Vaza Jato: a religião do dinheiro da banca é a eminência parda brasileira

Enquanto a grande mídia aposta todas as suas fichas na estratégia diversionista de mobilizar todo espaço televisivo para repercutir a crise dos hackers “russos” de Araraquara/SP que supostamente ameaçam a segurança nacional, a Vaza Jato faz mais revelações perturbadoras

Um “bate-papo” secreto de um servidor público passando informações privilegiadas, em ano eleitoral, num evento secreto para empresas nacionais e internacionais do setor financeiro. As novas informações vazadas pelo “Intercept” sobre a bem remunerada participação do coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, não apenas revelam as relações promíscuas de procuradores e juízes com o mundo político e empresarial. Também mostra como a banca é uma eminência parda: por todo o espectro político, as críticas ao sistema financeiro são apenas pontuais ou genéricas.

Nunca está sob o foco da mídia. No máximo, denuncia-se “bad guys” gananciosos, enquanto a estrutura do sistema nunca é questionada – dinheiro, valor, débito, crédito etc. são conceitos naturalizados, reverenciados quase religiosamente.

A banca age secretamente como uma religião, com seus templos (sagrados e pagãos) e com seus padres e alto sacerdotes. Dois livros lançam uma luz sobre o fenômeno: “The Theology of Money” do filósofo Philip Goodchild; e “The Cult of Money”, de Chris Lehmann.

Dessa vez, não tanto pelas novas evidências das relações promíscuas do ministro do STF (Fux) e do coordenador da Lava Jato (Dallagnol). A verdade já está mais que evidente e tudo o que vazará no futuro apenas aumentará a gravidade com o acúmulo de novas provas.

Até aqui abordamos a guerra semiótica criptografada como tática diversionista para, através da criação do caos de informações contraditórias que geram crises diárias, desviar a atenção do distinto público do saco de maldades neoliberais (reformas e destruição de direitos, garantias e projetos sociais).

Mas as últimas informações reveladas pela Vaza Jato mostram uma função mais profunda dessa guerra semiótica: esconder a verdadeira eminência parda por trás do movimento de conduzir a ideia de Estado Mínimo para muito além da cartilha neoliberal – como discutimos em postagem anterior, chegar ao Estado Líquido desejado pela banca financeira: agências de investimentos, bancos, investidores etc. – clique aqui.
“Insider Information” Mas, primeiro vamos às notícias.

Organizado pela XP Investimentos em 2018 como um evento secreto (“privado e com o compromisso de confidencialidade”) o procurador Deltan Dallagnol foi a atração de um “bate-papo” com agentes do sistema financeiro. Muito bem pago para passar informações privilegiadas (“insider information”) para empresários com interesses diretos nas eleições. Ainda mais grave, pois o insiderera um servidor público.

Queriam ter garantias sobre a derrota de Lula nas eleições, já que grandes negócios como privatizações, pré-sal, além de ativos da Petrobrás e Eletrobrás dependiam desse resultado.

Quais foram os participantes do “bate-papo”? JP Morgan, Morgan Stanley, Barclays, Nomura, Goldman Sachs, Merrill Lynch, Credit Suisse, Deutsche Bank, Citibank, BNP Paribas, Natixis, Societe Generale , Standard Chartered, State Street Macquarie, Capital UBS Toronto, Dominion Bank, Royal Bank of Scotland, Itaú, Bradesco Verde , Santander e por ai vai…

Isso faz lembrar a tese principal do documentário de Petra Costa, Democracia em Vertigem: todos os personagens do mundo da política mudam, governadores, presidentes, deputados, senadores… ou, na atualidade, procuradores e juízes. Mas os donos da mídia, famílias proprietárias de construtoras e banqueiros, estes sempre permanecem no Estado. Seja através da chantagem, fornecendo ferro e concreto para obras de infraestrutura ou como credores da dívida pública, como no caso da banca – clique aqui.

O curioso é que por todo espectro político, em geral, as críticas ao sistema financeiro são sempre pontuais ou genéricas. Prefere-se mobilizar toda indignação, força crítica e capacidade investigativa contra políticos, ministros, partidos etc.

Critica-se a extorsão dos juros altos ou como instituições como o galinheiro do Banco Central e Ministério da Economia é providencialmente ocupado pelas raposas da banca. Mas as esquerdas parecem não prestar muita atenção ao dia-a-dia conspiratório de eventos como esse vazado pelo Intercept– principalmente nos sensíveis anos eleitorais. Ficam apenas nas notícias mais espetaculares das privatizações ou dos vieses dos ajustes da taxa Selic.

A mídia e um tal de “mercado” A grande mídia sempre fala genericamente sobre um tal de “mercado”, mas na verdade dá visibilidade apenas para um tipo de mercado: entrevistam somente economistas-chefe de empresas de investimento e de bancos. Sempre os planos de câmera mostram entrevistados estrategicamente colocados diante de um fundo com espetaculares telas de computadores com corretores que observam atentamente gráficos coloridos e tabelas cheias de números – isso dá ao distinto público uma aura de “cientificidade” para “Ciência Econômica”.

Paradoxalmente, é a direita que mais tece teorias conspiratórias sobre bancos e o mundo das finanças: teorias conspiratórias em torno dos Rockfellers, os Rothschilds, os Lehmans e de outros controladores da riqueza mundial. Raivosamente denunciam as maquinações em torno da criação da chamada “Nova Ordem Mundial” (New World Order – NWO) ou como as elites das altas finanças mexem os cordões das sociedades secretas como Illuminatis, Skull and Bones ou Clube Bilderberg.

Por que essa crítica tão genérica? É inegável que, apesar de todas as críticas que podemos fazer aos serviços financeiros, bancos etc., há um misto de respeito, reverência e temor de um campo que supostamente lidaria com um tipo de respeitável ciência: a ciência da Economia.

Uma ciência que lida com ideias como dinheiro, valor, débito, crédito… conceitos abstratos que permeiam o nosso cotidiano e a própria ideia de desenvolvimento econômico, sucesso e auto-realização. Assim como o peixe está para a água, também estamos para o sistema financeiro, seja como correntistas ou simplesmente digitando uma senha de cartão de débito na loja da esquina.

Temos respeito ou reverência quase religiosa. Podemos até criticar uma determinada igreja. Mas não negamos a própria existência do Deus Criador. Da mesma maneira, podemos até denunciar como a banca explora uma nação. Mas ainda temos fé de que o nosso dinheiro tenha valor. E de que a moeda representa uma promessa de pagar uma dívida, apoiada por instituições financeiras como um banco ou o Banco Central.

A Teologia do dinheiro Dois livros lançam alguma luz nessa relação paradoxal: o primeiro, do filósofo Philip Goodchild, “The Theology of Money” (Duke University Press, 2009); e o segundo, “The Money Cult: Capitalism, Christianity and the Unmaking American Dream” (Melville House, 2017), de Chris Lehman.

Para Goodchild, essencialmente o sistema econômico se baseia na fé. E em muitos aspectos, o mundo das finanças espelha uma religião. Isso porque a criação moderna do dinheiro é complexa: engloba crédito, empréstimos, reservas fracionárias bancárias e assim por diante. Contamos com consultores financeiros para interpretar a vontade do mercado para nós e de especialistas na mídia que traduz para os leigos.

Assim como nas religiões, possui templos (agências bancárias, diferente dos “templos pagãos”, os shopping centers) e lugares sagrados (Bovespa, Wall Street) nos quais adoramos ou nos confessamos aos padres nossos pecados (os gerentes, sempre alertas aos nossos “pecados” nas conta correntes) e altos sacerdotes (consultores) interpretam as vontades (tendências econômicas) e os caminhos de Deus ou dos deuses (mercado) no caminho da salvação – o sucesso.

Segundo Goodchild, as religiões sempre foram usadas para gerenciar o comportamento humano através da ameaça do Inferno ou a promessa de uma vida eterna no Céu. Mas agora, dinheiro e dívidas ocupam esse papel como os principais motivadores para a ação humana – tanto assim que passou a se estruturar como uma religião qualquer, fundamentada na fé.

Todo o sistema financeiro baseia-se na fé: o dinheiro tem valor não porque tenha essencialmente um “lastro”, mas porque acreditamosque tenha. Todo uma complexa teologia e nebulosa metafísica gerida por padres e altos sacerdotes criam uma estrutura análoga a uma religião.

Sem essa fé o dinheiro não passaria de um pedaço de papel impresso ou um ícone efêmero na tela de um computador.

A moralidade do mercado Mas para Chris Lechmann no livro “The Money Cult”, essa fé está fundamentada na esperança do sucesso. O culto do dinheiro se baseia numa moralidade que parece ser intrínseca ao mercado: frugalidade, fé na auto-realização e individualismo. Uma moralidade econômica que se tornou num instrumento de salvação análogo ao das religiões.

Frugalidade, auto-realização e individualismo se confundem com o próprio dinheiro: a riqueza como felicidade, sucesso profissional, amoroso, autoconfiança. Que aos olhos de Deus (o Mercado) significaria a Salvação e o merecimento do Reino do Céu. Mais dinheiro, mais Salvação.

Diante desse fenômeno histórico no qual o dinheiro torna-se o principal motivador da ação humana, pode-se compreender por que o sistema financeiro, de certa forma, ser naturalizado, normalizado, como uma banal realidade cotidiana.

Assim como em filmes e documentários pós crise de 2008 (Trabalho Interno, Margin Cal – O Dia Antes do Fim, Wall Street – O Dinheiro Nunca Dormeetc.) que interpretaram o crash mundial como obra de “bad guys” ambiciosos e egoístas, da mesma forma, por todo espectro politico, a crítica à banca sempre parece penalizar apenas os excessos ou conspirações dos poderosos. Deixando entre parêntesis a própria natureza do sistema financeiro e monetário.

Assim como a história do escorpião que queria atravessar o rio nas costas de um sapo, é da sua natureza ferroar. Mesmo que não queira.

Toda a atual guerra midiática criptografada que tenta esconder do escrutínio público a transformação do Estado Mínimo em Líquido, não é obra de “bad guys” ou de procuradores e juízes novos ricos deslumbrados. É da própria natureza do sistema financeiro e monetário predar e destruir. Liquefazer a realidade como um valor moral (auto-realização) e religioso (a Salvação).

via Cinegnose

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