
📷 Os senadores Flávio Bolsonaro e Ciro Nogueira conversam durante uma sessão no Congresso Nacional / Ao fundo, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro / Foto reprodução redes sociais
| Brasília (DF)
03 de junho de 2026
A Polícia Federal (PF) recebeu uma nova proposta de colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, preso na Operação Compliance Zero.
Desta vez, o executivo decidiu incluir em seu acordo de delação informações detalhadas sobre as tratativas com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para viabilizar a produção do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Segundo fontes da PF ouvidas pelo blog da jornalista Débora Bergamasco na CNN Brasil, Vorcaro entregou aos investigadores documentos bancários, mensagens de aplicativos e a gravação de ao menos duas reuniões realizadas entre março e abril deste ano, nas quais discute com Flávio Bolsonaro o repasse de recursos para a produção cinematográfica.
O banqueiro detalhou que o orçamento total do filme girava em torno de R$ 134 milhões, parte dos quais teria sido enviada para contas no exterior sem a devida declaração às autoridades brasileiras.
A inclusão do senador na delação de Vorcaro representa um divisor de águas na corrida eleitoral. Até então, os desdobramentos da Operação Compliance Zero atingiam tangencialmente a família do ex-presidente, mas com a oferta de provas concretas — como extratos e diálogos — o cerco judicial se fecha sobre a candidatura de Flávio Bolsonaro, que liderava as pesquisas de intenção de voto.
As revelações sobre o filme “Dark Horse”
O projeto Dark Horse foi anunciado com grande pompa pela família Bolsonaro no início de 2026, descrito como uma superprodução que narraria a trajetória do ex-presidente desde sua eleição em 2018 até os eventos que culminaram em sua prisão, em fevereiro de 2025.
O filme seria dirigido por um cineasta norte-americano e contaria com distribuição internacional.
O que não foi dito publicamente, segundo a delação, é que a maior parte do financiamento do longa-metragem viria de um esquema complexo de captação de recursos envolvendo o Banco Master e empresas de fachada abertas em nome de laranjas.
Vorcaro afirmou aos investigadores que Flávio Bolsonaro atuou como o principal interlocutor da família nas negociações financeiras, tratando diretamente de valores, prazos de pagamento e da movimentação internacional dos recursos.
A PF apura, especificamente, se parte dos R$ 61 milhões enviados aos Estados Unidos — como revelado pelo portal The Intercept Brasil em maio — foi utilizada para financiar não apenas o filme, mas também a estadia e as atividades do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em território americano.
Eduardo é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo, acusado de articular nos EUA uma campanha contra ministros da corte.
O que diz a defesa do senador
Procurada pela reportagem, a defesa do senador Flávio Bolsonaro afirmou, por meio de nota oficial, que “não há qualquer irregularidade na captação de recursos para o filme” e que “todas as transações foram realizadas dentro da legalidade”.
A nota acrescenta que “o senador confia na Justiça e aguarda a conclusão das investigações para comprovar sua inocência”.
A estratégia da defesa, avaliam juristas, deverá se concentrar em dois pontos: contestar a credibilidade de Daniel Vorcaro, que responde a processos por gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro, e alegar que as tratativas mencionadas pelo banqueiro jamais saíram do papel — ou seja, que não configurariam crime consumado.
O problema, para os advogados do senador, é que a legislação penal brasileira pune também a mera negociação de recursos obtidos de forma ilícita, ainda que a obra não tenha sido concluída.
Os crimes de evasão de divisas (artigo 22 da Lei 7.492/86) e lavagem de dinheiro (Lei 9.613/98) podem ser configurados mesmo em estágios preparatórios, desde que haja indícios concretos da intenção criminosa.
A cronologia da crise
O novo capítulo da delação de Vorcaro agrava a situação política de Flávio Bolsonaro, que já vinha sendo pressionado por outros fronts.
Há menos de uma semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou publicamente o senador de “imbecil”, “covarde” e “vendilhão da pátria”, em referência à viagem do parlamentar a Washington para pedir ao presidente Donald Trump a classificação das facções PCC e CV como organizações terroristas.
A soma dos episódios — o “tarifaço” anunciado pelo governo americano, as críticas de Lula e agora a delação de Vorcaro — indica um acúmulo de exposição negativa que a pré-campanha do senador terá dificuldade para reverter.
Pesquisas internas divulgadas pela imprensa na última semana apontam que Flávio Bolsonaro perdeu até nove pontos percentuais em relação ao petista em cenários de segundo turno.
A revista piauí, O Globo e Folha de S.Paulo confirmam revelações sobre Ciro Nogueira, detalhando que o parlamentar teria sido beneficiado com mesadas e viagens internacionais bancadas por Vorcaro.
A primeira mídia detalha uma temporada do senador em Courchevel, nos Alpes Franceses, que teria custado quase R$ 2 milhões aos cofres do banqueiro.
As reportagens indicam que a nova estratégia de Vorcaro seria uma tentativa de tornar sua colaboração mais relevante, após críticas dos investigadores de que sua proposta inicial era "insuficiente" e poupava aliados.
A PF ainda não definiu se aceitará a nova proposta de Vorcaro nos termos apresentados.
O banqueiro já havia firmado um pré-acordo em maio, mas as informações agora entregues incluem novos elementos que, segundo seus advogados, justificariam benefícios adicionais, como a redução da pena e a progressão para o regime aberto.
A expectativa é que a Justiça Federal se manifeste nos próximos dias.
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FAQ Rápido
1. O que Daniel Vorcaro entregou de novo nesta delação?
O banqueiro incluiu documentos, mensagens e gravações de áudio de reuniões com Flávio Bolsonaro, detalhando as tratativas para financiar o filme “Dark Horse”. Vorcaro também entregou extratos bancários que mostram a movimentação de R$ 61 milhões para os Estados Unidos, que a PF suspeita terem relação com o projeto e com as atividades de Eduardo Bolsonaro em solo americano.
2. Flávio Bolsonaro pode ser preso por causa dessa delação?
Por ter foro privilegiado como senador, Flávio Bolsonaro só pode ser processado e julgado pelo STF. A delação de Vorcaro pode levar a uma abertura de inquérito ou ao aprofundamento do já existente. A prisão, neste momento, é considerada improvável, mas o acúmulo de provas pode levar à perda do mandato ou à inelegibilidade.
3. O filme “Dark Horse” vai ser lançado mesmo com a investigação?
A produção do longa-metragem foi interrompida desde a prisão de Daniel Vorcaro, em maio, e a delação do banqueiro praticamente inviabiliza a continuidade do projeto, uma vez que os recursos estavam sob suspeita e parte foi bloqueada pela Justiça. A equipe do filme ainda não se manifestou oficialmente sobre o futuro da obra.
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A Polícia Federal ainda não se manifestou oficialmente sobre a aceitação da nova proposta de delação de Daniel Vorcaro.
O STF também não incluiu o caso na pauta desta semana.
O senador Flávio Bolsonaro cancelou entrevista que daria à imprensa nesta quarta-feira (3/jun) em Brasília — a assessoria alegou “compromissos de última hora da pré-campanha”.
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