Conhecido por seu estilo imprevisível, o presidente dos EUA repetiu que o Brasil “só irá bem se trabalhar conosco”, mas evitou provocações diretas, sinalizando abertura para revisar as sanções – Haddad diz que encontro foi positivo – SAIBA MAIS
Brasília, 06 de outubro de 2025.
Em um marco diplomático que pode reequilibrar as relações entre Brasil e Estados Unidos, os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump protagonizaram, na manhã desta segunda-feira (6/out), uma videoconferência de cerca de 45 minutos.
Realizada por volta das 10h (horário de Brasília), a conversa ocorreu no Palácio da Alvorada, com Lula acompanhado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, pelo chanceler Mauro Vieira, pelo ministro da Fazenda Fernando Haddad, pelo assessor especial Celso Amorim e pelo deputado Sidônio Palmeira.
Do lado americano, a articulação veio da Casa Branca, em coordenação com o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), marcando o primeiro diálogo direto entre os líderes desde a posse de Trump em janeiro.
O encontro virtual, descrito por auxiliares como “positivo do ponto de vista econômico” pelo ministro Haddad, surgiu após um breve aceno nos corredores da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, no final de setembro.
Ali, Trump elogiou a “química excelente” entre eles, e Lula retribuiu, afirmando que “aquilo que parecia impossível deixou de ser impossível e aconteceu”, destacando a “química” percebida no contato fugaz.
A pauta, meticulosamente preparada para evitar armadilhas políticas, concentrou-se em conter a escalada de tarifas de 50% impostas pelos EUA sobre produtos brasileiros como aço, alumínio e etanol – medidas retaliatórias ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado no Supremo Tribunal Federal (STF).
De acordo com fontes do Palácio do Planalto, Lula defendeu com veemência a “manutenção do comércio bilateral aberto” e a “preservação dos empregos industriais afetados pelas barreiras norte-americanas”, enfatizando que o Brasil busca uma saída negociada sem comprometer sua soberania ou a “independência dos Poderes”.
Trump, conhecido por seu estilo imprevisível, repetiu que o Brasil “só irá bem se trabalhar conosco”, mas evitou provocações diretas, sinalizando abertura para revisar as sanções.
O chanceler Mauro Vieira, que acompanhou as tratativas, reiterou em entrevistas que o Brasil é um “país de diálogo”, mas com linhas vermelhas inegociáveis, como reportado pela BBC News Brasil.
Essa interação alivia a tensão máxima entre os dois países – a pior em mais de dois séculos de relações diplomáticas –, especialmente após o “tarifaço” anunciado por Trump em julho, que congelou bilhões em exportações brasileiras de commodities e ameaça setores chave como o agro e a siderurgia.
Paralelamente, Alckmin realizou reuniões com o secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, reforçando a necessidade de uma “pausa nas sanções” para avançar em negociações.
Analistas veem o gesto como uma guinada pragmática, mas cautelosa. O historiador Matthew Dallek, da Universidade George Washington, observa que “Trump usa encontros para projetar poder”, recomendando vigilância contra “armadilhas” como as enfrentadas por líderes como Volodymyr Zelensky (Ucrânia) e Cyril Ramaphosa (África do Sul) em reuniões voláteis com o republicano.
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A videoconferência serve como teste para futuros contatos presenciais: um possível encontro pode ocorrer ainda em outubro, durante a cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), em Kuala Lumpur, na Malásia, de 25 a 27, onde ambos os líderes estão convidados.
O impacto econômico já é palpável. Após o anúncio inicial na ONU, o dólar recuou para R$ 5,27, e o Ibovespa atingiu 146 mil pontos pela primeira vez, impulsionado pela esperança de descongelamento comercial, conforme o Valor Econômico.
Para o Brasil, que exporta bilhões anualmente para os EUA, essa ponte virtual não é mero protocolo: é uma jogada estratégica para mitigar perdas estimadas em dezenas de bilhões de dólares.
Enquanto detalhes completos permanecem sob sigilo – com duração confirmada em cerca de 30 a 45 minutos, o mundo observa se essa “química” se materializará em ações concretas.
O encontro reforça a postura de Lula na defesa do multilateralismo, ecoando seu discurso na ONU contra “medidas unilaterais” e pela democracia como pilar inabalável.
Em um calendário diplomático agitado, com agendas voláteis, o próximo passo definirá se essa reconciliação será duradoura.







