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    Traficante do CV relatou encontros com aliado de Flávio Bolsonaro, diz site com base em mensagens da PF

    Segundo o Metrópoles, investigações revelam que o chefe da facção se reuniu com ex-secretário indicado pelo senador, para troca de favores e articulação política

    Chefes do Comando Vermelho são transferidos para presídios federais, em avião da PF, para outros estados |nov/2025| Foto: Rogério Santana / Divulgação via Agência Brasil

    RESUMO
    URBS MAGNA

    | Brasília (DF)
    25 de maio de 2026, 11h00

    As investigações da Polícia Federal (PF) escancaram um dos mecanismos mais perversos da política fluminense: a capilaridade do crime organizado nos corredores do poder.

    Mensagens interceptadas pela PF e publicadas pelo Metrópoles nesta segunda-feira (25/mai) mostram que Gabriel Dias de Oliveira, o traficante Índio do Lixão, um dos chefes do Comando Vermelho (CV), manteve encontros e uma relação de troca de favores com Gutemberg Fonseca, ex-secretário de Defesa do Consumidor do Rio de Janeiro e aliado direto do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). 

    A matéria revela a tentativa do crime de cooptar o Estado e a fragilidade de narrativas de combate ao crime quando aliados políticos são diretamente citados por facções.

    A publicação da coluna Tácio Lorran nesta segunda-feira (25/mai) mostra que, entre maio e agosto de 2025, as conversas descrevem pelo menos cinco interações onde o nome de Gutemberg Fonseca surge.

    Na época, Fonseca ocupava a secretaria, tendo sido indicado por Flávio Bolsonaro em 2023, segundo O Globo, e permanecendo no cargo até abril de 2026.

    Agora, ele é pré-candidato do PL à Câmara dos Deputados.

    Os Diálogos que Expõem a Relação

    A Secretaria de Defesa do Consumidor, chefiada por Gutemberg Fonseca, teve ao menos um ex-funcionário preso na Operação que atingiu TH Joias, segundo o g1.”

    A primeira conversa ocorreu em 13 de maio de 2025. Na ocasião, Índio do Lixão, que não possuía mandado de prisão naquele momento, cobrou a presença do intermediário Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, o Dudu, ex-assessor do deputado TH Joias.

    O traficante disse: “cadê você? Assim eu vou ficar fraco”, acrescentando “Tá geral aqui, Guto e todos. Cadê vocês?”“Guto” é o apelido de Gutemberg Fonseca dentro do diálogo.

    No dia seguinte, Índio relatou uma conversa de 39 minutos com Dudu e pediu que o assessor questionasse Fonseca sobre o que ele achou da “atitude” do traficante, que teria resolvido um problema rapidamente.

    PF aponta que Índio do Lixão, investigado por tráfico internacional de armas, mantinha uma “articulação política” em favor da organização criminosa, contando com policiais militares em sua segurança.

    Mérito, Nomeações e o Vídeo da Enel

    A promessa de contrapartida fica explícita em junho de 2025. Índio enviou a Dudu um vídeo do perfil de Gutemberg Fonseca no Instagram, que mostrava uma reunião oficial da Secretaria de Defesa do Consumidor com o Procon e a Enel.

    Junto ao conteúdo, o traficante escreveu: “Mérito que ganha quando eu resolvo algo. Aí, reunião Enel, Procon e Sedcon”.

    A frase é uma admissão clara de que esperava um benefício institucional em troca de um “favor” prestado. 

    Dudu respondeu que encaminharia o vídeo a “Menezes” — identificado pela PF como Marcos José Menezes, ex-servidor da prefeitura e do Procon, que mantinha relações estreitas com Fonseca.

    As mensagens seguintes são ainda mais graves. Em julho de 2025, o diálogo trata diretamente de uma nomeação solicitada pelo traficante. “Pergunta da nomeação. Se ele não for, eu vou em outro caminho já certo”, disse Índio

    Dudu respondeu: “Eu aviso ele” e, uma hora depois, pediu os dados do traficante: “vamos pegar logo essa nomeação”.

    Em agosto, Índio do Lixão volta a pressionar, sugerindo que o próprio Gutemberg Fonseca interviesse caso Menezes não resolvesse a demanda. “Irmão, caso o Marcos não resolver, o que você acha Guto chamar o Júnior e dar o papo?”.

    A resposta de Dudu não deixa margem a dúvidas: “Posso falar com ele. Já fala com Marcos agora. Senão eu já ligo nele [Gutemberg Fonseca]”.

    O Advogado e a Política

    A rede de contatos de Índio do Lixão se estendia ao advogado Alessandro Pitombeira Carracena, ex-subsecretário de Gutemberg Fonseca e preso desde setembro de 2025, acusado de receber dinheiro do CV, segundo O Globo.

    Em maio de 2025, o traficante relatou o encontro a Carracena“Inclusive, hoje eu fui numa reunião hoje, e o amigo estava lá na reunião, o secretário onde o senhor trabalha. Aí conversei um pouco com ele lá também referente à política, que poderia ajudar ele”.

    Ao receber o mesmo vídeo da reunião com a EnelCarracena respondeu ao traficante: “Muito é por causa de você”.

    Contudo, a PF notou um tom de frustração em Índio, que disse “Não vou mais incomodar ele não doutor, não posso ficar forçando ele a me ajudar se o coração dele não quer me ajudar”.

    O relatório finaliza: “aparentemente” Gutemberg Fonseca não teria correspondido às expectativas do crime, mesmo após receber auxílio.

    O Que Diz a Defesa

    Segundo o MetrópolesGutemberg Fonseca negou qualquer encontro ou relação com Índio do Lixão.

    O ex-secretário argumentou que, se o encontro tivesse ocorrido, “porque encontra muitas pessoas”, o traficante não era alvo de mandado de prisão na época. Sobre Marcos Menezes, Fonseca admitiu a relação, dizendo que ele foi seu coordenador de campanha.

    A defesa ainda questionou: “Sempre trabalhei para combater o crime organizado e pela segurança da minha família. Por que teria relações com essas pessoas? (…) Na própria troca de mensagens, o traficante disse que eu não atendi aos pedidos dele”.

    FAQ Rápido

    1. O que as mensagens da Polícia Federal comprovam sobre Índio do Lixão e Gutemberg Fonseca?
    As mensagens indicam encontros presenciais e uma troca de favores. O traficante do Comando Vermelho esperava que o ex-secretário, aliado de Flávio Bolsonaro, resolvesse questões como nomeações e articulação política em troca de serviços prestados pelo crime.

    2. Gutemberg Fonseca já é investigado ou foi indiciado pela PF?
    Até o momento da publicação, a reportagem do Metrópoles não cita indiciamento formal de Fonseca. Ele nega qualquer relação e afirma que a própria PF não o indiciou, usando o fato de o traficante ter dito que ele não atendeu aos pedidos como prova de sua negativa.

    3. Quem é Índio do Lixão e qual sua importância no Comando Vermelho?
    Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, é apontado pela Polícia Federal como um dos chefes do Comando Vermelho, envolvido em tráfico internacional de armas e com um “batalhão” de policiais militares a seu serviço.

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