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Silvio Santos se reuniu com o general Figueiredo e ganhou concessão de parte dos canais da TV Tupi

    Nos anos 60, o apresentador já era empresário e, em 1961, estreou na televisão. Nas décadas seguintes, passou pela Globo, Tupi e Record, tornando-se conhecido, quando construiu uma relação de proximidade com a cúpula da ditadura militar

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    Por: Pensar a História
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    O empresário Silvio Santos participa de uma reunião com o general João Figueiredo, último presidente da ditadura militar, em 1981. Foi durante essa reunião que o empresário ganhou dos militares a concessão de parte dos canais da extinta TV Tupi, embrião do SBT. Sílvio Santos é o nome artístico de Senor Abravanel, filho de um casal de imigrantes sefarditas otomanos. A família Abravanel é uma das mais antigas e destacadas famílias judias e teve enorme importância na Península Ibérica desde a Baixa Idade Média.



    Isaac Abravanel, célebre patriarca da família, ajudou a financiar as tropas ibéricas durante as guerras mouriscas. Segundo o historiador David Davis, Isaac foi um dos defensores da tese de que os negros descendiam de Caim — um argumento usado para justificar a escravidão. Perseguidos após a promulgação do Decreto de Alhambra, os Abravanel se espalharam pelo mundo, mas o peso da origem nobre do sobrenome os acompanharia. Em Tessalônica, o sobrenome virou parte um adágio ladino indicativo de status: “basta dizer que meu nome é Abravanel”.

    Sílvio Santos, entretanto, julgaria mais prudente escamotear a origem aristocrática da família sob um nome artístico popular — estratégia condizente com o mito do “self-made man”, a elegia ao homem humilde que perseverou e enriqueceu através do trabalho duro. Popularizou-se a narrativa de que Sílvio Santos trabalhava como camelô e que a partir disso iniciou sua fortuna — uma versão local do “mito da garagem” associado aos bilionários do Vale do Silício, exaltado por liberais ávidos por autenticar a mitologia meritocrática.

    A realidade é bem mais prosaica. Sílvio era filho de um empresário e trabalhou na loja do pai. Formou-se em contabilidade e ingressou na Rádio Mauá por indicação do amigo Celso Teixeira. Passou pelas rádios Tupi, Continental e Nacional. Em 1958, assumiu o comando do Baú da Felicidade — exótico “título de capitalização” criado por Manuel de Nóbrega, em que os clientes resgatavam os valores investidos sem correção monetária, na forma de mercadorias vendidas por preços superiores ao valor de mercado.

    Nos anos 60, o apresentador já era dono de uma empresa de publicidade, de uma companhia de seguros, de uma construtora e de uma rede de concessionárias de veículos. Em 1961, Sílvio Santos estreou sua carreira na televisão, apresentando um programa na TV Paulista. Nas décadas seguintes, o apresentador passaria por Globo, Tupi e Record, tornando-se uma das personalidades mais conhecidas do país. Paralelamente à consolidação de sua carreira televisiva, Sílvio Santos construiu uma relação de proximidade com a cúpula da ditadura militar.

    Tratava-se de uma parceria de benefício mútuo: o apresentador oferecia apoio aos militares em troca de favorecimentos. Durante o governo Médici, Sílvio Santos obteve a concessão de um gigantesco latifúndio na região do Araguaia a preços subsidiados. A aquisição da área de 70 mil hectares foi subvencionada pela Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). Os antigos proprietários da fazenda eram usineiros acusados de invadir terras indígenas.

    O próprio Sílvio Santos detalhou a transação no livro “A fantástica história de Sílvio Santos”, de Arlindo Silva, explicando que passou a focar no agronegócio como forma de diminuir o custo dos impostos. Isso porque a ditadura militar concedia isenção de impostos para criação de gado — empresas sediadas no Brasil tinham direito à redução de 50% da tributação caso seus projetos agropecuários fossem aprovados pela SUDAM.

    A ditadura militar financiou 75% do projeto e Sílvio Santos converteu a propriedade em um gigantesco pasto, onde eram criadas 10 mil cabeças de gado. Além da Fazenda Tamakavy, o empresário incorporou duas agropecuárias, ampliando o latifúndio para quase 100 mil hectares. Uma CPI sobre invasão e grilagem na região onde estava a fazenda chegou a ser aberta em 1979, mas foi encerrada sem quaisquer responsabilizações legais.

    A proximidade com a ditadura também foi essencial para que Sílvio Santos criasse sua rede de televisão. Em 1975, o empresário recebeu de Geisel a outorga do canal 11 do Rio de Janeiro. Em 1981, João Figueiredo concedeu ao Sílvio Santos o canal 4 de São Paulo — a TVS. Surgiu assim o Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), que se tornaria a 2ª maior rede de televisão do Brasil. Sílvio Santos retribuiu o apoio concedendo amplo espaço para a cobertura positiva da ditadura em sua programação.

    O apresentador chegou a criar o laudatório programa A Semana do Presidente, destinado a criar uma imagem positiva dos ditadores. Após a redemocratização, Sílvio Santos ensaiou seu ingresso formal na política, filiando-se ao PFL e candidatando-se a prefeito de SP. Em 1989, Sílvio Santos decidiu concorrer à presidência pelo PMB, mas foi impedido graças a uma ação de Eduardo Cunha, que entrou com pedido de impugnação da candidatura por irregularidades na legenda. Segundo o TSE, o apresentador era filiado ao DEM (atual União Brasil).

    A venda de espaço publicitário no SBT ampliou exponencialmente o patrimônio de Sílvio Santos, tornando-o um dos homens mais ricos do Brasil. Além do SBT, o Grupo Sílvio Santos compreende mais de 30 empresas, do setor imobiliário à agropecuária. O faturamento do grupo já chegou a quase 3 bilhões de reais. Sílvio Santos também era o proprietário do Banco PanAmericano. Em 2010, fraudes contábeis operadas pelo banco causaram um rombo de 2,5 bilhões de reais no Fundo Garantidor de Créditos.

    O banco contabilizava como suas as carteiras de crédito repassadas a outras instituições, falsificando o balanço patrimonial. O PanAmericano foi vendido para o BTG Pactual, fundado por Paulo Guedes. Em 2019, o Grupo Sílvio Santos foi acusado pelo delator Adir Assad de lavar dinheiro proveniente de contratos fraudados de patrocínio esportivo através da Tele Sena. Os promotores da Lava Jato, entretanto, não ofereceram denúncia.



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