O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) / Foto: Ricardo Stuckert | O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) / Foto: Pedro Kirilos/Estadão
Brasília (DF), 03 de maio de 2026
O tabuleiro político brasileiro assistiu a uma semana de reviravoltas que expuseram a fragilidade da sustentação democrática e a força de um novo arranjo de poder no Congresso Nacional.
Em menos de 48 horas, o governo do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu dois duros golpes: a histórica rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) e a derrubada do veto presidencial ao chamado “PL da Dosimetria”.
Contudo, a vitória da oposição pode não ser tão doce quanto parece. A análise dos bastidores e das movimentações da Corte indica que o STF prepara uma resposta à altura da complexidade do caso, aplicando uma “justiça salomônica” que beneficiará os chamados bagrinhos – os executores materiais dos ataques de 8 de janeiro, conforme as palavras do jornalista Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania -, mas blindará a condenação do núcleo político responsável pela tentativa de golpe, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
O “Xadrez 4D” de Alcolumbre e Flávio Bolsonaro
O que parecia uma derrota fragmentada foi, na verdade, uma orquestração minuciosa. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), comandou uma verdadeira “guerra de conveniências”.
De acordo com análise Xadrez da Conveniência, de Marcio Coimbra, Alcolumbre articulou a rejeição de Messias não por questões ideológicas, mas como moeda de troca para garantir a eleição da mesa diretora em 2027 e, sobretudo, para abafar investigações que o cercam.
O modus operandi foi cirúrgico: para selar o destino de Jorge Messias, Alcolumbre garantiu aos bolsonaristas a tão sonhada derrubada do veto ao PL da Dosimetria.
Em contrapartida, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aceitou abdicar da pressão por uma CPI para investigar o escândalo do Banco Master — que envolve diretamente o senador amapaense.
A análise é respaldada pelo Jornal de Brasília, que noticiou o acordo explícito para enterrar a investigação do Banco Master em troca da pauta da dosimetria.
Flávio Bolsonaro consolidou-se como o grande arquiteto dessa estratégia. Usando a herança política e o nome que carrega — como bem definiu a jornalista Miriam Leitão —, o senador conseguiu unificar a direita no Congresso com um objetivo claro: a impunidade.
A máxima de Eduardo Guimarães, de que “bolsonarista vota até em samambaia indicada por Jair” nunca fez tanto sentido, visto que Flávio é tratado pelo bolsonarismo como o “plano B” natural para 2026.
A Incoerência que Enfraqueceu a Tréplica
A reação do governo foi imediata, mas frágil. Governistas recorreram ao STF pedindo a anulação da derrubada dos vetos.
No entanto, juristas entendem que o tribunal terá enorme dificuldade para barrar totalmente a lei, pois alterar penas é, em tese, uma prerrogativa do Legislativo.
Além disso, um fator crucial e pouco discutido minou a capacidade de reação do Supremo, segundo Eduardo Guimarães: os ataques sistemáticos que a própria esquerda fez ao tribunal nos últimos meses.
Para o analista, setores progressistas que atacaram Alexandre de Moraes e questionaram decisões da Corte “deram munição” para o bolsonarismo e enfraqueceram a legitimidade de uma resposta mais dura agora.
Lembrando declarações históricas, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) resgatou ataques anteriores de Gleisi Hoffmann, Guilherme Boulos e Jean Wyllys a Alexandre de Moraes, acusando a esquerda de “[…] se calaram quando, há alguns anos, foram eles os que atacaram diretamente o ministro Alexandre de Moraes — acusando-o de perseguir políticos e a democracia”.
Essa inconsistência política gerou um desgaste que agora impede uma reação institucional mais enérgica sem acusações de “salve-se-quem-puder”.
A Justiça Salomônica: Saída para os “Bagrinhos”, Cárcere para o “Núcleo 1”
E é nesse cenário de alta tensão que o STF deve agir. A expectativa, confirmada por fontes jurídicas, é que a Corte conceda a redução de pena para a massa de condenados — os 100 bagrinhos responsáveis pela depredação das sedes dos Três Poderes, além de núcleos intermediários da trama — caso a caso, conforme prevê o novo texto do PL da Dosimetria.
No entanto, quando o assunto chegar ao chamado Núcleo 1 (ou Núcleo Crucial), a música muda. Em setembro de 2025, o STF fixou as penas dos líderes da tentativa de golpe. As sentenças são um monumento à responsabilização:
Jair Bolsonaro (ex-presidente): condenado a 27 anos e 3 meses de prisão.
Walter Braga Netto (general e ex-ministro): 26 anos.
Anderson Torres (ex-ministro da Justiça): 24 anos.
Almir Garnier (ex-comandante da Marinha): 24 anos.
Augusto Heleno (ex-GSI): 21 anos.
Paulo Sérgio Nogueira (ex-Ministro da Defesa): 19 anos.
Alexandre Ramagem (deputado e ex-diretor da ABIN): 16 anos.
Para esses, o entendimento do tribunal é unânime: não haverá concessão.
A decisão dos ministros é não aplicar a nova regra do PL da Dosimetria para os crimes de golpe de estado e abolição do estado democrático de direito quando cometidos por este núcleo de comando.
A tese jurídica que prevalecerá é a de que os eventos foram complexos, mas a culpabilidade do núcleo estratégico é incomparavelmente maior que a dos executores.
O Retorno de Bolsonaro à Papudinha
Enquanto o Congresso comemora a aprovação da lei que pode soltar os “soldados” do 8 de janeiro, o desfecho para o ex-presidente é dramaticamente oposto.
Jair Bolsonaro encontra-se atualmente em prisão domiciliar devido a uma cirurgia no ombro — um benefício temporário.
O prazo de 90 dias concedido pela Justiça está se encerrando.
O STF não apenas ignorará o PL da Dosimetria para o ex-mandatário, como também revogará o benefício da prisão domiciliar.
A ordem é clara: Bolsonaro deve retornar à Papudinha (Anexo II do Comando da Aeronáutica, onde cumpre a maior parte da pena) assim que os médicos liberarem o deslocamento, o que deve ocorrer até o final de junho ou início de julho.
O que está em jogo:
A decisão do STF desmonta a principal narrativa da oposição. Não há “anistia” para os chefes do golpe.
O que ocorre é uma clássica estratégia de responsabilização penal: pune-se o comandante com rigor e oferece-se a redução aos subalternos para evitar a superlotação e acelerar a “pacificação”, um movimento semelhante ao que ocorre em processos de justiça de transição.
FAQ Rápido
1. O PL da Dosimetria já está valendo?
Sim. Com a derrubada do veto do presidente Lula pelo Congresso Nacional na quinta-feira (30 de abril de 2026), o projeto virou lei. Contudo, a aplicação dela depende da análise do STF, que pode decidir que a lei não se aplica retroativamente para beneficiar os líderes do núcleo crucial da trama golpista.
2. Flávio Bolsonaro realmente arquitetou a derrubada do veto?
Sim. A análise de bastidores do Jornal de Brasília e da coluna Xadrez da Conveniência aponta que Flávio Bolsonaro foi o articulador político que uniu o Centrão e a oposição. A troca envolveu a promessa de não abrir uma CPI sobre o Banco Master em troca da pauta da dosimetria, consolidando-o como principal herdeiro político do clã no Senado.
3. O que acontece agora com Jair Bolsonaro?
Segundo a análise de Eduardo Guimarães, a previsão é de endurecimento. Ele permanece condenado a 27 anos. Com o fim do prazo da prisão domiciliar (relativa à cirurgia no ombro), a ordem do STF é que retorne ao Complexo da Papuda (conhecido como Papudinha) ainda no mês de junho ou julho de 2026. A nova lei não deve ser aplicada ao seu caso específico.
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