Análise revela cortes de R$ 2 bilhões em obras públicas no estado mais rico do Brasil, com críticas a políticas que priorizam elites empresariais em detrimento de serviços essenciais
Brasília, 02 de outubro de 2025
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) enviou à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) o projeto de orçamento para 2026 que sinaliza um freio abrupto nos investimentos públicos.
De acordo com a reportagem da Folha de S. Paulo, os gastos em obras e infraestrutura despencarão para R$ 32,7 bilhões, uma redução de 3,5% em termos nominais em relação aos R$ 34,7 bilhões previstos para 2025 – o que, ajustado pela inflação esperada de 4,81%, representa uma queda real de impressionantes 10,3%.
A maior parte do corte – 22% nos recursos diretos para obras – reflete uma estratégia de priorizar parcerias público-privadas (PPPs), com repasses para o setor privado subindo de R$ 13,3 bilhões para R$ 15,6 bilhões.
Mas será que essa manobra mascara problemas mais profundos na gestão fiscal do estado?
O secretário-executivo de Fazenda e Planejamento de São Paulo, Rogério Campos, atribui o cenário à “conjuntura econômica adversa”, citando alta nos juros do Banco Central, tensões geopolíticas e uma arrecadação que deve fechar 2025 abaixo das estimativas, impactada pela fraqueza na indústria e importações menores.
Na mensagem à Alesp, Tarcísio de Freitas reforça: “As perspectivas econômicas globais estão se tornando cada vez mais desafiadoras”, apontando para a “delicada situação fiscal nacional”.
As receitas totais do estado crescerão apenas 2,65%, para R$ 382,3 bilhões, enquanto despesas com pessoal saltam 6,3% para R$ 159,3 bilhões, incluindo um reajuste de 5% para servidores.
Apesar disso, o governo destaca que a relação investimentos/receita corrente líquida atingirá 11,5%, um dos maiores históricos – exceto nos anos pandêmicos de expansão fiscal.
RECEBA NOSSAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS EM SEU E-MAIL
Essa notícia ganhou tração nas redes sociais, impulsionada por uma postagem incisiva do analista político Rodrigo Luis Veloso, militante da Articulação Judaica de Esquerda e membro do PSOL.
No X (antigo Twitter), Veloso, que se descreve como mestre em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e formado em Relações Internacionais pelo IBMEC, não poupou críticas:
“Eu avisei que isso ia acontecer. Disse até em algumas entrevistas. Depois de conceder uma montanha de incentivos fiscais a empresários, em troca de apoio político (ou propinas), a primeira vítima quase sempre são os investimentos. Você destrói a arrecadação, e o dinheiro acaba.”
Ele compartilhou o link da Folha, ecoando alertas que fez em entrevistas anteriores sobre os riscos de políticas que sacrificam a receita pública em prol de concessões a grandes corporações.
Eu avisei que isso ia acontecer. Disse até em algumas entrevistas. Depois de conceder uma montanha de incentivos fiscais a empresários, em troca de apoio político (ou propinas), a primeira vítima quase sempre são os investimentos. Você destrói a arrecadação, e o dinheiro acaba. https://t.co/X871JpRwLE
— Rodrigo Luis Veloso (@rodrigoluisvelo) October 2, 2025
Esses incentivos fiscais – que somaram bilhões em renúncias de ICMS para indústrias e agronegócio desde o início da gestão Tarcísio – representam uma distorção regressiva: transferem recursos que poderiam ir para saúde, educação e infraestrutura diretamente para bolsos de elites econômicas, exacerbando desigualdades em um estado onde 25% da população vive em vulnerabilidade.
Críticos argumentam que, em vez de culpar fatores externos como a “política expansionista” do governo federal (uma alfinetada velada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva), o governador deveria revisar essas isenções, que corroem a base tributária e perpetuam um ciclo vicioso de cortes.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e relatórios da Confederação Nacional do Comércio (CNC) corroboram: renúncias fiscais excessivas sem contrapartidas efetivas minam a capacidade de investimento público, priorizando lucros privados sobre o bem comum – um contrassenso em tempos de envelhecimento populacional e demandas crescentes por serviços essenciais.
O Estadão publicou em junho uma análise prévia sobre os cortes projetados, destacando como Tarcísio de Freitas atribui a desaceleração econômica ao governo Lula, enquanto opositores como o deputado Teonílio Barba (PT) veem “artimanha eleitoral” para inflar superávits e agradar o mercado financeiro.
O recuo contrasta com o boom de investimentos em 2025 (alta de 13,5% nas receitas), ficando o questionamento sobre se as PPPs realmente entregam “qualidade” equivalente, como defende Rogério Campos.
Há um alerta para um corte adicional de R$ 2 bilhões em obras rodoviárias, segundo a Secretaria de Logística e Transportes, em cenário ligado a pressões do Ministério da Fazenda por equilíbrio fiscal nacional.
O impacto setorial é profundo: a indústria paulista, beneficiária de incentivos, vê suas importações cair 15% no semestre, agravando a baixa arrecadação de ICMS.
Aliados de Tarcísio, como o deputado Carlão Pignatari (PSDB), presidente da Alesp, defendem o projeto como “equilibrado”, mas entidades como a CUT-SP e o Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública (Apeoesp) já mobilizam protestos contra o que chamam de “austeridade seletiva” – que poupa o setor privado e penaliza o povo.
Em 2026, ano de eleições presidenciais e municipais, esse recuo não é só números: é um alerta para o eleitorado paulista sobre as prioridades de um governo que prometeu aceleração, mas agora freia em plena curva.
A verdadeira infraestrutura começa com uma tributação justa, com transparência na Alesp, onde o destino do orçamento será decidido nas próximas semanas. O futuro de São Paulo depende disso.







