Geraldo (sem boina) pouco depois de ser preso. Além de responder pelo assassinato da mulher, também é acusado de cometer fraude processual / Reprodução/Rede sociais via Correio Braziliense | Ao fundo, a telejornalista Adriana Araújo, durante apresentação no Jornal da Band / Divulgação BandTV
Brasília (DF) · 03 de abril de 2026
Nesta Sexta-Feira Santa (3/mar), feriado nacional no Brasil que faz parte das celebrações da Semana Santa e antecede o Domingo de Páscoa, um vídeo da telejornalista Adriana Araújo, apresentadora do Jornal da Band (da Band TV), viraliza nas redes sociais.
Durante o programa exibido na noite de quinta-feira (2/mar), a jornalista noticia que, “em sete dias, o tenente-coronel Geraldo Neto, acusado de matar a esposa [Gisele], conseguiu a aposentadoria integral“. E transfere seu espanto com a rapidez com que isso ficou resolvido: “Foi assim, ó: num estalo, num piscar de olhos. Pediu, levou“.
A soldado Gisele deixou uma filha órfã de sete anos. Adriana Araújo questiona ao também noticiar: “A pensão dela já está sendo paga? Não. Nenhum centavo. A prova aparece agora na sua tela. A família entrou com o pedido de pensão duas semanas após o assassinato da soldado, no dia 6 de março, às 10:53 da manhã. Ou seja, a menina está esperando há 27 dias“. Segundo a matéria, “a família ouviu que o pedido pode levar até 120 dias para ser analisado“.
E a jornalista faz sua própria avaliação do caso: “Pra órfã, pedem calma, e no máximo uma pensão de R$ 7.000,00. Pro réu, mais de R$ 20.000,00 e pressa, muita pressa. Será que a pessoa tão competente que analisa a aposentadoria para acusado de feminicídio pode ser promovida e passar a analisar os pedidos de pensão para as vítimas dos assassinos? Dá pra fazer essa mudança ou será que é pedir demais?“
A Polícia Militar de São Paulo publicou na quinta-feira (2/abr) portaria que transfere o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, para a reserva da corporação, conforme noticiou o g1.
A medida, equivalente à aposentadoria, garante proventos praticamente integrais — estimados em torno de R$ 21 mil mensais —, mesmo com o oficial preso preventivamente desde 18 de março sob acusação de feminicídio qualificado e fraude processual na morte da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos.
A defesa do militar confirmou que o benefício permanece mesmo se ele for expulso da PM-SP e perder patente, segundo o portal CNN Brasil.
A portaria da Diretoria de Pessoal da corporação baseou-se nos “critérios proporcionais de idade”, com vencimentos calculados em 58/60 do último salário bruto, que superava R$ 28 mil.
Contudo, a Secretaria de Segurança Pública do Estado esclareceu: a transferência não interrompe o Conselho de Justificação que pode levar à demissão, reforçam Agência Brasil e o Correio Braziliense.
O caso ganhou contornos dramáticos com o depoimento dos pais de Gisele Alves Santana. Em entrevista à Jovem Pan, o pai questionou: “Acha justo a população pagar salário para um monstro desse?” A mãe completou: “Para a minha filha sobrou o caixão”.
Inicialmente registrada como suicídio, a morte da soldado em 18 de fevereiro foi reclassificada após laudos da Polícia Civil apontarem manipulação da cena do crime.
O governador de SP, Tarcísio de Freitas, manifestou-se publicamente: espera que o tenente-coronel “apodreça na cadeia” e que perca a patente, segundo reportou o R7.
A deputada federal Erika Hilton criticou a rapidez da aposentadoria concedida “de dentro da prisão”.
Geraldo Leite Rosa Neto responde a ações na Justiça Militar e na Vara do Júri. A Corregedoria da PM-SP mantém o processo administrativo de expulsão.
O oficial pediu a transferência para a reserva, o que acelerou o trâmite.
O episódio revive o debate sobre feminicídio, misoginia, violência contra a mulher, impunidade e justiça no serviço público.
Enquanto o processo avança, o caso expõe lacunas que permitem a manutenção de benefícios a acusados graves, contrastando com o sofrimento das famílias das vítimas.
PL 896/2023
O episódio envolvendo o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto reacende o debate sobre a necessidade de mecanismos mais robustos de proteção às mulheres. Apenas nove dias antes, em 24 de março, o Senado Federal aprovou por unanimidade o PL 896/2023, que inclui a misoginia entre os crimes de preconceito e discriminação previstos na Lei do Racismo (Lei 7.716/1989).
O texto, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA) e relatado pela senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), define misoginia como “a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres” e prevê penas de dois a cinco anos de reclusão, além de multa, para casos de injúria motivada por esse preconceito.
A matéria agora aguarda análise na Câmara dos Deputados.
Enquanto famílias de vítimas como Gisele Alves Santana questionam benefícios mantidos a acusados graves, a aprovação da chamada lei da misoginia representa um avanço institucional no combate à violência de gênero, ao equiparar o ódio contra as mulheres a outras formas de discriminação já criminalizadas.
Defensores do projeto argumentam que a medida fortalece o Estado de Direito e contribui para uma sociedade mais equânime, embora ainda dependa da aprovação final no Congresso Nacional para produzir efeitos práticos mais amplos.
O caso paulista ilustra, na prática, as lacunas que o Legislativo busca preencher.

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Há como reverter essas regalias quando o criminoso é militar? Sendo possível que seja urgente pois a cumplicidade fortalece o crime.