Pressões políticas ameaçam financiamento universitário e geram acusações de supressão de vozes críticas
Berkeley, Califórnia, 13 de setembro de 2025
A Universidade da Califórnia, Berkeley, cedeu à pressão do governo de Donald Trump e entregou os nomes de cerca de 160 pessoas, entre alunos, professores e funcionários, ao governo federal.
A medida foi tomada em resposta a uma investigação sobre suposto antissemitismo no campus, conforme revelado em reportagem do The New York Times, neste sábado (13/set).
Essa investigação da UC Berkeley faz parte de uma campanha mais ampla do governo Trump, que acusa universidades de elite de serem centros de doutrinação ideológica e de não combaterem o antissemitismo de forma eficaz.
Para pressionar as instituições, o governo federal ameaçou cortar bilhões de dólares em financiamento para pesquisa, um motor econômico vital para o estado da Califórnia.
Recentemente, o governo congelou US$ 584 milhões em verbas de pesquisa para a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA), com uma proposta de acordo de US$ 1 bilhão para resolver a pendência, o que o governador Gavin Newsom qualificou de “extorsão política”, segundo o San Francisco Chronicle.
A universidade, berço do movimento pela liberdade de expressão nos anos 1960, se viu numa encruzilhada. A reitoria afirmou ter a obrigação de proteger a liberdade de expressão de sua comunidade, mas também precisava cumprir as exigências legais do governo federal.
O chanceler Rich Lyons, em depoimento ao Congresso em julho, admitiu que a instituição tem “mais trabalho a fazer” contra o antissemitismo, mas defendeu que visões pró-palestinas “não são necessariamente antissemitismo”, conforme cobertura do Newsweek.
Essa situação gerou críticas de ex-alunos e editores, que acusaram a universidade de trair seus princípios.
A filósofa feminista Judith Butler, uma das afetadas, comparou a ação a práticas da era McCarthy, alertando para a suspensão de procedimentos normais de apuração de queixas, o que permite o encaminhamento de alegações anônimas sem investigação prévia.
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Em carta ao conselho jurídico da universidade, ela destacou: “Isso significa que alegações enviadas à administração, mesmo anônimas, foram simplesmente encaminhadas sem terem sido julgadas”, como relatado pelo The Guardian.
O caso de Berkeley ilustra uma estratégia que a reportagem aponta como sendo recorrente na extrema-direita norte-americana, onde a defesa da liberdade de expressão se mostra seletiva.
A acusação de antissemitismo, nesse contexto, tem sido usada como uma ferramenta política por alguns grupos, especialmente entre sionistas, para silenciar vozes que se levantam contra o genocídio em Gaza.
A administração Trump expandiu o escrutínio para 10 universidades prioritárias, incluindo Berkeley, com investigações do Departamento de Educação iniciadas em fevereiro, conforme o Times of Israel.
Ao invés de debater os méritos das críticas às políticas de Israel, a tática é a de criminalizar opositores, enquadrando sua discordância como ódio.
Um estudante de pós-graduação anônimo, possivelmente muçulmano ou árabe, sugeriu que a lista visa ativistas pró-Palestina, afirmando: “Acho que [a mensagem foi enviada] para qualquer um que já tenha sido acusado de antissemitismo, o que inclui muitos palestinos”, segundo o Independent.
Grupos de direitos civis, como o American Jewish Committee, reportam que 35% dos estudantes judeus enfrentaram antissemitismo no campus, mas críticos argumentam que a abordagem federal ignora o aumento de islamofobia e viés anti-árabe, como noticiado pela Al Jazeera.
O caso de Berkeley, portanto, se insere neste cenário, levantando o questionamento sobre a capacidade das universidades de defenderem a livre expressão em um ambiente político tão polarizado.
Ativistas como a atriz Mia Farrow reagiram nas redes, declarando: “McCarthyismo está de volta! Vergonha para a UC Berkeley!”, ecoando preocupações com vigilância excessiva.







