Decisão dos EUA visa enfraquecer alianças comerciais anti-americanas e proteger o dólar, enquanto BRICS condena protecionismo em declaração oficial
RESUMO <<Donald Trump impôs tarifa adicional de 10% a nações alinhadas ao BRICS, acusadas de promover políticas “anti-americanas”. A medida, anunciada durante cúpula do bloco no Rio, busca proteger o dólar, mas pode gerar retaliações e inflação nos EUA. BRICS criticou medidas protecionistas em declaração oficial>>
Washington, EUA, 07 de julho de 2025
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma nova medida comercial que promete agitar o cenário econômico mundial: uma tarifa adicional de 10% será imposta a qualquer nação que se alinhe às políticas “anti-americanas” do bloco BRICS.
A declaração, feita por meio de sua plataforma Truth Social, no domingo (6/jul) ocorre em meio ao encontro de líderes do BRICS no Rio de Janeiro, Brasil, e reflete a estratégia de Trump para reforçar a influência econômica dos Estados Unidos, segundo a CNBC.
A decisão surge como resposta direta à declaração conjunta dos líderes do BRICS, que criticaram o aumento de tarifas unilaterais, sem mencionar diretamente os EUA.
O bloco, formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã, expressou “séria preocupação com o aumento de medidas tarifárias unilaterais que distorcem o comércio” e são contrárias às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).
A tarifa de Trump visa coibir qualquer movimento que desafie a supremacia do dólar americano no comércio global, reportou a NBC News.
Trump também confirmou que cartas detalhando as taxas tarifárias e possíveis acordos comerciais começarão a ser enviadas a partir de 12:00 (horário do leste dos EUA) na segunda-feira, 7 de julho de 2025.
“Não haverá exceções a essa política”, afirmou o presidente em sua postagem, sinalizando uma postura inflexível.
A medida pode impactar diretamente produtos importados de países do BRICS, como café do Brasil, eletrônicos da China e minerais da África do Sul, elevando custos para consumidores americanos, disse a Reuters.
A reunião de cúpula do Brics divulgou sua “Declaração do Rio de Janeiro“, o documento “Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável“, que resume as posições e compromissos adotados pelos líderes do bloco, no começo da tarde de domingo (6/jul).
A peça faz críticas à imposição de tarifas comerciais, além de condenar os bombardeios ao Irã e reafirma o direito dos palestinos a um Estado. O texto defende ainda novas regras de governança para a inteligência artificial.
Os trechos que fazem referência à tarifas de Trump estão numerados como os 13º e 88º parágrafos de um total de 126, sendo o primeiro mais objetivo:
13. O sistema multilateral de comércio está há muito tempo em uma encruzilhada. A proliferação de ações restritivas ao comércio, seja na forma de aumento indiscriminado de tarifas e de medidas não-tarifárias, seja na forma de protecionismo sob o disfarce de objetivos ambientais, ameaça reduzir ainda mais o comércio global, interromper as cadeias de suprimentos globais e introduzir incerteza nas atividades econômicas e comerciais internacionais, potencialmente exacerbando as disparidades econômicas existentes e afetando as perspectivas de desenvolvimento econômico global. Expressamos sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais que distorcem o comércio e são inconsistentes com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesse contexto, reiteramos nosso apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a OMC em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento. Enfatizamos que a OMC, em seu 30º aniversário, continua sendo a única instituição multilateral com o mandato, a expertise, alcance universal e capacidade para liderar discussões sobre as múltiplas dimensões do comércio internacional, incluindo a negociação de novas regras comerciais. Recordamos o compromisso assumido na 12ª Conferência Ministerial da OMC e reafirmado na 13ª Conferência Ministerial da OMC de trabalhar em prol de uma reforma necessária da organização para garantir sua relevância e restaurar a credibilidade do sistema multilateral de comércio. Permanecemos comprometidos com a restauração urgente de um sistema de soluções de controvérsias da OMC que seja acessível, efetivo, completamente funcional e vinculante em duas instâncias. Apoiamos firmemente a candidatura da Etiópia e do Irã para acessão à OMC. Saudamos a Declaração do BRICS sobre a Reforma da OMC e o Fortalecimento do Sistema Multilateral de Comércio adotada pelos Ministros de Comércio.
88. Rejeitamos medidas protecionistas unilaterais, punitivas e discriminatórias, que não estejam de acordo com o direito internacional, sob o pretexto de preocupações ambientais, como mecanismos unilaterais e discriminatórios de ajuste de carbono nas fronteiras (CBAMs), regulações sobre desmatamento, requisitos de diligência prévia, impostos e outras medidas, e reconfirmamos nosso total apoio ao apelo da COP28 relacionado a evitar medidas comerciais unilaterais baseadas no clima ou no meio ambiente. Também nos opomos a medidas protecionistas unilaterais, que causam disrupções deliberadas nas cadeias globais de fornecimento e produção e distorcem a concorrência.
Especialistas alertam que a tarifa adicional pode desencadear retaliações comerciais e agravar tensões econômicas globais.
Stephen Olson, ex-negociador comercial dos EUA, sugeriu que a referência de Trump a políticas “anti-americanas” pode estar ligada ao desejo do BRICS de reduzir a dependência do dólar e reformar a governança financeira global.
No entanto, a falta de clareza sobre o que constitui “alinhamento com o BRICS” gera incertezas no mercado, segundo a Axios.
A ameaça de Trump não é novidade. Em novembro de 2024, ele já havia prometido tarifas de 100% contra países do BRICS que tentassem substituir o dólar por outra moeda, lembra o Bloomberg.
A nova tarifa de 10% parece ser um complemento à sua estratégia de pressão econômica, especialmente após o BRICS condenar ataques militares dos EUA e de Israel ao Irã.
Economistas temem que essas políticas intensifiquem a inflação nos EUA e desestabilizem cadeias globais de suprimento.![]()








