📷 Pacientes com câncer cerebral que receberam a vacina contra COVID-19 nos meses anteriores à cirurgia viveram mais tempo do que pacientes não vacinados. Os cientistas observaram essa relação apenas para as vacinas contra COVID-19, e não para vacinas contra gripe, pneumonia ou herpes-zóster |•| Foto: Narumon Bowonkitwanchai / Momento / Getty Images |•| URBS MAGNA
| Brasília (DF)
18 de agosto de 2026
Um estudo preliminar sugere que a vacina contra a Covid-19 pode dobrar o tempo de sobrevida de pacientes com glioblastoma, o tipo mais agressivo de câncer cerebral, quando aplicada nos meses anteriores à cirurgia de remoção do tumor.
A descoberta reforça uma linha de pesquisa que já vinha mostrando efeitos parecidos em outros tipos de câncer.
O levantamento foi conduzido por uma equipe da Universidade do Alabama em Birmingham, liderada pelo neurocirurgião James Markert, e publicado como pré-print em 31 de julho no repositório medRxiv.org, sem ainda ter passado por revisão por pares — etapa essencial antes de qualquer conclusão definitiva, segundo apurou a Science News.
O que os pesquisadores encontraram
A equipe analisou dados de 187 pacientes com glioblastoma, doença sem cura e com poucas opções terapêuticas, que passaram por biópsia ou cirurgia de remoção do tumor entre 2022 e 2025.
Entre os que haviam recebido a vacina contra a Covid-19 nos 100 dias anteriores ao procedimento, metade viveu 743 dias ou mais.
Entre os não vacinados, a sobrevida média foi de apenas 349 dias — uma diferença de praticamente um ano extra de vida para uma doença com prognóstico historicamente reservado.
O padrão apareceu somente entre os vacinados contra a Covid-19: outras vacinas testadas pela equipe, como as de gripe, pneumonia e herpes-zóster, não mostraram o mesmo efeito.
Markert faz questão de frisar que o estudo mostra uma associação estatística, não uma relação de causa e efeito, e que os pesquisadores tentaram — sem conseguir eliminar por completo — controlar variáveis como a gravidade de eventuais infecções por Covid-19 e diferenças no acesso a cuidados médicos entre os grupos.
Um padrão que já havia aparecido antes
O achado não surge isolado. Em 2025, uma equipe da Universidade da Flórida liderada pelo oncologista pediátrico Elias Sayour, em parceria com o MD Anderson Cancer Center, publicou na revista Nature um estudo mostrando que pacientes com câncer de pulmão avançado ou melanoma metastático vacinados contra a Covid-19 nos meses próximos ao início da imunoterapia viveram quase o dobro do tempo em comparação aos não vacinados, segundo cobertura do Washington Post.
Sayour, que não participou do novo estudo sobre glioblastoma, avalia que as evidências de que as vacinas de mRNA podem estimular uma resposta anticâncer estão se acumulando.
A revista Science, da AAAS, destacou ainda que essas descobertas ganham relevância justamente em um momento no qual o governo do presidente Donald Trump reduziu o financiamento federal destinado à pesquisa com tecnologia de mRNA nos Estados Unidos.
Por que isso poderia estar acontecendo
Duas hipóteses concorrem para explicar o fenômeno.
A primeira é a de que a vacina de mRNA funcione como um alarme inespecífico, reativando de forma geral o sistema imunológico, que passaria a atacar também as células tumorais.
A segunda, mais intrigante, é a de que a vacina funcione como uma professora: ao ensinar o organismo a reconhecer um fragmento de proteína do coronavírus, ela também ensinaria, por semelhança estrutural, a reconhecer uma molécula presente nas células do glioblastoma — hipótese levantada pela própria equipe de Markert após identificar essa coincidência molecular.
Os pesquisadores também especulam que a cirurgia em si pode ter um papel na resposta: antes do procedimento, o tumor fica escondido dentro do cérebro; ao ser removido, fragmentos de proteínas cancerígenas caem na corrente sanguínea, ficando expostos a um sistema imunológico já estimulado pela vacina.
Os próximos passos
A equipe do Alabama agora tenta validar os resultados em um novo grupo de pacientes, com a expectativa de avançar para um ensaio clínico dedicado especificamente a testar o efeito da vacina contra a Covid-19 em pacientes com glioblastoma.
Paralelamente, o grupo de Sayour já avança com um estudo clínico registrado que avalia se a vacina de mRNA potencializa os efeitos da imunoterapia em pacientes com câncer de pulmão avançado.
Apesar do entusiasmo, a cautela é unânime entre os cientistas ouvidos pela Science News.
O pesquisador Sivakrishna Uppalapati, que trabalha com Markert, reforça que ninguém está sugerindo que pacientes adiem cirurgia ou outros tratamentos oncológicos para se vacinar primeiro.
Markert resumiu o momento da pesquisa em uma frase: “We think this provides hope” — algo como “acreditamos que isso oferece esperança”, em tradução livre, referindo-se aos pacientes de glioblastoma, que hoje contam com pouquíssimas alternativas terapêuticas.
FAQ Rápido
A vacina contra a Covid-19 cura ou previne câncer?
Não. O estudo mostra uma associação com maior sobrevida em pacientes que já tinham câncer diagnosticado, não um efeito preventivo ou curativo comprovado.
Esse resultado já é definitivo?
Não. O estudo é um pré-print, ainda sem revisão por pares, e mostra associação, não causalidade — os próprios autores pedem cautela na interpretação.
Pacientes com câncer devem se vacinar antes da cirurgia por causa desse estudo?
Especialistas dizem que não há indicação para isso hoje: nenhum tratamento deve ser adiado com base nesses achados preliminares.
Atualização:
a equipe de James Markert trabalha na validação dos resultados em um novo grupo de pacientes.
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