📷 O presidente dos EUA, Donald Trump / Foto: KENT NISHIMURA/AFP/GETTY IMAGES via The Wall Street Journal | Ao fundo, a bandeira do Irã localizada no Gabinete do Líder Supremo do Irã / Foto: KHAMENEI.IR / AFP / CP
| Washington (US)
23 de junho de 2026
Para o presidente Donald Trump, projetar confiança no acordo com o Irã não é apenas uma questão de estilo – é uma necessidade política. Quem afirma isso é Charles A. Kupchan, senior fellow do Council on Foreign Relations (CFR) e professor de relações internacionais na Georgetown University.
Kupchan foi diretor para Assuntos Europeus no Conselho de Segurança Nacional durante os governos de Bill Clinton e Barack Obama, além de ter atuado no Departamento de Estado.
Em entrevista ao canal do Al Jazeera, o especialista analisou as negociações entre EUA e Irã e afirmou que Trump precisa “projetar confiança, projetar um senso de que este é um grande acordo e que tudo está avançando”.
A razão, segundo Kupchan, é clara: “esta foi uma guerra que saiu pela culatra de algumas maneiras, que colocou em perigo a presidência de Trump por causa do impacto no preço da gasolina e na crise de acessibilidade nos Estados Unidos”.
“Início muito acidentado” e desacordos fundamentais
O diagnóstico do ex-assessor de Obama é de que as negociações estão longe de serem um mar de rosas. “Essas conversas tiveram um início muito acidentado, sugerindo que há um caminho acidentado pela frente”, afirmou.
O principal desafio, segundo ele, são os desacordos profundos que persistem, mesmo depois de semanas de diplomacia. Kupchan destacou dois pontos centrais que precisam ser resolvidos.
O primeiro é o estoque de urânio altamente enriquecido – cerca de 1.000 libras (aproximadamente 440 kg) de material enriquecido a 60%. O segundo é o futuro do programa de enriquecimento do Irã.
Sobre este último, o especialista do CFR afirmou que o Irã provavelmente não abrirá mão de seu direito de enriquecer sob o Tratado de Não Proliferação Nuclear (NPT), que permite atividades para fins civis.
A saída, em sua visão, seria uma suspensão por 10 a 15 anos, com enriquecimento limitado a 3,67% e monitoramento rigoroso da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
“Há um acordo que pode ser alcançado aqui, mas ambos os lados precisam estar dispostos a fazer alguns compromissos e concessões difíceis”, afirmou.
O problema do tempo e as eleições de meio de mandato
Um dos pontos mais relevantes da análise de Kupchan é o cronograma. O ex-assessor lembrou que o JCPOA (o acordo nuclear de 2015) levou dois anos e meio para ser concluído.
Ele considera “impossível” que um acordo definitivo seja fechado em 60 dias. A previsão do especialista é que ambos os lados “esgotem o relógio”. Ou seja, continuem negociando e mantendo o Estreito de Ormuz aberto, mas sem chegar a um acordo final até o fim do mandato de Trump.
A pergunta óbvia é: qual a vantagem para Trump? A resposta de Kupchan é direta: Trump quer isso fora da primeira página. O presidente não quer discussões diárias sobre o Irã, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando.
Se o Estreito de Ormuz estiver aberto e os preços dos combustíveis caírem, o tema perde espaço na mídia. O cenário ideal para a Casa Branca, portanto, é que o acordo não seja um fracasso, mas também não seja um sucesso que exija atenção constante.
A estratégia de “esgotar o relógio” é arriscada. Por um lado, ela alivia a pressão imediata sobre a economia americana e evita uma crise política antes das eleições. Por outro, deixa o Irã em uma posição de força, com sanções aliviadas e acesso a recursos financeiros que podem ser usados para reconstruir seu programa nuclear ou fortalecer seus aliados na região.
Além disso, como alertou o especialista, o Irã continuará sendo “vigiado como um falcão”, e qualquer tentativa de reiniciar o programa nuclear pode resultar em novos ataques – mas cirúrgicos, como o do ano passado, e não a guerra total que vimos recentemente.
As divergências entre as declarações de Trump e a posição iraniana continuam. O Irã negou que tenha concordado com inspeções nucleares permanentes, e a questão da taxação do Estreito de Ormuz permanece em aberto.
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