Brasília (DF)
17 de outubro de 2026
Na sabatina da TV Globo desta sexta-feira (16/out), o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) afirmou à jornalista Renata Lo Prete que pretende manter reajustes do salário mínimo acima da inflação, não desvincular o percentual do piso das aposentadorias e não alterar a Constituição para eliminar pisos de saúde e educação. Ao mesmo tempo, apresentou caminhos para um ajuste fiscal da ordem de R$ 200 bilhões anuais com base em cortes de ministérios, recuperação de estatais, securitização de imóveis da União e de dívida ativa, além da margem equatorial. Dados oficiais e avaliações de economistas indicam imprecisões relevantes nesses números e limites concretos para atingir a meta sem mexer nas principais despesas obrigatórias.
O QUE FLÁVIO BOLSONARO AFIRMOU SOBRE O AJUSTE
Questionado de forma objetiva, o candidato respondeu “sim” à manutenção de reajustes do mínimo acima da inflação e “não” tanto à desvinculação do percentual usado nas aposentadorias quanto à eliminação constitucional dos pisos de saúde e educação. Em seguida, criticou o que classificou como “terrorismo” da campanha adversária sobre estatais e servidores e defendeu que “o maior ajuste fiscal que o Brasil pode fazer é tirar o Lula”.
Sobre as contas, afirmou que o Boletim Focus de outubro de 2022 projetava taxa de juros “em torno de 7%” para o momento atual, enquanto hoje está “em 14%”, gerando, segundo sua conta, quase R$ 11 trilhões a mais em juros em quatro anos sobre uma dívida de R$ 11 trilhões. Citou ainda um “gap de 54 bilhões” nas estatais (18 bi de superávit no governo anterior versus 36 bi de prejuízo no atual), mais de 30 mil imóveis avaliados em R$ 1,7 trilhões que poderiam gerar cerca de R$ 200 bilhões via fundo e securitização, quase R$ 3 trilhões em dívidas a receber que também poderiam render R$ 200 bilhões anuais, e mais de R$ 100 bilhões “de largada” com a margem equatorial.
JUROS: A PROJEÇÃO DE 2022 E O CÁLCULO ATUAL
O Boletim Focus de meados de outubro de 2022, conforme reportagens da época (Exame e Diário do Grande ABC, entre outras), projetava Selic de 13,75% no fim de 2022, 11,25% em 2023, 8% em 2024 e cerca de 7,75% em 2025. A projeção de longo prazo próxima de 7-8% existia para anos posteriores, mas não era a mediana para o horizonte imediato de 2026. Atualmente, a Selic está em 13,75% e o Focus de 13 de outubro de 2026 projeta 13,25% no fim do ano, segundo o Banco Central.
A dívida bruta do governo geral alcançou R$ 11,1 trilhões em agosto (82,9% do PIB), conforme dados do Banco Central reproduzidos pelo Valor Econômico. O diferencial de cerca de 7 pontos percentuais em relação a projeções antigas de longo prazo é real, mas o impacto exato de “quase 1 trilhão” em quatro anos depende da composição da dívida, do prazo médio e da curva de juros, não de uma multiplicação simples. A direção do argumento (juros mais altos elevam o custo da dívida) está correta; a precisão do número e da projeção de 2022 para “este momento” é imprecisa.
ESTATAIS: SUPERÁVIT E DÉFICIT SEGUNDO O TCU
Auditoria do Tribunal de Contas da União, baseada em estatísticas do Banco Central que excluem Petrobras e bancos públicos, mostra que as estatais não dependentes acumularam superávit de R$ 17,46 bilhões entre 2019 e 2022. No período de janeiro de 2023 a maio de 2026, o déficit acumulado chegou a R$ 18,48 bilhões, conforme reportagens de outros veículos que reproduziram o relatório do TCU. O gap real fica próximo de R$ 36 bilhões, na ode R$ 54 bilhões. O número de 36 bi de prejuízo citado por Flávio não corresponde ao total acumulado oficialmente divulgado até maio de 2026. A inversão de resultado é fato; a magnitude apresentada está superestimada.
IMÓVEIS DA UNIÃO: 30 MIL OU CENTENAS DE MILHARES?
A Secretaria do Patrimônio da União (SPU), vinculada ao Ministério da Gestão, administra um patrimônio da ordem de 761 mil a cerca de 784 mil imóveis, avaliados em aproximadamente R$ 1,72 trilhões a R$ 1,8 trilhão, segundo a Lista de Alto Risco do TCU e publicações oficiais e jornalísticas (Folha, Valor, TCU). Flávio falou em “mais de 30 mil imóveis”. O número está subestimado em mais de 20 vezes. Cerca de 10 mil imóveis estão desocupados, segundo o TCU, e a gestão enfrenta problemas de cadastro, avaliação desatualizada e baixa arrecadação patrimonial (R$ 1,17 bilhão em 2023). O governo atual já estuda fundir com imóveis sem uso (reportagens da Folha e do Valor de 2025−2026). Securitizar para obter R$ 1,17 bilhões em 2023. O governo atual já estuda fundir com imóveis sem uso (reportagens da Folha e do Valor de 2025−2026). Securitizar para obter R$ 200 bilhões de receita nova “já” é possível em tese, mas depende de regularização, avaliação atualizada, interesse do mercado e deságio. Economistas e a própria experiência recente de leilões (que renderam valores baixos) indicam que a receita imediata dessa magnitude não está assegurada.
DÍVIDA ATIVA E MARGEM EQUATORIAL
A dívida ativa da União e do FGTS está na casa de R3,1aR 3,3 trilhões, segundo dados da PGFN e Balanço Geral da União. Parte relevante é classificada como de difícil recuperação. A Lei Complementar 208/2024 permite a securitização. Obter R$ 200 bilhões por ano de forma recorrente, porém, supera largamente o histórico de recuperação e as experiências de estados e municípios. O número é otimista e não sustentado por taxas de recuperação observadas.
Na margem equatorial, o Ibama autorizou perfuração e a Petrobras já realizou descobertas no Amapá em 2026, com potencial geológico estimado em dezenas de bilhões de barris (CNI e ANP). A afirmação de que o governo Lula “não fez, não conseguiu iniciar” a exploração não corresponde aos fatos recentes. Receita de “mais de 100 bilhões de largada” permanece potencial e depende de confirmação comercial, investimentos e cronograma de produção, não de receita imediata.
VIABILIDADE DO AJUSTE DE R$ 200 BILHÕES SEM MEXER NO NÚCLEO OBRIGATÓRIO
Assessores da campanha de Flávio (incluindo Daniella Marques) têm sinalizado ao mercado um ajuste da ordem de 1,5% do PIB, cerca de R$ 200 bilhões, via PEC de transição, com foco em reforma administrativa, redução de ministérios, combate a fraudes e gestão de patrimônio. Reportagens da Veja, Gazeta do Povo, Nexo e O Globo registram essas conversas. Economistas ouvidos por esses veículos e pelo governo (ministros Bruno Moretti e Guilherme Mello, entre outros) apontam que cerca de 90% das despesas primárias são obrigatórias (Previdência, benefícios sociais, pisos constitucionais, pessoal). Sem desvincular o mínimo, alterar pisos ou revisar regras de reajuste, o espaço discricionário não comporta corte dessa magnitude em um ano. Receitas extraordinárias (imóveis, dívida ativa, petróleo) são pontuais ou de realização lenta. A análise aponta que a promessa, tal como formulada na sabatina, carece de detalhamento suficiente e enfrenta restrições estruturais reconhecidas por diferentes correntes econômicas.
IMPORTANTE: As declarações de Flávio Bolsonaro sobre manter o reajuste do salário mínimo acima da inflação e não desvincular o percentual das aposentadorias ou eliminar pisos constitucionais são afirmações do candidato. A viabilidade de um ajuste de R$ 200 bilhões anuais sem tocar nessas despesas não foi demonstrada com planilha pública detalhada. Números de estatais, quantidade de imóveis e receita imediata de securitização apresentam divergências em relação a dados oficiais do TCU, SPU e Banco Central.
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