A ex-deputada federal bolsonarista Carla Zambelli, que está presa na Itália, durante audiência em um tribunal em Roma | 27.8.2025 | Foto: TV Globo via g1
| Brasília (DF)
18 de maio de 2026, 14h30
A verba destinada pela ex-deputada Carla Zambelli ao projeto de uma série documental de viés conservador está no centro de uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) e de uma investigação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF).
O se relaciona diretamente com a polêmica da transparência na aplicação das chamadas “emendas Pix”, modalidade de repasse que tem sido alvo de constantes questionamentos por parte da justiça e de entidades fiscalizadoras.
O desvio de rota da verba milionária
Em julho de 2024, Carla Zambelli direcionou R$ 2 milhões de seu mandato para a Academia Nacional de Cultura (ANC), segundo o Metrópoles.
A entidade, presidida por Karina Ferreira da Gama – a mesma produtora do filme Dark Horse sobre Jair Bolsonaro –, usaria o dinheiro para produzir a série Heróis Nacionais — Filhos do Brasil que não se rendem.
A obra prometia uma “releitura conservadora” de figuras como Dom Pedro I e José de Anchieta, além da realização de um show musical sem maiores detalhes sobre os artistas.
Contudo, o dinheiro não chegou ao destino final. De acordo com a reportagem do Metrópoles, os R$ 2 milhões foram transferidos para o caixa do governo de São Paulo, de Tarcísio de Freitas (Republicanos), e lá se misturaram à contabilidade geral do estado.
A prática, considerada irregular pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) daquele ano, que exige contas individualizadas para cada emenda, fez com que a verba se tornasse “irrastreável” aos olhos dos auditores.
A reação do TCU e a posição do Governo de SP
O TCU interveio. Após identificar a falha na segregação dos recursos, o tribunal determinou o bloqueio e a transferência do montante para uma conta específica.
Procurado, o governo paulista afirmou, em nota, que “os valores correspondentes, bem como todos os acréscimos legais, foram integralmente direcionados à conta específica e segregada, conforme recomendação da área técnica do Tribunal de Contas da União”.
A gestão estadual alegou que seguiu as regras vigentes à época, mas admitiu que o dinheiro continua parado porque a Academia Nacional de Cultura não apresentou toda a documentação exigida.
A administração de Tarcísio informou que, “se as pendências não forem resolvidas pela ONG, os recursos, que permanecem disponíveis para a execução, serão devolvidos à União, em conformidade com a legislação”.
O ecossistema investigado por Flávio Dino
O episódio não é um fato isolado. Ele se conecta diretamente a uma investigação mais ampla conduzida pelo ministro Flávio Dino no STF.
A apuração, motivada por um pedido da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), mira um suposto “ecossistema” de empresas ligadas a Karina Ferreira da Gama.
Além da Academia Nacional de Cultura, estão na mira o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Go Up Entertainment e a Conhecer Brasil Assessoria.
A suspeita é que essas entidades, operando no mesmo endereço e sob a mesma gestão, sirvam para fragmentar o recebimento de emendas e dificultar a rastreabilidade do dinheiro público, “fatos que, em tese, configuram descumprimento do acórdão do Plenário do STF, com a quebra de transparência e rastreabilidade, além de desvio de finalidade da destinação de emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil e à Academia Nacional de Cultura”, afirmou o ministro Flávio Dino em sua decisão.
O financiamento coletivo bolsonarista
A série documental, orçada em R$ 2,6 milhões, será bancada exclusivamente por um grupo de parlamentares da extrema-direita.
Além dos R$ 2,6 milhões, destacam-se os repasses para Marcos Pollon (PL-MS): R$ 1 milhão (atualmente suspenso da Câmara); Alexandre Ramagem (PL-RJ): R$ 500 mil e Bia Kicis (PL-DF): R$ 150 mil.
Apesar de negar que o recurso tenha relação com o filme Dark Horse, Bia Kicis confirmou a destinação para a série documental.
O deputado Mario Frias (PL-SP), roteirista e ator da cinebiografia de Bolsonaro, também é alvo de tentativas de intimação para prestar esclarecimentos sobre o caso.
O que se vê é a tentativa de blindagem de um projeto ideológico (o filme Dark Horse) através de maquiagem orçamentária em projetos paralelos, utilizando brechas na legislação das emendas Pix.
A decisão do TCU e a investigação em curso no STF representam um freio importante a essa prática que ameaça a transparência e a democracia.
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FAQ Rápido
O ministro Flávio Dino investiga suspeitas de “quebra de transparência e rastreabilidade, além de desvio de finalidade” na destinação de emendas parlamentares para empresas ligadas a Karina Ferreira da Gama, incluindo a Academia Nacional de Cultura. O caso envolve Carla Zambelli e outros quatro parlamentares bolsonaristas que destinaram recursos para projetos culturais da produtora do filme Dark Horse.
O dinheiro foi transferido ao caixa do governo de São Paulo em julho de 2024 e, segundo auditoria do TCU, misturou-se às contas do Tesouro estadual, tornando-se “irrastreável”. Após determinação do tribunal, os valores foram segregados em conta específica, mas seguem retidos porque a Academia Nacional de Cultura não apresentou a documentação exigida.
A Academia Nacional de Cultura, beneficiária das emendas de Zambelli, é presidida por Karina Ferreira da Gama, produtora executiva do filme Dark Horse — cinebiografia de Jair Bolsonaro. As investigações apontam que recursos públicos teriam sido direcionados para financiar o ecossistema de produção da obra, incluindo a série conservadora Heróis Nacionais.
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