Brasília (DF)
21 de setembro de 2026
Um arquivo enviado pela Polícia Federal aos ministros do Supremo Tribunal Federal revela um contrato de advocacia de R$ 427 milhões associado, nas mensagens de Daniel Vorcaro, à chamada “Turma do KN”. O valor seria pago em caso de êxito em 12 ações que poderiam destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios de interesse do ex-controlador do Banco Master. O episódio reabre o debate sobre a indicação de Kassio Nunes Marques ao STF, articulada em 2020 por Flávio Bolsonaro.
O documento e as conversas constam do material encaminhado em julho ao gabinete do ministro André Mendonça, relator do caso Master. Na última semana, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Gilmar Mendes pediram acesso à íntegra do arquivo. Mendonça nega ter direcionado a apuração.
O CONTRATO E A “TURMA DO KN”
Segundo a reportagem original do Metrópoles, o acordo previa honorários de 5% líquidos sobre valores recebidos pelo Banco Master em 12 processos ligados a indenizações do antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. Pelos valores de face das causas, os honorários chegariam a R$ 427 milhões em caso de êxito. O pagamento deveria ocorrer em até cinco dias após o recebimento. O escritório também ficava autorizado a receber diretamente da União a parcela de honorários e a inscrever precatórios em nome próprio.
O contratado é o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, da advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Assessores de Vorcaro chamavam o casal de “turma do KN”. As mensagens indicam que “KN” é referência a Kassio Nunes Marques.
Em uma troca, Camilla Ramos escreveu a Vorcaro: “É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”. No julgamento citado, Nunes Marques, Dias Toffoli e Edson Fachin votaram pelo reconhecimento do débito; Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos.
PEDIDOS DE HOSPEDAGEM E BENEFÍCIOS
As mensagens registram pedidos atribuídos a Newton Ramos para reservas no Fasano Itaim em nome de “KN”. Em um trecho, uma assessora encaminha: “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional no Fasano. Só uma diária.” Vorcaro respondeu: “Pode botar na minha conta.” Há ainda menções a camarote, nomes para lista de evento e outras despesas associadas ao desembargador e à advogada.
O MATERIAL E AS DECLARAÇÕES
Newton Ramos declarou que é casado com Camilla Ramos, que atua em causas cíveis para o Banco Master, que a relação pessoal com Vorcaro é anterior aos fatos investigados e que nunca julgou causa de interesse do banco. Disse que consultas sobre imóveis e transportes ocorreram em razão de participação societária na empresa Prime You, em situação privada.
Kassio Nunes Marques afirmou, por nota reproduzida na cobertura, que nunca votou a favor de Daniel Vorcaro ou do Banco Master, nunca trocou mensagens com o banqueiro e nunca pediu nada a ele. Sobre o processo da usina, disse que constava impedido por ter decidido a matéria como vice-presidente do TRF-1, pediu retificação por entender que se tratava de tese ampla e votou. Afirmou que o julgamento não era ação sobre o Master e que o filho não recebeu dinheiro de Vorcaro.
Kassio Nunes Marques foi nomeado por Jair Bolsonaro em 2020 para a vaga de Celso de Mello e tomou posse em 5 de novembro daquele ano. Reportagens contemporâneas da indicação atribuíram a Flávio Bolsonaro papel central na escolha.
Em outubro de 2020, o O Globo informou que o nome chegou ao Palácio do Planalto por esforço conjunto do senador Flávio Bolsonaro e do advogado Frederick Wassef. Wassef havia encontrado o então desembargador do TRF-1 quando este ainda buscava o STJ. Em 17 de setembro de 2026, a coluna de Lauro Jardim no mesmo jornal voltou ao ponto: Nunes Marques “é originalmente uma indicação de Flávio Bolsonaro ao seu pai”.
Outras reportagens da época, como a do Estadão, também registraram a participação de Flávio na costura política da escolha, considerada surpresa no meio jurídico e político de Brasília.
A análise aponta que o contrato agora revelado e as mensagens sobre a “Turma do KN” recaem sobre um ministro cuja chegada ao STF teve origem declarada na articulação familiar e política do então presidente. Os fatos de 2020 e os documentos de 2026 são episódios distintos. Um não prova o outro. Juntos, porém, explicam por que o nome de Nunes Marques voltou ao centro da crise do caso Master.
ANTECEDENTES DO CASO MASTER
O Banco Master comprou ou recebeu por cessão créditos de usinas do setor sucroalcooleiro contra a União. O êxito nas teses de indenização pelo controle de preços do antigo IAA definiria o fluxo de precatórios. Vorcaro está preso no âmbito da Operação Compliance Zero. O material do celular e do HD segue sob exame no STF.
CONSEQUÊNCIAS E DESDOBRAMENTOS
Ministros pediram a íntegra do arquivo enviado a Mendonça. Nunes Marques já se declarou impedido em outro capítulo do caso, o que envolve Alexandre de Moraes. O ministro preside o Tribunal Superior Eleitoral neste ciclo eleitoral. Qualquer novo desdobramento documental tende a ter efeito institucional imediato.
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