“A universidade pública não deve ser vista como parte do problema, mas sim valorizada como parte da solução“, disse um representante da associação de docentes sobre a importância da educação pública para a mobilidade social ascendente – SAIBA MAIS
Na terça-feira (23/4), mais de 500 mil pessoas se manifestaram somente em Buenos Aires, para defender a educação pública contra o ajuste orçamentário de Javier Milei, em defesa da educação pública, gratuita e federal.
A CGT (Confederación General del Trabajo de la República Argentina [Confederação Geral do Trabalho da República Argentina]) – central sindical histórica e a maior e mais influente do país, sindicatos, movimentos sociais, organizações de direitos humanos e partidos políticos marcharam do Congresso até a Praça de Maio.
Diversas celebridades e artistas compartilharam mensagens nas redes sociais em favor da ‘marcha universitária federal‘ , que reuniu centenas de milhares de estudantes de todo a Argentina em defesa da educação pública e sobre a importância do financiamento das universidades.
Uma pesquisa de opinião no país liderado pelo extremista de direita mostrou que mais de 85% discordam do corte no orçamento da universidade na Argentina e a aprovação de Milei teve queda de 8 pontos percentuais nos últimos dois meses, especialmente entre os mais jovens, que antes representavam o maior contingente de apoiadores.
O Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, foi um dos palestrantes da tarde de terça-feira (23/4), na Marcha Universitária Federal. Na Praça de Maio, o arquiteto, escultor e ativista de direitos humanos disse:
“Vocês nos dão muita esperança para construir um mundo melhor. Defendemos a Universidade pública e gratuita. É uma das grandes conquistas do nosso povo e não vamos desistir. Este Governo comprou 24 aviões de combate. Não há dinheiro para a educação, não há dinheiro para a saúde, não há dinheiro para os agricultores, mas há dinheiro para comprar aviões de combate que o país não precisa. A educação é o presente e o futuro da Pátria e não vamos desistir disso”.
Sergio Romero, da UDA (Unión Docentes Argentinos [Sindicato dos Professores Argentinos]), afirmou que “o que precisa ser feito é cumprir, financiar e aprovar as leis. Esta luta está apenas começando. Já fizemos uma greve geral com os nossos colegas sindicatos docentes. Queremos garantir a paz social mas o Governo dificulta-nos“.
O secretário-geral da CONADU (Federación Nacional de Docentes Universitarios), Carlos De Feo, afirmou que “hoje, somos 800 mil argentinos nesta praça [de Maio], e mais de um milhão em todo o país, que estamos orgulhosos de nossa Universidade Pública“.
“A universidade argentina sabe, há mais de 100 anos, lutar ao lado do povo e seus trabalhadores. Isso foi demonstrado na Reforma Universitária, com o ensino universitário gratuito, também durante La Noche de los Bastones Largos, e dando a vida de milhares de estudantes, professores e funcionários que lutaram na noite negra da ditadura“, disse.
A Noite dos Bastões Longos foi um violento desalojamento de alunos e professores de cinco faculdades acadêmicas da Universidade de Buenos Aires pela Polícia Federal Argentina em 29 de julho de 1966, em oposição à intervenção política do governo militar para revogar a liberdade acadêmica estabelecida na reforma universitária de 1918.
Após um golpe militar, a repressão foi particularmente violenta, resultando em centenas de detenções e demissões de professores, levando muitos a emigrar para outras universidades na América Latina e no exterior. Casos semelhantes de desmantelamento ocorreram em vários institutos de pesquisa.
Carlos De Feo disse também que “hoje essa universidade está em perigo” porque “há uma gangue de facínoras que dizem que é preciso acabar com o Estado, é preciso acabar com a Argentina. Os universitários mostramos hoje que vamos estar com nosso povo lutando não apenas pelo direito à universidade, mas também para que este povo tenha o direito a um futuro melhor. Um futuro de felicidade, de soberania, com emprego, sem fome e sem exclusão. Hoje não é diminuindo nosso salário e congelando nosso orçamento que vão nos assustar. Vamos estar nas ruas. Lutaremos juntos até a vitória“.
Norberto Heyaca, da FAGDUT (Asociación Gremial de Docentes de la Universidad Tecnológica Nacional), destacou, no palco montado na praça de Maio, a importância da educação pública para a mobilidade social ascendente:
“Quantos de nós aqui somos ou vamos ser a primeira geração de profissionais em nossa família, graças à universidade pública argentina? A universidade pública não é parte do problema, é parte da solução. Estamos aqui porque falta o diálogo que permite que as partes cheguem a um acordo”, disse.
“Estamos aqui para dizer àqueles que estão naquela casa pintada de rosa que precisamos dialogar mais, precisamos entender os outros. Não devemos nos fechar em nossas ideias, mas sim nos colocarmos no lugar dos demais. A universidade pública não deve ser vista como parte do problema, mas sim valorizada como parte da solução. Viva a universidade pública, caralho!“
