
📷O Presidente Luiz Inacio Lula da Silva (PT) no Palácio do Planalto, em Brasilia |4.5.2026| Foto: Ton Molina / Bloomberg via Getty Images | O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e Flávio Bolsonaro / Imagem reprodução redes sociais
| Brasília (DF)
03 de junho de 2026
O governo do presidente Donald Trump deu mais um passo para isolar o Brasil comercialmente.
Em menos de 48 horas, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs duas sobretaxas distintas que, somadas, podem resultar em uma tarifa de 37,5% sobre produtos brasileiros exportados para o mercado americano.
A escalada protecionista ocorre em meio à visita do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Washington e a uma nova tentativa de aproximação entre os presidentes Lula e Trump.
A estratégia do governo americano, ao acumular as duas taxas, busca reforçar a pressão máxima sobre o Brasil em um momento eleitoral delicado, usando instrumentos de investigação distintos para justificar a ação.
Frentes de ataque: o que está em jogo
A primeira ofensiva veio na noite de segunda-feira (1º/6). O USTR concluiu uma investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que durou 12 meses, e propôs uma tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros.
O órgão listou uma série de práticas consideradas “irrazoáveis” e que “oneram ou restringem o comércio dos EUA”, como o sistema de pagamentos instantâneos PIX, o desmatamento ilegal, a pirataria, falhas na aplicação de leis anticorrupção e a regulação de redes sociais.
A medida pegou o governo brasileiro de surpresa. Diplomatas ouvidos pelo jornal O Estado de S. Paulo relataram que foi “como se ninguém tivesse falado nada com eles”, uma vez que as negociações estavam em andamento e o prazo final acordado entre Lula e Trump seria apenas no fim daquela semana.
Menos de 24 horas depois, na madrugada de quarta-feira (3/6), o USTR anunciou uma segunda taxação. Agora, uma tarifa extra de 12,5% sobre produtos do Brasil e de outros 59 países, justificada pela suposta omissão brasileira em coibir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
A investigação dessa segunda frente aponta falhas significativas na fiscalização, especialmente na cadeia produtiva da carne bovina, acusada de desviar rebanhos de áreas com trabalho análogo à escravidão para abatedouros certificados, em um processo chamado de “cattle laundering” (lavagem de boiada).
Cumulatividade eleva tensão comercial
A chave para o novo patamar da crise está na cumulatividade das taxas. A secretária de imprensa do Palácio do Itamaraty confirmou que, diante da falta de isenção mútua, as duas tarifas serão aplicadas de forma somada.
Ao todo, o Brasil pode ser sobretaxado em 37,5% caso o tarifaço não seja negociado. Ainda não se sabe ao certo sobre qual parcela dos produtos a taxação máxima incidirá.
Na primeira leva, a tarifa de 25% atingirá cerca de 21% das vendas brasileiras para os americanos. Os produtos mais sensíveis, como aeronaves da Embraer, café e carnes, ficaram de fora da lista inicial.
O cronograma para a implementação das medidas já está definido. Haverá consulta pública até 22 de junho, com comentários por escrito até 6 de julho e audiência pública marcada para o dia 7 de julho.
A decisão final sobre a entrada em vigor das tarifas cabe a Donald Trump até 15 de julho.
Reações: Lula acusa interferência e Flávio se defende
O governo brasileiro reagiu com indignação. Em evento em Catalão (GO), o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou a medida como “intempestiva” e baseada em “uma mentira”, chamando Flávio Bolsonaro de “traidor da pátria” e “vendilhões da pátria” por supostamente ter articulado as taxas durante sua visita.
No campo diplomático, a ordem no Palácio do Planalto é manter as negociações técnicas abertas para tentar reverter os cenários mais pessimistas.
Do lado da oposição, o senador Flávio Bolsonaro busca descolar sua imagem do desgaste. Em entrevistas, ele declarou ter feito o oposto: “Nas três reuniões que nós tivemos, com o presidente Trump, o vice-presidente (JD) Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio, eu pedi expressamente: não taxem as empresas brasileiras”.
Apesar da defesa, analistas políticos apontam que a crise reforça a narrativa de campanha de Lula. A BBC News Brasil destaca que as ameaças de Trump devolvem ao petista o discurso de soberania nacional, fortalecendo sua pré-candidatura em um cenário eleitoral que se desenhava como uma disputa apertada.
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FAQ Rápido
1. Quando as tarifas de 37,5% contra o Brasil começarão a valer?
As tarifas ainda não estão em vigor. O governo dos EUA abriu um período de consulta pública até 22 de junho, com audiência marcada para 7 de julho. A decisão final de Donald Trump sobre a aplicação das medidas deve ser anunciada até o dia 15 de julho de 2026.
2. Como o governo Lula pretende responder ao tarifaço?
O governo vai manter a estratégia de negociação diplomática, tentando convencer os EUA de que as acusações são infundadas. Paralelamente, o Brasil estuda a possibilidade de acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) e trabalha para diversificar seus parceiros comerciais, reduzindo a dependência do mercado americano.
3. Por que as tarifas dos EUA são um problema político para Flávio Bolsonaro?
A oposição e analistas avaliam que a aproximação de Flávio com Trump, exatamente nos dias do anúncio das tarifas, coloca o senador em uma posição delicada. Enquanto ele tenta vender a imagem de que tem trânsito na Casa Branca, a taxação prejudica a economia brasileira, dando munição para Lula o acusar de ser conivente com a interferência estrangeira nas eleições.
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O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) ainda não divulgou um levantamento oficial sobre o impacto total das duas tarifas acumuladas.
A expectativa é que o estudo seja apresentado ao presidente Lula nos próximos dias para orientar a estratégia de contra-argumentação do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Novas informações sobre a reunião de emergência do G20 comercial devem ser atualizadas em breve.
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