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    “Caça a imigrantes” na África do Sul: moradores invadem casas em Joanesburgo e entregam estrangeiros à polícia

    — calculando —
    Homem suspeito de ser imigrante na África do Sul é levado por moradores

    📷 Homem suspeito de ser imigrante vivendo na África do Sul é levado por dois outros moradores do local |9.7.2026| Imagem reprodução de vídeo / Reuters

    RESUMO
    URBS MAGNA

    | Joanesburgo (ZA)
    09 de julho de 2026

    Uma nova onda de violência xenófoba atingiu a África do Sul nesta quinta-feira (9).

    No bairro de Alexandra, em Joanesburgo, grupos de moradores organizaram uma operação de “limpeza”, indo de porta em porta em busca de imigrantes que acreditavam estar no país de forma irregular.

    As pessoas encontradas foram conduzidas pelas ruas até vans da polícia.

    A ação, que teve início ainda durante a manhã, é a mais recente manifestação de um movimento que ganhou força nas últimas semanas.

    A origem do movimento

    O estopim para a escalada da violência foi o dia 30 de junho, data que havia sido estipulada por grupos nacionalistas como um prazo informal para que imigrantes indocumentados deixassem voluntariamente o país.

    A partir de então, protestos nacionais foram convocados, e a tensão se espalhou por diversas províncias.

    A insatisfação popular tem raízes profundas. A África do Sul enfrenta uma taxa de desemprego que afeta milhões de cidadãos, e muitos sul-africanos atribuem a falta de empregos, o aumento da criminalidade e a sobrecarga dos serviços públicos à presença de estrangeiros.

    O movimento March and March, liderado pela ex-locutora de rádio Jacinta Ngobese-Zuma, estabeleceu o prazo e prometeu ações semanais.

    Os organizadores afirmaram que as ações continuarão ocorrendo todas as quintas-feiras.

    O papel da Operation Dudula e a morte de Grace Banda

    A crise atual é resultado de anos de tensão alimentada por organizações como a Operation Dudula, fundada em 2021, que passou a impedir imigrantes de acessar hospitais, escolas e mercados.

    O grupo, que se transformou em partido político, teve sua campanha intensificada em 2025.

    O caso que se tornou símbolo da xenofobia foi a morte do filho de Grace Banda, uma trabalhadora migrante do Malawi residente em Alexandra.

    Em 2025, Grace tentou levar seu filho de um ano, que sofria de diarreia e vômitos, ao hospital. Membros da Operation Dudula a impediram de ser atendida.

    Como estrangeira, os vigilantes disseram que ela deveria buscar uma clínica particular e não o serviço público sul-africano.

    Outras clínicas recusaram atendê-la com medo das inspeções violentas feitas pelo mesmo grupo.

    Após sucessivas recusas e sem condições de pagar serviços privados, a criança veio a óbito.

    A resposta do governo

    O presidente Cyril Ramaphosa reconheceu que os sul-africanos estão levantando “questões difíceis, mas legítimas”, sobre a migração ilegal, conforme o Deutche Welle, mas alertou contra a tentativa de transformar imigrantes em bodes expiatórios para problemas estruturais que o país enfrenta.

    “Apenas funcionários governamentais autorizados podem agir contra violações da nossa lei”, afirmou Ramaphosa, alertando que alguns grupos estavam a “incitar” tensões.

    O governo de coligação da África do Sul, formado em 2024, deu prioridade à questão da imigração e afirma ter deportado, nos últimos dois anos, mais de 100.000 pessoas que se encontravam ilegalmente no país.

    Ramaphosa também afirmou que cerca de 450.000 pessoas que tentavam entrar na África do Sul sem documentos foram detidas na fronteira no último ano.

    A Polícia Sul-Africana intensificou as prisões de migrantes indocumentados nas últimas semanas. A vice-comissária nacional de polícia, Tebello Mosikili, afirmou que 103 casos criminais foram abertos contra membros de milícias civis anti-estrangeiras desde março.

    Para garantir a segurança durante as manifestações de quinta-feira, foram mobilizados oficiais adicionais para patrulhar as áreas mais críticas e evitar confrontos diretos entre manifestantes e imigrantes.

    O retrato dos imigrantes no país

    Os dados oficiais do Stats SA, o órgão de estatísticas da África do Sul, mostram que a população imigrante no país é de cerca de 3 milhões de pessoas, o que corresponde a aproximadamente 4% da população total.

    Trata-se de uma proporção considerada baixa para os padrões globais, o que contrasta com a percepção distorcida de que os estrangeiros estariam “invadindo” o país.

    Impacto internacional

    Diversos países africanos manifestaram preocupação com a segurança dos seus cidadãos residentes na África do Sul.

    Gana repatriou cerca de 300 dos seus cidadãos no mês passado. A Nigéria organizou voos de repatriamento de emergência. O presidente de Moçambique, Daniel Chapo, condenou os atos de xenofobia, que já vitimaram sete moçambicanos.

    Autoridades moçambicanas reconheceram que milhares de cidadãos já retornaram ao país diante do clima de insegurança.

    A xenofobia na África do Sul é um fenômeno recorrente, alimentado pela desigualdade extrema e pela falta de perspectivas para a juventude local.

    O país tem um histórico de violência desencadeada pela ira face à presença de migrantes, incluindo em 2008, quando mais de 60 pessoas foram mortas no que grupos internacionais de direitos humanos designaram como ataques xenófobos contra estrangeiros.

    Até o momento, não há balanço oficial do número de detidos ou feridos nas operações em Alexandra.

    A Polícia Sul-Africana informou que reforçou o patrulhamento em bairros de Joanesburgo e que está pronta para intervir em caso de novos confrontos.



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