Após lamentar sobre o amigo condenado Bolsonaro, presidente dos EUA elogia Lula e histórico político de perseguição, indicando que após a “química” veio admiração pelo modus operandi do estadista – SAIBA MAIS
Washington, EUA, 25 de outubro 2025
Em um encontro bilateral carregado de simbolismos diplomáticos e ecos do passado político brasileiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu ao elogiar tanto o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva quanto seu antecessor, Jair Bolsonaro, durante a Cúpula da ASEAN em Kuala Lumpur, na Malásia, neste domingo (26/out).
A nota oficial da Casa Branca destacou o tom amigável da conversa, com a reprodução de uma declaração de Trump: “É uma grande honra estar com o Presidente do Brasil… Acho que conseguiremos fechar bons negócios para ambos os países… Sempre tivemos um bom relacionamento — acho que continuará assim.”
President Trump meets with Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silva at ASEAN summit. 🇺🇸🇧🇷
— The White House (@WhiteHouse) October 26, 2025
"It's a great honor to be with the President of Brazil… I think we should be able to make some pretty good deals for both countries… We always have had a good relationship — I… pic.twitter.com/SVrcCrjUWo
O diálogo, que durou 45 minutos em uma sala reservada do Kuala Lumpur Convention Centre (KLCC), misturou negociações comerciais urgentes com trocas pessoais sobre prisões e perseguições judiciais, reacendendo debates sobre a polarização no Brasil e as perspectivas de uma parceria renovada entre Brasil e EUA.
O momento mais aguardado – e polêmico – ocorreu em uma pré-entrevista com jornalistas, quando repórteres questionaram Trump sobre sua relação com Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe de Estado após os eventos de 8 de janeiro de 2023.
Sem hesitar, o republicano defendeu o ex-aliado: “Eu sempre gostei dele. Sinto muito pelo que aconteceu com ele. Sempre achei que ele era um cara franco, mas ele passou por muita coisa.”
Quando pressionado se o tema seria tratado com Lula, Trump cortou o assunto com franqueza: “Não é da sua conta,” referindo-se explicitamente aos jornalistas.
A resposta, capturada em vídeo, viralizou rapidamente, expondo as fraturas ideológicas que ainda permeiam as relações entre os dois países.
A reação não demorou a surgir do outro lado do Atlântico. Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho do ex-presidente, assistiu às imagens em sua residência nos EUA e criou a narrativa de que “a fala de Trump sobre Bolsonaro claramente incomoda Lula,” .
Para Eduardo, o elogio público de Trump a Jair Bolsonaro – descrito como um homem que “passou por muita coisa“, representa uma vitória simbólica para a direita brasileira, especialmente em um contexto de negociações sensíveis sobre tarifas comerciais impostas pelos EUA ao aço e alumínio brasileiros.
A postagem de Eduardo, que tem a missão de alimentar o ódio no eleitorado do bolsonarismo para garantir cadeiras no Congresso, acumulou milhares de interações em horas, amplificando o impacto midiático do episódio.
Do lado de Lula, a resposta foi mais contida. O petista agiu com ironia ao ouvir a pergunta sobre Bolsonaro, gesticulou com as mãos em sinal de impaciência, mas logo soltou uma risada ao ouvir a resposta de Trump.
Lula cortou a entrevista de Trump e pediu aos jornalistas para saírem da sala, onde ocorreria a conversa entre ambos, acompanhados de suas respectivas equipes.
Antes disso, Lula disse que “não há motivo para qualquer conflito entre Brasil e EUA”, enfatizando o compromisso com uma “pauta longa” de cooperação.
Nos bastidores, no entanto, o diálogo ganhou contornos inesperados: segundo Mauro Vierira após a reunião, em conversa com jornalistas, Trump teria indagado diretamente Lula sobre o período de prisão injusta na Lava Jato, do ex-juiz imparcial, hoje senador Sergio Moro, perguntando quanto tempo o petista ficou detido, e ouvindo a resposta: “580 dias“.
O norte-americano, surpreendendo assessores, classificou o processo como uma “perseguição” ao líder brasileiro, que “provou sua inocência e voltou para vencer mais uma eleição”, segundo o chanceler brasileiro.
Isso humanizou o encontro e pavimentou o terreno para avanços concretos, como a ordem de Trump para que seus secretários se reunissem ainda na noite de domingo com a equipe de Lula em Kuala Lumpur para discutir a suspensão de tarifas.
Esse tom conciliador ecoa em vozes do Congresso Nacional. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, destacou a relevância estratégica do diálogo. “A busca pelo bom entendimento de Lula e Trump é fundamental para fortalecer a relação”, afirmou ele em nota à imprensa.
Para Alcolumbre, gestos de aproximação como esse impulsionam não só o comércio bilateral – avaliado em bilhões de dólares anuais –, mas também a cooperação em temas globais, como a mediação brasileira na crise da Venezuela sob Nicolás Maduro.
Segundo informações dispostas na pré-entrevista em que Lula expulsou a imprensa, ele presenteou Trump com uma pasta contendo argumentos sobre mediação regional, recordando seu papel em negociações durante o governo de Hugo Chávez.
Os membros do governo Trump reagiram positivamente, com o presidente alegando que Maduro libera prisioneiros para exportar criminosos aos EUA, mas concordando em explorar parcerias para uma “zona de paz” na América Latina.
O encontro na Cúpula da ASEAN não apenas dissipou temores de um rompimento diplomático – especialmente após as eleições americanas de 2024 que reconduziram Trump ao poder –, mas também sinaliza um pragmatismo que transcende ideologias.
Com compromissos para visitas mútuas e avanços em negociações tarifárias, Brasil e EUA parecem alinhados para uma era de “bons negócios”, como prometido na nota da Casa Branca.
Nos bastidores, porém, as referências a prisões políticas – de Lula a Bolsonaro – lembram que a história compartilhada dos dois países ainda carrega cicatrizes.
Analistas apostam que esse equilíbrio delicado definirá o tom das relações bilaterais nos próximos anos, com olhos atentos para o impacto em exportações brasileiras e na estabilidade regional.
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