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Biden receberá Trump no Salão Oval da Casa Branca na manhã de quarta-feira para início da transição do governo


    Donald Trump e Joe Biden
    Doug Mills/The New York Times


    A imagem dos dois homens que expressaram desdém um pelo outro é incomum, mas ambos estão envolvidos em um ritual que ocorreu durante a maioria das transições, exceto em 2020, quando o magnata republicano não reconheceu sua derrota

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    O presidente democrata dos EUA, Joe Biden, e o presidente republicano eleito, Donald Trump, se encontrarão na quarta-feira (13/11), no Salão Oval da Casa Branca, a convite do atual mandatário do país, afirmou, neste sábado (9/11), disse em um comunicado Karine Jean-Pierre – porta-voz da residência e escritório sede oficial do governo.

    Na terça-feira passada (5/11), Trump derrotou a atual vice-presidente Kamala Harris, que substituiu Joe Biden durante a campanha após pressão dos democratas, por conta de um debate debate desastroso do presidente dos EUA contra o magnata.

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    Após isso, Trump fez vários discursos atacando Biden, e em um deles o chamou de “insano”, enquanto o atual presidente definiu o magnata como um “risco à democracia“.

    Em 2020, após perder para Biden, o derrotado Trump autorizou a transição de governo sem reconhecer o democrata como presidente eleito. Na ocasião, o republicano convocou Emily Murphy, responsável pela Administração dos Serviços Gerais (GSA).

    Pela primeira vez em 20 anos, a GSA se recusou a iniciar o processo de transferência de poder, e disse a ela: “faça o que precisa ser feito“.

    Prováveis motivos da derrota de Kamala Harris

    Kamala Harris incendiou a corrida eleitoral ao substituir Biden. A democrata tinha forte apoio nas redes sociais, além de mais de US$ 1 bilhão em arrecadação. Contudo, especialistas apontam que em sua campanha não havia clareza nas propostas apresentadas. Ela teria desperdiçado tempo argumentando que Trump não era capaz de ser presidente.

    Foi vencedora do debate contra o republicano, em 10 de setembro, mas teve dificuldades em explicar sua agenda de forma convincente, especialmente em relação à Economia e Imigração, além de se atrapalhar ao justificar suas mudanças de opinião sobre o fracking (ou fraturamento hidráulico) – método de extração de petróleo e gás natural do subsolo profundo por meio de técnicas de perfuração.

    Trump acusou Kamala de ser contra o fracking, posição que havia sido adotada por ela durante sua campanha presidencial em 2019. Em 2024, a vice-presidente mudou de ideia e se posicionou a favor do método cujo tema tem grande relevância nos EUA, especialmente na Pensilvânia, o segundo maior produtor de gás natural do país e local onde foi realizado o debate.

    O novo posicionamento ocorreu na contramão de políticas ambientalistas do governo Biden, que há dois anos sancionou o Inflation Reduction Act (IRA), um projeto que estimava fornecer US$ 370 bilhões em apoio a programas de redução de emissões de gases.

    O fracking foi criado na década de 1940. No entanto, o método ganhou mais destaque após o aumento do preço do petróleo em 1990, que levou a maior procura pelo gás natural e ao desenvolvimento das técnicas de perfuração mais atuais. O método permitiu que os Estados Unidos deixassem de depender de exportações de outros países para adquirir essas commodities.

    Mas um dos principais pontos negativos do fracking são os danos ambientais que a técnica pode causar, pois ambientalistas dizem que parte da água usada no processo volta para a superfície cheia de produtos químicos e partículas, enquanto a outra parte permanece em subsolo, e se a água da superfície não estiver em um local de contenção adequado, pode haver vazamento e, por consequência, a contaminação do solo e mananciais, conforme mostrou o Valor Econômico. Também há a preocupação com a água que fica no subsolo, já que pode haver a contaminação dos aquíferos subterrâneos.

    Harris também não conseguiu encontrar uma maneira eficiente de se distanciar de Biden, a quem mais da metade dos americanos (56,3%) desaprova. Além disso, cerca de dois terços dos eleitores dizem acreditar que a nação está indo na direção errada. Era uma posição desconfortável: ao mesmo tempo que fez parte do governo e tentou não manchar o legado de seu chefe, precisava mostrar por que ela seria diferente, conforme mostrou a Veja.

    Foi marcante um momento numa entrevista ao programa de televisão The View, quando Harris foi questionada se teria feito algo diferente de Biden nos últimos quatro anos. “Não há nada que me venha à mente”, respondeu desajeitadamente, para horror de seus assessores. Nas semanas seguintes, tentou se recuperar, dizendo à emissora americana CNN: “(Meu governo) não será uma continuação do governo Biden”. Mas o dano já estava feito.

    Apesar de ter feito um bom trabalho no controle da inflação, a Casa Branca de Biden não teve tempo, ou não foi capaz, de fazer as melhorias na economia chegarem à população, que ainda sente no bolso a alta nos preços de casas e compras no supermercado.

    A proximidade de Harris com o governo transferiu para ela a insatisfação do eleitorado com a Economia, resultando em uma punição de quem a via como “incumbente”. Os democratas parecem ter sofrido de uma tendência mais ampla entre partidos governistas em todo o mundo desenvolvido. Buscando mudanças, os governos no Reino Unido, Alemanha, Itália, Austrália e, mais recentemente, no Japão enfrentaram reveses eleitorais ou perderam poder. O próprio Trump perdeu há quatro anos. França e Canadá podem muito bem entrar na lista.

    Os detalhes variam de país para país e de partido para partido, mas grande parte da história é a mesma: a pandemia e a turbulência subsequente. Em quase todos os lugares, a inflação e as consequências da pandemia deixaram os eleitores irritados e ressentidos. Isso tirou legitimidade dos partidos governantes, e muitos deles não eram especialmente populares, para começo de conversa.

    Ao mesmo tempo, o público e a base de Trump ficaram tão acostumados à onda implacável de notícias negativas sobre ele que quase não pareceu se importarem quando foi indiciado por 91 acusações criminais e condenado por 34 delas, ou que ele tenha sido acusado e condenado por abuso sexual duas vezes. Nem pareceu importar que a maior parte do que Trump diz é falso. Ou que ele repita sandices como o projeto de processar “inimigos políticos” com o Departamento de Justiça e as promessas de expurgar do governo federal os “marxistas” e varrer a “classe política doente que odeia nosso país”.

    A campanha presidencial de 2024, muito mais do que as eleições de 2016 ou 2020, marcou um momento de polarização máxima no diálogo político dos EUA. O debate político se tornou uma fossa de narrativas falsas, memes inventados e deep fakes, principalmente impulsionados pelas inúmeras mentiras de Trump. Foi um momento verdadeiramente orwelliano quando Trump, o mais eficaz fomentador do ódio na história política americana, declarou que era Harris quem estava comandando uma “campanha de ódio” e descreveu a violenta invasão ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 como um “dia de amor”.

    O cenário político também mudou, já que questões culturais passaram a desempenhar um papel enorme, possivelmente equivalente à Economia. Em outras palavras, a tomada do Partido Democrata por questões progressistas, conhecidas como woke (definido pela defesa dos direitos de minorias como a população preta e a comunidade LGBTQIA+), foi devastadora para a campanha de Harris, especialmente porque Trump e os republicanos a pintaram com sucesso como uma esquerdista irreconciliável. O resultado foi que, apesar de uma plataforma focada em reconquistar a classe trabalhadora do ponto de vista econômico, Biden e Harris perderam muitos eleitores culturalmente.

    Muitos temem que os Estados Unidos não estejam prontos para uma presidente mulher. Afinal, Trump concorreu três vezes e, das duas que venceu, havia uma mulher do outro lado do ringue. Embora ainda não existam evidências concretas dessa teoria, algumas das pesquisas mais decisivas na corrida mostraram vantagens esmagadoras para Harris entre as mulheres, mas margens grandes e crescentes para Trump entre os homens. Seu público-alvo, homens jovens que se sentem marginalizados por causas progressistas que tendem a favorecer mulheres, indivíduos LGBTQIA+ e minorias, não parece conseguir engolir uma mulher na Casa Branca.

    De acordo com a pesquisa do Institute of Politics da Universidade Harvard, a quantidade de eleitores homens com menos de 30 anos que se identificam como republicanos aumentou em 7 pontos percentuais desde 2020. John Della Volpe, diretor do instituto, diagnosticou que Trump conquistou muitos desse grupo “ao tecer uma mensagem hipermasculina de força em meio à sua narrativa mais ampla que mina a confiança nas instituições democráticas”.

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