contou ao Fantástico que conseguiu falar com o motorista de uma delas, Neri Luiz da Lacorte: “A gente ficou na frente do carro para fazer o motorista parar e perguntar se ele tinha levado ou trazido Bolsonaro. Bom, primeiro ele disse que não… Depois respondeu em português: ‘Ninguém, ninguém’, foi isso que ele respondeu.”

    Nicolás disse que viu as vans sendo acompanhadas por outros carros, inclusive veículos oficiais argentinos: “O que encabeçava a frente, vamos dizer assim, da comitiva, vi uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária, que é responsável pelos aeroportos da Argentina. Depois, vimos sair duas caminhonetes brasileiras, com placas do Brasil e motoristas brasileiros. Em seguida, mais duas caminhonetes argentinas, uma delas com placa diplomática.”

    Apesar de os registros da imigração indicarem que ele entrou no país por terra, fontes ouvidas pelo Fantástico afirmam que a principal linha de investigação é a de que Flávio Bolsonaro desembarcou ali de avião, vindo de Buenos Aires. A suspeita é de que ele tenha ficado por horas dentro da aeronave à espera da família. Investigadores apuram relatos de que funcionários do aeroporto teriam visto o senador dentro do avião.

    A REAÇÃO NA ARGENTINA

    A operação provocou questionamentos na Argentina. A justiça do país determinou a preservação de imagens das câmeras de segurança da fronteira e do aeroporto de Puerto Iguazú.

    Em entrevista ao Fantástico, a deputada argentina Marcela Pagano disse que cobrou esclarecimentos sobre a operação. Ela afirma que testemunhos e imagens dão conta de irregularidades por parte do governo já a partir da entrada de Flávio e da família no país: “A irregularidade na passagem pelo controle de migração argentino, a escolta de policiais e depois o transporte em carros diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. São estes os elementos para que a justiça cobre explicações das autoridades argentinas sobre como puderam autorizar essa operação.”

    O Fantástico perguntou ao governo argentino se houve colaboração na fuga de Flávio Bolsonaro e na ida do senador aos Estados Unidos. O secretário de comunicação da presidência, Fabián Fernández, respondeu que eles não têm nada a dizer.

    O JATINHO E O PAGAMENTO

    O avião escolhido para levar Flávio Bolsonaro e a família aos Estados Unidos foi um jatinho de luxo Gulfstream G400 de prefixo LV-JQW, operado pela empresa argentina Baires Fly. O dono da empresa é o empresário argentino Luis Grande.

    Em entrevista à agência France-Presse, ele revelou que o voo custou 150 mil dólares (cerca de 800 mil reais) e que o pagamento foi feito por um intermediário do setor de aviação que mora nos Estados Unidos. O dinheiro saiu de uma conta empresarial em um banco americano e foi transferido para um banco argentino.

    Luis Grande não revelou o nome do intermediário e disse não saber quem era o contratante final do voo. Veículos da imprensa americana apontaram que Jason Miller, assessor do presidente Donald Trump, foi quem providenciou a viagem. Flávio e Eduardo Bolsonaro estiveram com ele nos Estados Unidos quando Flávio ainda era pré-candidato à presidência.

    Reportagem do jornal argentino Clarín afirma que agentes americanos assumiram o controle de parte do aeroporto de Puerto Iguazú para a fuga de Flávio. Na mesma semana, o presidente Donald Trump disse que não tomou partido nas eleições brasileiras, e o secretário de Estado, Marco Rubio, negou qualquer colaboração com a saída de Flávio do Brasil.

    O avião que levou a família fez uma escala em Guayaquil, no Equador, para abastecer, e depois seguiu para Miami, nos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro, a mulher e as duas filhas desembarcaram na manhã de quarta-feira no aeroporto executivo de Opa-locka. A saída da família do aeroporto foi acompanhada por helicópteros de emissoras de televisão americanas, e os carros seguiram com escolta policial até a região de Pembroke Pines, na Flórida. O destino final da família não foi confirmado.

    A CARTA E AS INVESTIGAÇÕES

    Horas depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro divulgou uma carta contestando o resultado da eleição presidencial, sem apresentar provas de fraude. Na primeira versão, ele se apresentava como o verdadeiro presidente eleito do Brasil; em outra versão, passou a se apresentar como o líder do Brasil.

    O advogado Frederico Aseff, que representa Flávio Bolsonaro, disse ao Fantástico que nenhuma informação sobre a viagem do senador é oficial ou foi confirmada, e negou que tenha sido uma fuga. A reportagem não obteve resposta da empresa aérea Baires Fly. Já a assessoria de Wiler Tomás afirma que é falsa a informação de que a aeronave pertencente a ele ou a empresas vinculadas à sua família tenha sido utilizada pelo senador ou por seus familiares para deixar o Brasil.

    Flávio Bolsonaro é senador da República até o fim de janeiro, quando ficará sem mandato pela primeira vez em 24 anos e perderá o foro privilegiado. Ele é investigado pelo STF em dois inquéritos: um por lavagem de dinheiro com o advogado Wiler Tomás, num caso ligado a apostas esportivas; outro no caso que envolve os repasses para o filme Dark Horse, feitos pelo ex-banqueiro Daniel Valcar. A defesa de Wiler Tomás sustenta que ele não cometeu crime algum de lavagem de dinheiro e que suas movimentações financeiras foram realizadas de maneira plenamente rastreável.

    A ANÁLISE

    A reportagem do Fantástico transforma em documento o que até então circulava como versão: a saída de Flávio Bolsonaro não foi uma viagem comum, mas uma operação com múltiplas camadas, empresas de fachada, personagens internacionais e pagamento por interposta pessoa. Os registros de imigração da Argentina — três entradas do mesmo passageiro em menos de quarenta minutos, com documentos diferentes — são o dado mais eloquente. Não se trata de um erro de sistema, mas de uma sequência de tentativas de cruzar a fronteira com identidades distintas, da qual sobreviveu apenas a versão com passaporte italiano.

    A análise indica que o episódio desloca o debate do campo político para o campo jurídico. A investigação em cooperação internacional, a preservação de imagens determinada pela justiça argentina e a atuação da Polícia Federal sobre um ex-oficial de inteligência estrangeiro sugerem que a fuga pode ter desdobramentos que ultrapassam a crise eleitoral brasileira. A pergunta que permanece aberta não é mais para onde Flávio foi, mas quem financiou, quem articulou e por que um governo estrangeiro teria interesse em facilitar a saída de um senador brasileiro derrotado.

    FAQ Rápido

    O que o Fantástico revelou sobre a fuga de Flávio Bolsonaro?
    A reportagem mostrou documentos da imigração argentina com três registros de entrada de Flávio por via terrestre em Puerto Iguazú, sendo válido apenas o do passaporte italiano. Também revelou vans de uma empresa fantasma, um ex-oficial da inteligência israelense e um jatinho de US$ 150 mil pagos por intermediário nos EUA.

    Quem são os personagens envolvidos na operação?
    Além de Flávio e da família, a investigação aponta o motorista Neri Luiz da Lacorte, o advogado Roberto Jorge Alexandre e o israelense Menahen Boqi HaLevi, descrito como ex-oficial do Serviço de Inteligência de Israel.

    O que acontece agora com Flávio Bolsonaro?
    Ele segue nos Estados Unidos e é investigado pelo STF em dois inquéritos. Seu mandato de senador termina no fim de janeiro, quando perderá o foro privilegiado. A defesa nega que a viagem tenha sido uma fuga.


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