O Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, é recepcionado em sua chegada a Nova Delhi, Índia, para a reunião de Ministros das Relações Exteriores do BRICS |13.5.2026| Foto: MEA / Governo da Índia / FLICKR
| Nova Delhi (IN)
16 de maio de 2026
A reunião de chanceleres do BRICS em Nova Déli terminou sem uma declaração conjunta inédita em 15 de maio, expondo as profundas divisões internas do bloco.
O impasse, protagonizado por Irã e Emirados Árabes Unidos (EAU) em meio à guerra no oeste da Ásia, impediu um acordo unificado e colocou em xeque a capacidade do grupo de falar a uma só voz no cenário global.
O episódio marca um momento de transição dolorosa, porém necessária, para o BRICS.
A ampliação do bloco – que agora inclui países como Arábia Saudita, Egito, Etiópia, Indonésia e os próprios EAU e Irã – trouxe consigo não apenas maior peso demográfico e econômico, representando cerca de 40% do PIB global, mas também as contradições geopolíticas do Sul Global.
A expectativa de uma ordem mundial multipolar mais justa esbarra na realidade de conflitos regionais profundos e alianças históricas antagônicas.
O fato mais revelador do encontro foi a incapacidade de sequer validar um documento único.
O resultado final, uma “Declaração do Presidente” (Chair’s Statement) em vez de um comunicado conjunto, admitiu explicitamente que “houve diferentes visões entre alguns membros em relação à situação na região da Ásia Ocidental/Oriente Médio”.
A fricção central ocorreu entre o chanceler iraniano, Abbas Araghchi, e o representante dos EAU, Khalifa bin Shaheen Al Marar.
Abbas Araghchi, que chegou a Nova Déli a bordo de um avião com a inscrição #Minab168 – em referência ao ataque que matou 168 crianças em uma escola no Irã em fevereiro –, pressionou o bloco a condenar Estados Unidos e Israel.
“Esperamos que nossos amigos no BRICS condenem estas flagrantes violações do direito internacional”, afirmou o chanceler, segundo a Al Jazeera.
Ainda segundo o veículo, Araghchi criticou indiretamente um país do bloco por bloquear a declaração.
A resposta dos EAU foi incisiva. Khalifa bin Shaheen Al Marar rejeitou as acusações e contra-atacou, afirmando que o Irã lançou aproximadamente 3 mil ataques com mísseis e drones contra território emiratense.
“Tentativas de justificar ataques terroristas contra os Emirados e outros países do Golfo são inaceitáveis”, declarou o ministro de Estado, conforme reportagem do The Times of India.
Diante do impasse, a declaração de 63 parágrafos serviu mais como um registro das posições nacionais do que como um pacto de ação coordenada.
O chanceler da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, país que ocupa a presidência rotativa do bloco em 2026, tentou contornar a situação reforçando a necessidade de o BRICS se tornar uma “plataforma de entrega” e não apenas de discussão.
Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores do Brasil, que exerceu a presidência do grupo em 2025, adotou um tom pragmático.
Em entrevista ao The Hindu, o chanceler brasileiro argumentou que a diversidade de posições é “um aspecto positivo do BRICS, porque é uma plataforma para consulta e articulação política”.
Vieira reconheceu que a expansão trouxe desafios de adaptação, mas demonstrou confiança de que um consenso poderá ser alcançado na cúpula de líderes em setembro, também na Índia.
“É a riqueza deste agrupamento, porque você tem este lugar e este espaço para negociar e conversar”, disse o ministro.
A despeito das rachaduras, o encontro reafirmou o compromisso do bloco com a reforma da governança global, em especial do Conselho de Segurança da ONU, e com o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB).
Os chanceleres condenaram medidas unilaterais e o protecionismo, e defenderam uma transição energética justa e inclusiva.
Para o Sul Global, o resultado da reunião acende um sinal de alerta. O multilateralismo que o BRICS propõe enfrenta seu teste de estresse mais severo.
A dificuldade em mediar conflitos entre seus próprios membros – Irã e EAU estão em lados opostos na guerra no Iêmen e têm visões antagônicas sobre a crise em Gaza – limita sua credibilidade como alternativa ao modelo ocidental de alianças.
O
avalia que a falha em Nova Déli não invalida o projeto do BRICS, mas exige um amadurecimento da sua arquitetura diplomática.
O bloco avança sobre seus próprios conflitos, e a forma como lidará com essas divisões internas definirá se será, de fato, um pilar de uma ordem multipolar ou apenas um fórum de interesses divergentes.
A cúpula de setembro, com a presença dos líderes Narendra Modi, Luiz Inácio Lula da Silva e Vladimir Putin, será o termômetro definitivo para a sobrevivência e relevância do bloco na próxima década.
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FAQ Rápido:
1. Por que os chanceleres do BRICS não conseguiram emitir uma declaração conjunta?
A reunião em Nova Déli terminou sem consenso devido a um agudo desacordo entre Irã e Emirados Árabes Unidos sobre a guerra no oeste da Ásia. Os dois países, agora membros do bloco ampliado, têm visões antagônicas sobre os conflitos no Iêmen e em Gaza, o que travou qualquer tentativa de um texto unificado.
2. O que muda para o futuro do bloco com esse episódio?
O impasse expõe o principal desafio do BRICS após sua expansão: transformar a diversidade geopolítica em força, e não em paralisia. A crise força o bloco a repensar seus mecanismos internos de tomada de decisão para provar que pode ser uma plataforma de ação efetiva, e não apenas um fórum de debates.
3. A reunião teve algum avanço prático além das divergências?
Sim, apesar do mal-estar, os chanceleres reafirmaram compromissos estruturais importantes. Houve consenso para acelerar a reforma do Conselho de Segurança da ONU, defender o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) e condenar medidas unilaterais e o protecionismo comercial.
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