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    Kassio “confunde ciência com bola de cristal”, dizem institutos sobre proposta de “selo” para quem acertar mais

    — calculando —
    Kassio Nunes Marques e institutos de pesquisa

    📷 Presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, sugeriu um “selo de acurácia” para o instituto tiver a pesquisa de intenção de voto que acertar mais / Imagens reprodução || Arte URBS MAGNA

    RESUMO
    URBS MAGNA

    | Brasília (DF)
    14 de julho de 2026

    O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, propôs a criação de um selo para premiar institutos de pesquisa que mais se aproximarem do resultado das urnas em outubro.

    A ideia foi recebida com dura crítica pelo setor, que acusa o tribunal de tratar ciência estatística como adivinhação.

    A proposta, batizada de Selo Acurácia Eleitoral, foi apresentada nesta terça-feira (14/jul) em reunião com representantes de 16 entidades do setor de pesquisas.

    O reconhecimento, de caráter honorífico, seria concedido às empresas cujos números mais se aproximarem dos resultados oficiais no período de sete dias antes da votação.

    O TSE abriu prazo até sexta-feira (17/jul) para que os institutos enviem sugestões sobre os critérios de avaliação.

    A reação do setor

    A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (Abep), que reúne institutos como Datafolha, Quaest e Ipsos, rebateu a proposta em nota afirmando que “exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”.

    O argumento central da entidade é técnico: pesquisas eleitorais medem a intenção de voto no momento exato da coleta de dados, não fazem previsão do resultado final, e o comportamento do eleitorado pode mudar significativamente entre a entrevista e a votação.

    A Abep também alertou para um efeito colateral do selo, que classificou como “incentivo perverso”: institutos sem rigor metodológico poderiam simplesmente copiar os números já divulgados pelos institutos mais sérios e, na reta final da campanha, ajustar suas próprias pesquisas para convergir ao consenso do mercado — manobra que renderia o prêmio sem exigir qualidade técnica real.

    O contexto: o caso Atlas

    A proposta não surgiu no vácuo. Pessoas presentes à reunião avaliaram que Nunes Marques tentava se reaproximar dos institutos de pesquisa depois do desgaste provocado pelo chamado caso Atlas, já que o próprio ministro havia determinado, dias antes, a suspensão da divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel sobre a disputa eleitoral — medida vista pelo setor como censura.

    O gesto, no entanto, teria se transformado no oposto do pretendido: fontes ouvidas pelo jornal avaliaram que Nunes Marques demonstrou “conhecimento limitado” sobre como pesquisas eleitorais efetivamente funcionam.

    Nem todo o setor rejeitou a ideia. O CEO da própria AtlasIntel, Andrei Roman, publicou apoio à proposta em rede social, defendendo critérios objetivos de precisão e citando iniciativas semelhantes em outros países.

    O episódio expõe uma tensão de fundo entre o papel regulatório da Justiça Eleitoral e a autonomia técnica da ciência estatística: transformar o TSE em árbitro de qualidade metodológica, mesmo com boas intenções, corre o risco de deslocar o incentivo dos institutos — que deixariam de buscar o retrato mais fiel da opinião pública no momento da coleta para perseguir o número que melhor “bate” com o resultado final, o que é estatisticamente diferente e metodologicamente perigoso.

    O precedente de erros recorrentes em pleitos municipais recentes — caso da eleição de Teresina, em 2024, quando a maioria dos institutos apontava Fábio Novo (PT) como favorito e Silvio Mendes (UB) venceu no primeiro turno — ajuda a entender por que o tema ganhou força, mas não resolve o risco de o remédio proposto ser pior que o problema.

    FAQ Rápido

    O que é o Selo Acurácia Eleitoral proposto pelo TSE?
    Um reconhecimento honorífico para institutos de pesquisa cujos números mais se aproximarem do resultado oficial das eleições de outubro, segundo proposta do ministro Kassio Nunes Marques.

    Por que a Abep critica a proposta?
    Porque considera que pesquisas medem intenção de voto no momento da coleta, não preveem resultados, e o selo poderia incentivar institutos a manipular números na reta final da campanha para bater com o consenso.

    Todos os institutos rejeitam a ideia?
    Não. O CEO da AtlasIntel, Andrei Roman, declarou apoio público à proposta, defendendo critérios objetivos de avaliação.



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