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Você pode achar Lula culpado e mesmo assim considerar sua soltura positiva – relaxa!


    The Intercept Brasil aborda nova tendência do pensamento popular: o ‘doisladismo’ equidistante entre o #ForaBolsonaro e #LulaPreso. Leia a transcrição abaixo:


    Capa da Matéria do The Intercept Brasil “Você pode achar que Lula é culpado e considerar sua soltura positiva

    ESSE NÃO É UM TEXTO SOBRE o tiozão do pavê que acha que um ladrão está solto e que o próximo passo é soltar traficante e estuprador para então, finalmente, liberar a mamadeira de piroca. Este é um texto sobre figuras “sensatas” e “isentas” que pairam acima do bem e do mal. É um texto sobre seu parente, vizinho ou colega, sobre o jornalista famoso que fica quieto diante da soltura de Lula, praticando o que agora se chama de “doisladismos”: o Bolsonaro é ruim, mas o PT também.

    No debate político atual, seja na esfera privada ou pública, existe certa dificuldade de se entender que a questão chave do que está acontecendo não diz respeito ao quanto se gosta ou não do PT. Não é sobre simpatizar com o Lula ou aprovar o governo Dilma. Não é sequer sobre uma possível indignação com a corrupção do mensalão à Petrobras.

    Há muito espaço – ou deveria haver – para divergência. Pode-se discutir se a soltura de Lula “piora a polarização” como as manchetes da Folha de São Paulo e Estadão anunciaram. Também é relevante o debate entre aqueles que acreditam que a relação com Lula é messiânica e os que defendem que se trata de gratidão. Pode-se questionar se Lula se beneficiou, ou não, de propina. Essas são muitas das questões onde o contraditório é desejável no âmbito jurídico e democrático.

    O ponto fundamental aqui é uma questão de justiça histórica e princípios democráticos. Estamos falando de um circo jurídico que foi armado no Brasil quando juízes e procuradores vaidosos resolveram fazer um grupo no Telegram para condenar Lula antes do julgamento. Eles passaram por cima da constituição, fizeram conchavo entre pares e acionaram a mídia para inflar a população. Tudo isso em nome do ganho pessoal. O resultado do espetáculo da Lava jato foi fama, poder e dinheiro nas mãos de Sergio Moro a Deltan Dallagnol.

    Foi um processo ilegítimo – e isso em nada tem a ver com a inocência ou culpa de Lula. A validade dos processos depende da imparcialidade dos juízes. Um julgamento independente e imparcial faz parte do código de ética da magistratura, é uma garantia constitucional e um direito humano universal. Comprovadamente, o julgamento de Lula foi uma farsa. Logo, não há outra postura possível que considerar positiva a sua soltura – mesmo entre aqueles que entendem que Lula é culpado. Ele tem direito – como qualquer outro indivíduo – a um julgamento imparcial. Afinal, a lógica justiceira de que os fins justificam os meios não é aceitável numa democracia.

    Senso de justiça é um valor inegociável e, portanto, o que está em jogo não é nossa avaliação ou interesses pessoais (lógica particularista) sobre tudo que envolve o Partido dos Trabalhadores. O desafio das democracias é justamente fazer com que as partes entendam que preciso ceder suas vontades para o bem-comum.

    Nossa avaliação política sobre o lulismo pouco importa neste momento crucial da história. Assim como não importava quando quando deveríamos ter votado com convicção em Fernando Haddad no segundo turno das eleições de 2018, pois o que estava em jogo era a vitória da extrema-direita.

    Recepção do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste sábado, dia 9, em São Bernardo.
    Recepção do ex-presidente Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste sábado, dia 9, em São Bernardo.
    Foto: Agatha Gameiro/FramePhoto/Folhapress

    Doisladismo

    O anti-petismo precisa ser combatido na luta política – mas também no divã. Não é possível que mesmo diante de tudo que a Vaza Jato mostrou ainda se cale sobre esse processo pela pura lógica de que os fins justificam os meios ou de que se prefere Lula preso para “acalmar os ânimos”.

    doisladismo é uma praga na vida social e esfera pública brasileira, deixando que opiniões, preconceitos e ressentimentos pessoais se sobreponham ao coletivo. Mas mais perigoso ainda é que o doisladismo é praticado com uma aura de superioridade opinativa que vê a si próprio como “neutro”, “sensato” e “democrático”. Mas, na verdade, o que está sendo acionado é uma perspectiva egoísta e anti-democrática – perspectiva esta que ajudou a eleger Jair Bolsonaro.No fundo, o isentão é fruto do pior do radicalismo que tanto diz repudiar. Ele vê o mundo sem nuance. Ele se cala em momentos chave.

    Como disse João Filho em sua recente coluna para o Intercept, existe, entre jornalistas, uma “obsessão em busca de uma falsa imparcialidade. Há um temor constante em ser associado com algum dos lados”. O “isentão” aponta o dedo e torce o nariz para dois lados que seriam supostamente podres e radicais. Mas não são dois lados da mesma moeda: os erros dos governos petistas não se equivalem à prática de governo bolsonarista, que repudia e tripudia as instituições democráticas enquanto exalta torturadores e o AI-5. Ao contrário do que disse o Estadão, em seu famigerado editorial, nunca foi uma escolha difícil para os justos.

    isentão é alguém viciado no elogio que recebe quando é chamado de “sensato”. Ele se nutre dessa vaidade e é refém do próprio personagem, acreditando que está sendo moderado e racional. Mas não está. O isentão é um radical do doisladismo e, na prática, isso significa o oposto de sensatez, porque sensatez refere-se ao bom-senso, discernimento, precaução e resolução de assuntos difíceis.

    O que é discernimento num momento histórico crítico como o que estamos vivendo? Acredito que seja a capacidade contínua da esfera pública de avaliar, com nuances, os erros e acertos dos governos e lideranças do PT – e a balança dessa avaliação pode ser negativa ou positiva. O problema da lógica doisladista é que ela só consegue enxergar o PT pela lente do radicalismo extremado. No fundo, o isentão é fruto do pior do radicalismo que tanto diz repudiar. Ele vê o mundo sem nuance. Ele se cala em momentos chave. E isso prejudica a capacidade de avaliação da polarização e até no entendimento básico do direito universal a um julgamento imparcial.

    Mas não deveríamos, então, fazer o mesmo discernimento de prós e contras do governo Bolsonaro? Na minha opinião, não. Afinal, trata-se de um presidente que defende a ditadura militar e seu governo é alinhado com a extrema-direita supremacista global. Então, dentro de um campo democrático e princípios de direitos humanos, só existe uma postura aceitável: repudiar a lógica fascista.

    À época da prisão de Lula, eu publicamente manifestei minha contrariedade ao que estava acontecendo. Contudo, eu não simpatizava com aqueles que apontavam o dedo para o silêncio de muitos. Eu já tinha dúvidas acerca da legitimidade da Lava Jato, mas a verdade é que não tínhamos todas as evidências que hoje temos na era pós-Vaza Jato. Por toda a sujeira que foi escancarada, hoje eu sou uma dessas pessoas que cobra coragem e posicionamento dos sujeitos na esfera pública e privada. Silenciar é uma atitude que nos custará caro. Para que possamos a exercer o direito de apoiar ou criticar PT, #LulaLivre é um valor inegociável.

    1 comentário em “Você pode achar Lula culpado e mesmo assim considerar sua soltura positiva – relaxa!”

    1. Fausto AMARAL DE BARROS

      Jeitinho-brasileiro?…
      Não, é a profunda politização do brasileiro se pronunciando!

    Os comentários estão fechados.

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