📷 A diplomata Maria Luiza Ribeiro Viotti Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado |•| Ao fundo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o presidente dos EUA, Donald Trump, durante reunião de gabinete / Foto: Andrew Caballero-Reynolds/AFP |•| Arte URBS MAGNA
| Brasília (DF)
04 de agosto de 2026
O Departamento de Estado dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e condicionou a devolução do documento à aprovação, pelo Brasil, do republicano Daniel Perez como novo embaixador americano em Brasília — escalando uma crise diplomática que já envolvia tarifas e disputas sobre integridade eleitoral.
O anúncio ocorreu nesta terça-feira (04/ago) e foi vinculado pelo governo de Donald Trump à demora de Brasília em conceder o chamado agrément — a autorização formal e obrigatória que qualquer país precisa dar antes que um embaixador estrangeiro assuma funções em seu território.
Uma autoridade do Departamento de Estado afirmou que a revogação não representa a expulsão de Viotti, que pode permanecer em território americano mesmo sem visto válido.
Um gesto sem aviso prévio
Chama atenção o fato de que o próprio Itamaraty não foi informado com antecedência sobre a medida, segundo apurou o Metrópoles.
Até o fechamento desta matéria, o ministério ainda não havia se manifestado publicamente sobre o episódio.
Como a crise chegou a este ponto
O impasse em torno de Daniel Perez já se arrastava havia semanas. Indicado por Trump em junho para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil — vago desde janeiro de 2025, quando Elizabeth Bagley, indicada por Joe Biden, deixou o posto — Perez obteve o aval de uma comissão do Senado americano, mas seguia sem a autorização brasileira.
Segundo a versão americana, integrantes do governo brasileiro teriam sinalizado que a decisão só sairia depois das eleições presidenciais de outubro — receio que, segundo o próprio jornal, está ligado à possibilidade de Perez ter atuação política durante a disputa.
A revogação do visto de Viotti veio dez dias depois de o Itamaraty negar entrada no Brasil a dois funcionários do Departamento de Estado, o secretário-assistente Riley M. Barnes e o subsecretário-assistente Samuel Samson.
Ambos foram apontados pelo jornal americano The Washington Post, conforme citado pela Revista Fórum, como participantes de uma estratégia voltada a questionar a integridade do sistema eleitoral brasileiro — informação que gerou preocupação no governo Lula com possível interferência estrangeira nas eleições, e que Washington nega.
Quem é Maria Luiza Viotti
Diplomata de carreira nascida em Belo Horizonte, Viotti ingressou no Itamaraty em 1976 e assumiu a embaixada brasileira em Washington em 2023, tornando-se a primeira mulher a chefiar a representação do país num dos postos mais estratégicos da diplomacia nacional.
Antes disso, foi representante permanente do Brasil na ONU entre 2007 e 2013, presidiu o Conselho de Segurança em fevereiro de 2011, comandou a embaixada brasileira em Berlim e chefiou o gabinete do secretário-geral da ONU, António Guterres, entre 2017 e 2022.
Um capítulo a mais numa relação já desgastada
O episódio se soma a uma sequência de atritos entre Brasília e Washington que já inclui a tarifa de 25% imposta ao Brasil em 22 de julho, resultado de investigação baseada na Seção 301 da lei comercial americana — que mirou, entre outros pontos, o sistema Pix e as regras brasileiras para plataformas digitais —, e uma segunda tarifa de 12,5% aplicada dias depois, justificada por Washington com base em alegações sobre combate ao trabalho forçado.
O timing da medida contra Viotti não é neutro: ao vincular a liberação do visto à aprovação de Perez antes das eleições de outubro, o governo Trump transforma uma questão protocolar de política externa em instrumento de pressão sobre o processo eleitoral brasileiro — o mesmo tipo de conexão entre diplomacia americana e disputa interna que já provocara desconfiança do governo Lula no episódio dos vistos negados a Barnes e Samson.
O padrão lembra o uso da carta de tarifas de julho de 2025, quando o próprio Lula classificou publicamente a medida de Trump como “chantagem inaceitável” — um precedente que ajuda a entender por que a mesma palavra tende a reaparecer neste novo capítulo, ainda que o Itamaraty não a tenha usado oficialmente até agora sobre o caso Viotti.
A situação segue em desenvolvimento. O Itamaraty ainda não divulgou nota oficial sobre o caso.
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