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Fim do sofrimento: Tainara deixa o mundo na véspera de Natal; jornalista cita medo que homens têm das mulheres

    Atropelada e arrastada por quase 1 quilômetro, ela teve as duas pernas amputadas, mas seu estado era grave demais; preso, ex-companheiro responde por feminicídio: caso chocou o Brasil e promete penas mais duras a estes criminosos

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    Tainara caminha
    Tainara caminha com um amigo antes de ser atropelada pelo ex-companheiro; um homem corre atrás do veículo na tentativa de alertá-lo; a vítima arrastada pelo carro do criminoso foi filmada por ocupantes de outro carro em trânsito na Marginal Tietê / Ao centro, Tainara em uma de suas poses fotográficas


    Brasília, 25 de dezembro 2025

    Em meio às celebrações de fim de ano, uma tragédia reacende o debate sobre a proteção às vítimas de violência doméstica no Brasil. Tainara Souza Santos, de 31 anos, faleceu na véspera de Natal, após semanas de agonia em um hospital público.

    O caso, que começou com um ato brutal de agressão, culminou em luto coletivo e questionamentos sobre a efetividade das medidas preventivas.

    A história de Tainara ganhou repercussão nacional quando, no dia 29 de novembro, ela foi atropelada e arrastada por mais de um quilômetro na Marginal Tietê, uma das vias mais movimentadas de São Paulo.

    O suspeito, seu ex-companheiro Douglas Alves da Silva, de 35 anos, foi preso em flagrante e agora responde por feminicídio.

    De acordo com relatos iniciais, o ataque ocorreu após uma discussão, revelando um padrão de violência que poderia ter sido interrompido mais cedo.

    Internada no Hospital das Clínicas, Tainara passou por ao menos cinco cirurgias, incluindo a amputação das duas pernas devido à gravidade dos ferimentos. Ela permaneceu em coma induzido por dias, lutando contra infecções e complicações.

    Fontes médicas indicaram que seu quadro era crítico desde o início, com danos extensos aos tecidos e órgãos vitais.

    A morte foi confirmada na noite de 24 de dezembro de 2025, exatamente 25 dias após o incidente, marcando o fim de uma batalha que mobilizou familiares, amigos e ativistas.

    Em uma publicação no X (antigo Twitter), a deputada federal Fernanda Melchionna, do PSOL-RS, lamentou o ocorrido e destacou as múltiplas falhas sistêmicas:

     


    O texto de Melchionna cobra responsabilidade coletiva e ecoa a indignação pública, como a da repórter especial Anna Virginia Balloussier, da Folha de S. Paulo.

    Ela relatou que eram 21h26 de quarta-feira (24/dez), véspera de Natal, quando recebeu uma notificação do jornal informando que Tainara havia morrido.

    E lembrou que, “dias atrás, sua mãe deu uma entrevista à GloboNews apostando que Tainara seria feliz novamente“.

    Pode apostar“, disse dona Lúcia, prometendo ser “suas pernas” amputadas. “Eu estava lembrando dela, eu ensinando ela a andar“, disse sua mãe à emissora.

    Vou ser as pernas dela. Ela tem muito amor, vai ter muito carinho da gente, das amigas, dos familiares. Ela vai ser feliz de novo.”

    Segundo o texto de Balloussier, dona Lúcia “vinha usando as redes sociais para atualizar sobre o estado de saúde da filha” e, “num vídeo, após uma das cinco cirurgias pelas quais Tainara passou, ela se mostrou confiante“:

    “Deus é maravilhoso na nossa vida“, disse a mãe de Tainara.

    Mas, em uma nova postagem na véspera do Natal, dona Lúcia escreveu : “Oi, meus amores, boa noite. É com muita dor que venho avisar que nossa guerreirinha Tay nos deixou“.

    Sua irmã também se pronunciou: “Acabou de partir desse mundo cruel e está com Deus (…) É uma dor enorme… agora é pedir por justiça.”

    A jornalista da Folha diz que, quando somos jovens, “morrer parece algo tão distante, quase abstrato, para quando formos velhinhas“.

    Mas nestes casos excepcionais, Balloussier acrescenta que as mulheres sabem que “somos alvo de uma violência que não é aleatória nem excepcional, mas previsível e socialmente tolerada. E isso incomoda porque nomeia o que muitos preferem tratar como desvio individual, quando é estrutura“.

    Leia o trecho final do texto de Anna Virginia Balloussier
    (toque na imagem)

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    Liliane de

    O feminicídio raramente é ponto de partida.

    Antes dele, há muitos degraus que violentam mulheres aos poucos, dia após dia.

    Cada etapa produz uma espécie de morte em vida: a perda da autonomia, o medo constante, o corpo que já não é plenamente seu.

    O assassinato costuma ser o último ato de um tormento contínuo e muitas vezes contemporizado por amigos que percebem abusos e se calam, por parentes que olham para o lado.

    Melhor não se meter.

    Uma violência que a sociedade aprendeu a minimizar enquanto ainda havia tempo de interrompê-la.

    E que não tem classe social, raça nem ideologia.

    Inclusive, pode vir de homens que se vendem ao público como aliados das mulheres, acumulando biscoitos digitais com discursos feministas, enquanto na vida privada corroem a autoestima e exercem controle pelo medo sobre ex e atuais parceiras, sobre as mães de seus filhos.

    Atribui-se à escritora Margaret Atwood o seguinte relato, dos anos 1980.

    Ela perguntou a um amigo por que os homens se sentem ameaçados pelas mulheres.

    Afinal, eles eram quase sempre fisicamente maiores e mais fortes, e historicamente mais bem-remunerados e poderosos.

    O amigo respondeu: homens temem que as mulheres riam deles.

    A autora de “O Conto da Aia” questionou então universitárias a mesma coisa, com sinais trocados.

    E elas responderam que tinham medo que os homens as matassem.

    A morte de Tainara na véspera de Natal nos lembrou que não há trégua possível enquanto violência de gênero for um assunto que mobilize apenas mulheres.

    Agora é pedir por justiça, guerreirinha Tay.

    Anna Virginia Balloussier / Imagem: @annavirginia/X.

    A citação de Margaret Atwood compartilhada na matéria de Balloussier sintetiza uma assimetria fundamental de poder e vulnerabilidade, e a sua interpretação toca em pontos centrais da psicologia forense e da sociologia do gênero.

    A literatura especializada e estudos sobre a violência contra a mulher sugerem que o feminicídio está frequentemente ligado à incapacidade de certos homens em lidar com a ferida narcísica (a humilhação), muitas vezes exacerbada pela percepção de perda de controle ou substituição.

    Alguns pontos conectam o “medo de ser ridicularizado” ao ato extremo da violência:

    1. A Fragilidade do Ego e o Controle

    Na estrutura do patriarcado, a masculinidade é muitas vezes construída como algo que precisa ser “provado” e “mantido”. Quando uma mulher ri de um homem, desafia sua autoridade ou termina um relacionamento, ela pode estar, na visão do agressor, desmantelando a imagem de superioridade dele. O medo de ser “pior” que um futuro rival é o medo de perder o status de dominância.

    2. A “Humilhação” como Gatilho

    Muitos feminicídios ocorrem no momento da separação ou logo após. Para o agressor, a ideia de que a mulher seguirá a vida com outro homem é interpretada como uma ridicularização pública de sua virilidade e posse. A lógica distorcida é: “Se você me faz parecer pequeno ou me troca por alguém ‘melhor’, eu elimino a fonte da minha humilhação”.

    3. A Posse como Antídoto à Insegurança

    O medo de que a mulher ria (ridicularize) está ligado à insegurança profunda. Se o homem sente que seu valor depende exclusivamente de ter uma mulher sob seu controle, a autonomia dela é vista como uma ameaça existencial. O feminicídio, nesse contexto, é a tentativa final e trágica de retomar o controle absoluto: onde ele não pode possuí-la, ninguém mais poderá.

    4. A Diferença de Riscos

    A frase de Atwood destaca a desproporção das consequências:

    Para o homem: O dano é psicológico/social (o ego ferido, a vergonha perante outros homens).
    Para a mulher: O dano é físico e vital (a perda da vida).

    Embora o feminicídio tenha raízes estruturais (machismo, impunidade, desigualdade), o mecanismo psicológico imediato é, muitas vezes, uma reação violenta à sensação de insignificância.

    O medo de ser ridicularizado ou superado por um “concorrente” transforma a parceira, na mente do agressor, em um objeto que precisa ser destruído para que o ego dele não seja aniquilado pela vergonha.

     

    Mas essa avaliação da mente dos agressores de mulheres não ameniza o crime brutal nem deve ser motivo para dosimetria de suas penas judiciais.

    Pelo contrário: suas sentenças é que devem servir como exemplos didáticos para que estes homens reavaliem suas condutas e busquem por ajuda psicológica, antes que seja tarde demais, para eles e, principalmente, para elas.

    Pena de Morte

    O Ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, defendeu em entrevista à CNN que o Brasil deveria avaliar a aplicação da pena de morte para autores de feminicídio, citando como exemplo casos bárbaros cometidos na presença de filhos.

    A declaração ocorreu em um contexto de endurecimento do discurso do governo federal contra a violência de gênero, após o presidente Lula afirmar que “até a morte é suave” para punir agressores, embora especialistas ressaltem que a medida confronta a Constituição Federal e tratados internacionais dos quais o país é signatário.

     

    Retrato de Alexandr Wang discutindo o futuro da colaboração homem-IA, capturado por Ethan Pines para Forbes.



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