Alianças rompidas e legado de polêmicas judiciais transformam o ex-juiz em persona non grata na política paranaense de 2026
Brasília, 15 de dezembro 2025
O senador Sergio Moro (União Brasil-PR) vê seu projeto para o Governo de seu Estado em 2026 afundar sob o peso de portas cerradas nos principais partidos. Ele enfrenta um veto explícito do Partido Progressista (PP), aliado na federação partidária, que prioriza o apoio ao atual governador Ratinho Jr. (PSD).
Essa barreira inicial já sinaliza um isolamento que ecoa um padrão recorrente na trajetória do ex-juiz da Operação Lava Jato: a dificuldade em construir coalizões duradouras, agravada por um histórico de rupturas e controvérsias que minam a confiança de potenciais parceiros.
A resistência no PP não é isolada. Fontes próximas às negociações revelam que o partido, fiel à estratégia de continuidade com Ratinho Jr., vê em Moro um risco desnecessário para a estabilidade da federação, conforme a Folha de S. Paulo.
Sem o aval do PP, o União Brasil sozinho não basta para viabilizar uma candidatura competitiva no estado, onde alianças regionais ditam o ritmo das disputas.
Essa dinâmica expõe uma fragilidade estrutural no planejamento de Moro, que apostava em sua imagem anticorrupção para atrair legendas menores – mas encontra eco apenas em ecos vazios.
Alternativas como o recém-criado Missão, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), pareciam promissoras à primeira vista. A proximidade entre Moro e o grupo remonta a 2022, quando uma aliança para a Presidência foi esboçada, só para naufragar com a desistência do senador da corrida nacional.
No entanto, o Missão já pavimentou seu caminho com a pré-candidatura do advogado Luiz Felipe França, fechando qualquer brecha para o ex-juiz.
Essa recusa não surpreende quem acompanha o vaivém de Moro no tabuleiro partidário: sua saída abrupta do Podemos em 2022, trocando-o pelo União Brasil às vésperas da eleição, deixou um rastro de ressentimentos que persiste até hoje.
No Podemos, a mágoa é palpável e documentada. A legenda, que abrigou Moro em sua entrada na arena política, sente-se traída pela manobra de última hora, interpretada como oportunismo puro.
Esse episódio não é mero detalhe anedótico; ele se entrelaça a um currículo político marcado por tropeços que datam de sua gestão no Ministério da Justiça, entre 2019 e 2020.
Lá, Moro acumulou derrotas como a falha na aprovação de pacotes anticrime no Congresso e embates internos que expuseram fissuras em sua liderança. Tais revezes pintam um retrato de instabilidade que afasta aliados cautelosos.
Para entender o porquê dessa rejeição generalizada, é essencial revisitar o cerne do “histórico ruim” de Moro, que transcende as frustrações partidárias atuais e enraíza-se em controvérsias judiciais que abalaram sua credibilidade.
Como juiz federal em Curitiba, ele foi o arquiteto da Lava Jato, operação que inicialmente galvanizou a opinião pública com prisões de peso.
Contudo, revelações posteriores, como as Vaza Jato de 2019, expuseram práticas questionáveis: vazamentos seletivos de áudios, uso excessivo de prisões provisórias e conduções coercitivas, como a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018, foram apontadas como ilegalidades que violaram o devido processo legal.
O Supremo Tribunal Federal (STF) selou essa narrativa em 2021, condenando Moro por parcialidade em julgamentos, anulando condenações contra Lula e transferindo o caso para a Justiça Federal de Brasília – um golpe que não só libertou o petista, mas também abriu inquéritos contra o ex-juiz por suspeitas de tráfico de influência e corrupção, incluindo negociações com lobistas americanos durante sua passagem pelo ministério.
Esses episódios não evaporaram com o tempo; eles reverberam no presente, alimentando a percepção de Moro como um incendiário político, termo cunhado em análises da época que destacavam seu uso controverso da imprensa para mobilizar a opinião pública contra alvos específicos, ignorando lições de fracassos internacionais como a Operação Mãos Limpas na Itália – da qual ele próprio era ciente, conforme texto acadêmico publicado uma década antes da Lava Jato.
Na esfera política, o padrão se repete: polêmicas com o Partido dos Trabalhadores (PT) desde 2018, quando despachos judiciais interferiram no segundo turno das eleições, geraram acusações de lawfare e minaram sua neutralidade.
Hoje, no Senado, Moro enfrenta novos escrutínios, como inquéritos por fraude processual e organização criminosa relacionados a supostas manipulações em processos da Lava Jato.
Críticos o veem não apenas como um juiz desmoralizado, mas como uma ameaça aos pilares democráticos, priorizando espetáculo sobre justiça.
No contexto paranaense, esse legado tóxico amplifica as recusas atuais. Partidos como Missão e Podemos não arriscam associar-se a um nome que carrega o estigma de deserções partidárias e julgamentos enviesados, especialmente quando opções mais estáveis, como Ratinho Jr., oferecem retornos eleitorais comprovados.
Para Moro, o dilema é claro: sem uma federação viável, sua candidatura ao Governo do Paraná – berço de sua ascensão como herói da Lava Jato – pode se tornar mais um capítulo de um declínio que começou em varas federais e agora ecoa em plenárias partidárias.
O calendário de 2026 avança e Moro precisará de um milagre político para reverter o curso. Ou, quem sabe, de uma autocrítica que transforme lições do passado em combustível para o futuro.
Por ora, o Paraná – e o Brasil – assiste a um ex-juiz que, outrora intocável, luta para não se tornar irrelevante.

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