Após clemência presidencial, participantes do ataque de 6 de janeiro buscam compensação financeira por supostas injustiças, gerando polêmica nos EUA
Brasília, 01 de setembro de 2025
Em 20 de janeiro deste ano, o presidente Donald Trump concedeu indultos e comutações de penas a cerca de 1.500 pessoas envolvidas no ataque ao Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021.
A ação, realizada horas após sua posse para o segundo mandato, cumpriu uma promessa de campanha de absolver aqueles que ele chama de “patriotas” e “reféns”. Agora, alguns desses indivíduos, junto com seus advogados, estão pressionando por indenizações financeiras, alegando terem sofrido perseguições injustas e perdas econômicas devido às suas condenações.
A iniciativa tem gerado debates sobre justiça, responsabilidade e os custos do ataque, que deixou um prejuízo estimado em 2,7 bilhões de dólares para os contribuintes americanos.
Entre os defensores das indenizações está o advogado Mark McCloskey, que propôs a criação de um painel especial para distribuir danos financeiros aos participantes do ataque, comparando a iniciativa a um fundo de compensação para vítimas do 11 de setembro.
Em uma reunião virtual, McCloskey afirmou que seu objetivo é “transformar as perdas dos rioters em dólares”.
A proposta ganhou força após Trump sinalizar apoio à ideia em uma entrevista ao canal conservador Newsmax, em 26 de março, quando respondeu a uma pergunta do apresentador Greg Kelly sobre um possível fundo de compensação, dizendo: “Há muita conversa sobre isso”, e destacando que “muitas pessoas no governo gostam desse grupo”.
A pressão por indenizações vem de figuras como Stewart Rhodes, fundador do grupo de extrema-direita Oath Keepers, e Enrique Tarrio, ex-líder dos Proud Boys, ambos beneficiados pela clemência presidencial.
Rhodes, cuja pena de 18 anos por conspiração sediciosa foi comutada, defendeu publicamente suas ações e pediu retaliação contra policiais e procuradores envolvidos em seu caso.
Tarrio, que cumpria 22 anos pela mesma acusação, também expressou apoio à ideia de compensação, conforme reportado pelo The New York Times.
A proposta de indenizar os envolvidos no ataque ao Capitólio provocou indignação entre democratas, policiais e parte da opinião pública. O ex-sargento da Polícia do Capitólio, Aquilino Gonell, que foi atacado durante o motim, descreveu a clemência como “uma miscelânea de justiça”.
Ele destacou ao NPR que as liberações cancelaram sentenças de indivíduos que o agrediram fisicamente, como um homem que o atacou com um cano de PVC. Já o procurador Matthew Graves, responsável por liderar as investigações do 6 de janeiro, afirmou ao mesmo veículo que “não há como apagar o registro público” dos crimes cometidos, apesar dos indultos.
A democrata Nancy Pelosi, ex-presidente da Câmara dos Representantes, classificou a ação de Trump como “um insulto ultrajante ao nosso sistema de justiça” e aos policiais que protegeram o Capitólio.
A Associated Press relatou que cerca de 140 policiais foram feridos durante o ataque, muitos com armas improvisadas, como mastros de bandeiras, sprays de pimenta e até um machado de guerra.
Além disso, o Comitê de Supervisão da Câmara, liderado pelo democrata Gerald E. Connolly, lançou uma revisão para determinar quanto dos danos causados, estimados em 2,7 bilhões de dólares pela Government Accountability Office, ainda não foi pago pelos infratores, já que apenas 15% dos 3 milhões de dólares em restituições ordenadas pelos tribunais foram quitados antes dos indultos, conforme noticiado pelo CBS News.
Opositores aos Indultos e à Narrativa de “Patriotismo”
Nem todos os envolvidos aceitaram a clemência. Pamela Hemphill, conhecida como “Maga Granny”, rejeitou o indulto, afirmando à BBC que “estávamos errados naquele dia” e que aceitar o perdão seria contribuir para uma “narrativa falsa” que tenta reescrever a história do 6 de janeiro.
Hemphill, que cumpriu 60 dias de prisão por sua participação, criticou a tentativa de Trump de retratar os rioters como vítimas de uma perseguição política.
Por outro lado, figuras como Jacob Chansley, conhecido como “QAnon Shaman”, celebraram a clemência. Após ser perdoado, Chansley postou no X que planejava comprar armas.
A decisão de Trump também foi criticada por alguns republicanos, como o senador Lindsey Graham, que, em entrevista à BBC, chamou de “erro” perdoar aqueles que “atacaram policiais violentamente”.
Uma pesquisa da Associated Press revelou que apenas 20% dos americanos aprovam os indultos para a maioria dos envolvidos.
Contexto e Implicações
O ataque ao Capitólio em 6 de janeiro de 2021 foi desencadeado após Trump fazer alegações falsas de fraude eleitoral na eleição de 2020, que resultou na vitória de Joe Biden.
A multidão, incitada por um discurso de Trump, invadiu o prédio, interrompendo a certificação do resultado eleitoral.
Mais de 600 pessoas foram condenadas por agredir ou obstruir policiais, e cerca de 170 usaram armas perigosas, como sprays de urso e machadinhas, segundo o Departamento de Justiça.
A clemência de Trump não apenas libertou os condenados, mas também levou ao arquivamento de cerca de 450 casos pendentes, encerrando a maior investigação da história do Departamento de Justiça.
A discussão sobre indenizações levanta questões sobre o precedente que isso pode estabelecer. Grant Tudor, da Protect Democracy, alertou à Reuters que os indultos enviam uma mensagem de que “se você se envolver em violência em nome da causa, Trump te protegerá”.
Enquanto isso, os contribuintes americanos arcam com os custos do ataque, incluindo danos ao Capitólio, despesas da Polícia do Capitólio e outras agências federais.








Abrindo precedentes, isso acabará mal.
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