Na visão do diplomata, o interesse do “homem velho, sociopata e narcisista” no seu aliado brasileiro era superficial e cínico; John Feeley também avalia que “Lula teve sorte” e aconselha o estadista a manter distância do republicano

Brasília (DF) · segunda-feira, 29 de dezembro 2025
A súbita e inesperada reversão, em 20 de novembro, das sanções econômicas e diplomáticas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil foi, à primeira vista, celebrada como um sucesso da diplomacia.
No entanto, uma análise mais aprofundada revela que a explicação para esta reviravolta é mais complexa e pessoal do que parece.
Segundo um reputado especialista em política latino-americana, em entrevista à BBC News Brasil, a decisão de Washington teve menos a ver com negociações estratégicas e mais com os caprichos de um líder imprevisível.
Esta perspetiva é defendida por John Feeley, ex-embaixador dos EUA que já foi considerado uma das vozes mais especializadas em América Latina no Departamento de Estado americano.
Atualmente diretor executivo do Centro para a Integridade da Mídia das Américas (CMIA), Feeley abandonou o governo americano em 2018 por discordar das políticas de Donald Trump.
A sua tese central é clara: a revogação das medidas punitivas deveu-se ao comportamento errático de Donald Trump e à sua percepção de Jair Bolsonaro como um “perdedor”, e não a qualquer mérito negocial do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Na análise de Feeley, a personalidade de Trump é volátil e moldou um dos episódios mais recentes e intrigantes da diplomacia entre as duas maiores potências do hemisfério.
A Tese do “Perdedor”:
Como Trump Descartou Bolsonaro
Para compreender a súbita mudança de rumo da Casa Branca, é fundamental analisar o mecanismo psicológico que, segundo John Feeley, regeu a decisão de Donald Trump.
O argumento central do diplomata é que o ex-presidente americano opera sob uma lógica binária de vencedores e perdedores, não tolerando qualquer associação com os últimos.
A queda política de Jair Bolsonaro foi o gatilho para a sua desvalorização aos olhos de Trump.
Feeley é categórico na sua avaliação, explicando que assim que Bolsonaro enfrentou consequências legais definitivas e perdeu a sua relevância política, Trump viu-o como um “perdedor”.
O ponto do diplomata é incisivo: “se há algo que Donald Trump não tolera são perdedores.”
Na visão do diplomata, o interesse de Trump no seu aliado brasileiro era superficial e cínico, uma sobreposição momentânea de valores conservadores que o americano explorava para mobilizar a sua base eleitoral.
Assim que Bolsonaro deixou de ser uma figura central na política brasileira e o Estado de direito prevaleceu, Trump simplesmente “descartou-o”. A prova disso, segundo Feeley, é a indiferença com que Trump hoje se refere ao ex-presidente brasileiro, apesar de antes se declarar um grande amigo.
Esta imprevisibilidade torna qualquer negociação com Trump uma tarefa impossível. Feeley descreve-o como um “homem velho, sociopata e narcisista”, com quem não se pode negociar de forma racional.
Neste cenário caótico, a resolução favorável para o Brasil não foi fruto de uma estratégia diplomática bem executada, mas sim de um acaso afortunado. Como sintetiza Feeley, o presidente Lula, neste contexto, teve “francamente, sorte”.
A Origem das Sanções:
O Lobby em Washington
Tal como a sua remoção, a imposição original das sanções esteve menos ligada a uma estratégia de Estado e mais a influências pessoais e de bastidores.
As medidas punitivas, que incluíam tarifas de 40% sobre produtos agrícolas e a inclusão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, na lista da Lei Magnitsky, não nasceram de uma análise geopolítica ponderada.
Segundo John Feeley, a sua origem é clara e direta. Ele avalia que a imposição das tarifas e sanções foi um “resultado direto do lobby de Eduardo Bolsonaro, seu filho, em Washington”.
Este episódio ilustra perfeitamente a tese de Feeley: a política externa de Trump não era guiada por estratégia, mas sim por impulsos reativos, tornando-a vulnerável à manipulação por quem conseguisse capturar a sua atenção — uma consequência direta da personalidade que o diplomata descreve como narcisista e assistemática.
Em vez de uma abordagem coerente, as decisões eram tomadas com base em pressões momentâneas e na influência de figuras que conseguiam acesso ao círculo próximo do presidente. Este padrão de comportamento estendeu-se a outras nações da região, como a Venezuela.
O Padrão Venezuelano:
A Mesma Lógica, Outro Alvo
A análise da política americana para a Venezuela serve como um espelho, refletindo um padrão mais amplo na abordagem de Donald Trump à América Latina: ações de grande impacto sem uma estratégia final clara.
John Feeley considera que o recente bloqueio a petroleiros na Venezuela é, de facto, mais eficaz para pressionar o regime de Nicolás Maduro do que operações anteriores. Contudo, critica a persistente falta de um objetivo definido por parte da administração Trump.
O diplomata faz questão de contextualizar o sofrimento do povo venezuelano, argumentando que a causa primária da miséria no país não são as sanções, mas sim “o desastroso modelo econômico de Nicolás Maduro”.
Feeley aponta para os milhões de venezuelanos que abandonaram o país como a prova irrefutável desta falência interna. Embora as sanções tenham efeitos secundários negativos, atribuir-lhes a culpa principal é, na sua opinião, um erro.
A principal crítica de Feeley à política de Trump para a Venezuela é a ausência de um objetivo final claro. Se a intenção é a mudança de regime, questiona o diplomata, por que não declará-lo abertamente?
A falta de uma estratégia coerente torna as ações americanas performáticas e perigosas. Ele adverte que a demonstração de força militar vista até agora foi “imprudente, desnecessária” e acarreta o risco de consequências catastróficas para toda a região, caso escale para uma intervenção direta.
O Papel do Brasil:
Mais Exemplo do que Mediador
Na conclusão da sua análise, John Feeley oferece uma visão prospetiva sobre o papel que o Brasil pode desempenhar no atual cenário geopolítico. Ele descarta a ideia de que o governo de Lula possa atuar como mediador entre Maduro e Trump, considerando essa possibilidade “irreal”.
Em vez disso, Feeley propõe um papel mais poderoso e subtil: o Brasil deve servir de exemplo. Como uma grande democracia que enfrentou uma grave crise institucional em 8 de janeiro — um paralelo direto ao 6 de janeiro nos EUA — e conseguiu impor limites constitucionais ao Poder Executivo, o Brasil oferece uma lição valiosa.
A força das suas instituições, nomeadamente do sistema judiciário, demonstrou resiliência perante ameaças autoritárias.
Feeley expressa a esperança de que o povo americano possa observar este exemplo para reafirmar os seus próprios valores democráticos: “o povo americano possa observar instituições democráticas como o sistema judiciário brasileiro e tentar, não necessariamente imitá-lo, mas sim buscar alcançar os mesmos ideais de um poder igualitário, capaz de impor novamente esses limites constitucionais ao presidente.”
No final, a análise de Feeley sugere que a influência duradoura do Brasil não virá de tentativas fúteis de mediar personalidades como Trump, mas sim da demonstração resiliente de que instituições fortes são o único antídoto eficaz para uma política externa movida a caprichos.

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