Brasília (DF)
19 de setembro de 2026
O sociólogo Celso Rocha de Barros afirma neste sábado (19/set) na Folha de S.Paulo que o filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro, funcionou como caixa 2 do tarifaço e ponto de contato entre o caso Banco Master e o lobby nos Estados Unidos.
O texto parte de uma cronologia: pagamentos atribuídos a Daniel Vorcaro ao projeto cinematográfico coincidem com a decisão de Eduardo Bolsonaro de se estabelecer de forma definitiva nos Estados Unidos. A leitura é analítica. Os documentos e as reportagens citados descrevem tratativas, remessas e agendas; não encerram, por si sós, a destinação final de cada dólar.
Segundo a coluna, “novas evidências sugerem que ‘Dark Horse’ foi o caixa 2 do tarifaço”. Rocha de Barros escreve que o volume negociado com Vorcaro seria excessivo para a produção de um filme e insuficiente, isoladamente, para explicar só o padrão de vida de Eduardo Bolsonaro no exterior, mas “pode ser um valor adequado para pagar lobistas e comprar acesso aos escalões superiores do governo Trump”.
A coluna distingue o que chama de discussão sobre inconsistências de um filme da hipótese de desvio de recursos do Master para financiar pressão externa sobre o Brasil. Essa segunda leitura é apresentada como interpretação do autor, não como sentença judicial.
A MENSAGEM NO CELULAR DE VORCARO
Reportagem de Leticia Casado no UOL, em 13 de setembro, descreveu mensagem encontrada no celular de Vorcaro. O publicitário Thiago Miranda escreveu: “Flavio B e Eduardo querem marcar uma agenda com vc. Filme.”
De acordo com o UOL e com reproduções posteriores do relatório da Polícia Federal, a mensagem saiu às 9h34 do dia 18 de março de 2025. No mesmo dia, às 11h37, Eduardo convocou uma live para anunciar que ficaria nos Estados Unidos. A coluna da Folha datou a mensagem em 13 de março de 2025; as reportagens que tiveram acesso ao relatório policial apontam 18 de março.
O relatório, segundo o UOL, não informa se a reunião ocorreu nem qual foi a resposta de Vorcaro. Três dias depois, em 21 de março de 2025, Miranda encaminhou ao banqueiro captura de tela de conversa atribuída a Eduardo com orientações sobre a gestão de recursos nos Estados Unidos e menção a Altieres Santana, então ligado ao fundo Havengate.
Em nota reproduzida pelo UOL, Eduardo Bolsonaro afirmou que nunca se encontrou com Vorcaro, pessoalmente ou por videoconferência, e que nunca falou com ele por WhatsApp. Disse ainda que, no início de 2025, “não teria nenhum problema em me encontrar com qualquer investidor ou potencial investidor do filme” e rejeitou a ligação entre o anúncio de permanência nos EUA e o dinheiro do filme.
O DINHEIRO E O FUNDO NOS ESTADOS UNIDOS
O financiamento do filme veio a público em maio de 2026, quando o The Intercept Brasil revelou tratativas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em torno de cerca de US$ 24 milhões. Reportagens seguintes, inclusive da revista piauí, descreveram remessas da Entre Investimentos, empresa ligada a Antônio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, ao fundo Havengate, no Texas.
O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado que assessorou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A PF identifica ao menos US$ 12,3 milhões remetidos em 2025. A apuração de setembro registrou uma parcela adicional de US$ 1,66 milhão em 16 de setembro de 2025, posterior ao período que Flávio havia indicado como encerramento dos pagamentos.
A produtora Go Up Entertainment afirmou, em diferentes momentos, que não recebeu recursos diretamente de Vorcaro e que havia acordo de confidencialidade com investidores. Perícia contratada pela defesa da produtora declarou custo total próximo de US$ 13,4 milhões, valor que a empresa atribuiu a aportes do próprio Havengate.
A investigação sob relatoria do ministro André Mendonça, no STF, apura corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Uma das hipóteses da PF, já noticiada por veículos como G1 e Estadão, é que parte dos recursos tenha custeado a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Essa hipótese permanece em apuração.
EDUARDO, O MASTER E A CRED
A coluna pede que a relação de Eduardo Bolsonaro com o Master seja “mais bem conhecida”. Cita matéria de 12 de junho da jornalista Malu Gaspar, no Globo, sobre o deputado Filipe Barros (PL-PR), sucessor de Eduardo na presidência da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara.
Sob Barros, a comissão pautou temas ligados ao Master, alheios à atribuição formal do colegiado, segundo a reportagem. Barros é autor do PL 4395/2024, que propunha elevar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R250milparaR 1 milhão. O projeto foi retirado pelo próprio autor em fevereiro de 2026. Barros afirmou que a proposta visava proteger pequenos investidores e negou ter discutido as iniciativas com Flávio ou Eduardo.
OS VOOS E A FRASE DO “AMIGO DO AMIGO”
Em julho de 2025, o jornalista João Batista Jr. acompanhou Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos para a piauí. Ao ser perguntado quem pagava passagem de classe executiva, Eduardo respondeu: “É um amigo do amigo do meu pai.” Não identificou o pagador. A frase ecoa o apelido atribuído a Dias Toffoli nas planilhas da Odebrecht na Lava Jato.
A mesma reportagem descreveu a rotina de voos entre o Texas e Washington e o trabalho de articulação política no exterior, apresentado por Eduardo como campanha contra o que chama de “ditadura brasileira” e em defesa do pai.
O TARIFAÇO NO CONTEXTO DA ELEIÇÃO
Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos desde o primeiro trimestre de 2025 e perdeu o mandato na Câmara por excesso de faltas. O STF o condenou, em 2026, por coação no curso do processo, no capítulo associado à articulação do tarifaço americano contra exportações brasileiras. A Primeira Turma manteve a condenação a quatro anos e dois meses neste sábado (19/set), segundo o R7.
O governo brasileiro atribui a Eduardo papel central na campanha, nos EUA, por sanções e tarifas contra o Brasil depois da condenação de Jair Bolsonaro na ação da trama golpista. Tarifas americanas sobre produtos brasileiros sofreram idas e vindas ao longo de 2025 e 2026, com alíquotas que chegaram a 50% em alguns momentos e novas incidências de 25% em julho de 2026 sobre parte da pauta.
Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL à Presidência, admitiu ter negociado o patrocínio do filme e sustentou que se tratava de recurso privado, sem dinheiro público. Ele passou a figurar formalmente nas apurações sobre o financiamento de Dark Horse.
A ANÁLISE
A análise de Rocha de Barros junta dois dossiês da campanha de 2026: o rombo do Banco Master e a pressão comercial e diplomática dos Estados Unidos. O autor escreve que o filme deixa de parecer um enigma contábil se for lido como instrumento para mover dinheiro de Vorcaro — descrito na coluna como recurso desviado de aposentados — em direção a uma operação política no exterior.
Essa conclusão pertence ao colunista. O que está documentado até aqui é o contrato de investimento em torno de US$ 24 milhões, as remessas rastreadas ao Havengate, a intermediação de Thiago Miranda, a proximidade temporal entre a mensagem de março de 2025 e o anúncio de Eduardo, as orientações sobre recursos já em solo americano e o histórico de lobby que antecedeu o tarifaço.
IMPORTANTE: Nenhuma decisão judicial publicada até o fechamento desta reportagem qualificou Dark Horse, de forma definitiva, como caixa 2 eleitoral ou como financiamento comprovado do tarifaço. A Polícia Federal e o STF seguem apurando origem, trânsito e beneficiários finais dos valores.
ANTECEDENTES
Dark Horse é dirigido por Cyrus Nowrasteh e tem Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro. O roteiro envolve o deputado Mario Frias (PL-SP). Há uma segunda frente investigativa, sob o ministro Flávio Dino, sobre emendas parlamentares e entidades ligadas à produtora no Brasil, distinta do inquérito das remessas de Vorcaro.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025. Vorcaro está preso na Operação Compliance Zero. Freixo Júnior firmou delação e descreveu o envio de valores ao Havengate.
CONSEQUÊNCIAS E DESDOBRAMENTOS
O caso atravessa a reta eleitoral. Flávio precisa explicar o filme sem contaminar a campanha com o Master. O governo Lula usa o episódio para associar o clã Bolsonaro a prejuízo comercial e a fraude financeira. O STF vive tensão própria em torno do sigilo do celular de Vorcaro e da relatoria do banco.
No plano diplomático, o tarifaço permanece peça de barganha entre Brasília e Washington. No plano policial, a pergunta em aberto é a mesma formulada pela PF ao pedir a investigação: origem, trânsito, destinação e beneficiários finais do dinheiro que saiu de empresas ligadas a Vorcaro e chegou a um fundo no Texas.
FAQ Rápido
O que a coluna da Folha sustentou neste sábado?
Que Dark Horse teria funcionado como caixa 2 do tarifaço, unindo o dinheiro de Daniel Vorcaro, a mudança de Eduardo Bolsonaro para os Estados Unidos e o lobby que antecedeu tarifas americanas contra o Brasil.
Qual fato novo a coluna mobiliza?
A proximidade entre a mensagem de Thiago Miranda pedindo agenda de Flávio e Eduardo com Vorcaro sobre o filme e o anúncio, no mesmo dia, de que Eduardo permaneceria nos EUA, além da cronologia dos repasses ao fundo Havengate.
O que está comprovado e o que segue em investigação?
Estão documentadas tratativas, remessas ao Havengate e a mensagem de março de 2025. A destinação final dos recursos, o uso para custear Eduardo e a qualificação jurídica de caixa 2 do tarifaço permanecem sob apuração da PF e do STF.
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