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Sanseito: a ascensão do discurso anti-imigração na política de extrema direita japonesa

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    Sohei Kamiya,
    Sohei Kamiya, líder do Sanseito, discursa durante um comício de campanha eleitoral na prefeitura de Saga, Kyushu, em 12 de julho. © Kyodo


    Partido ganha força nas eleições do país do sol nascente com retórica nacionalista “Japonês Primeiro“, críticas à imigração e promessas de cortes de impostos, refletindo tensões globais e insatisfação econômica – Saiba mais sobre o “discurso de ódio” no Japão



    Tokyo, 21 de julho de 2025

    O partido de extrema direita Sanseito, conhecido por seu lema “Japanese First” (Japoneses Primeiro), emergiu como uma força significativa nas eleições para a Câmara Alta do Japão, realizadas em 20 de julho de 2025.

    Com um discurso que alerta para uma “invasão silenciosa” de imigrantes e propostas de cortes de impostos e aumento de gastos com assistência social, o partido conquistou 14 assentos, um salto expressivo em relação à única cadeira que possuía anteriormente no parlamento de 248 membros.

    Este crescimento reflete a insatisfação com a economia estagnada, o aumento do custo de vida e o crescente debate sobre imigração no Japão, um país historicamente homogêneo que enfrenta desafios demográficos.

    Origens e Ideologia do Sanseito

    Fundado em 2020 por Sohei Kamiya, um ex-gerente de supermercado e professor de inglês, o Sanseito nasceu no YouTube, onde inicialmente ganhou notoriedade com teorias conspiratórias sobre vacinas contra a COVID-19 e supostos “elites globais“.

    Desde então, a legenda evoluiu para uma plataforma nacionalista, centrada em políticas anti-imigração, defesa da cultura tradicional japonesa e oposição ao globalismo.

    Kamiya, que já declarou inspiração no estilo político de Donald Trump, promove um discurso que ressoa especialmente entre jovens do sexo masculino, frustrados com a estagnação econômica e o aumento de residentes estrangeiros, que atingiram um recorde de 3,8 milhões em 2024, equivalente a apenas 3% da população total do Japão, segundo dados da Reuters.

    A retórica do Sanseito inclui propostas como limitar o número de estrangeiros por município, dificultar a naturalização e proibir cidadãos naturalizados de concorrerem a cargos eletivos.

    O partido também defende restrições à compra de terras por estrangeiros e a suspensão de benefícios sociais para não-japoneses, medidas que críticos classificam como xenófobas.

    Apesar de Kamiya negar acusações de xenofobia, afirmando que o partido busca apenas “priorizar os japoneses” e não banir completamente os estrangeiros, organizações de direitos humanos, como a Amnesty International Japan, condenaram o discurso como “discurso de ódio“.

    Contexto Político e Social

    O Japão enfrenta um dilema demográfico: com uma população envelhecendo rapidamente e uma taxa de natalidade em declínio, o governo liberalizou as leis de imigração nos últimos anos, permitindo a entrada de cerca de 1 milhão de trabalhadores estrangeiros entre 2022 e 2025 para suprir a escassez de mão de obra.

    Apesar disso, a presença de estrangeiros, embora pequena em comparação com países como os Estados Unidos ou na Europa, gerou desconforto em setores da sociedade, alimentado por desinformação nas redes sociais sobre supostos crimes e abusos de benefícios por imigrantes.

    A ascensão do Sanseito reflete uma insatisfação mais ampla com o Partido Liberal Democrático (LDP), que governa o Japão por décadas, mas enfrenta críticas por escândalos e dificuldades econômicas.

    O preço do arroz, que dobrou no último ano devido a colheitas ruins e políticas governamentais, tornou-se um símbolo da crise de custo de vida, enquanto o iene fraco atraiu um recorde de 36,9 milhões de turistas em 2024, intensificando preocupações com o “turismo excessivo“.

    O Sanseito capitalizou essas frustrações, atraindo eleitores jovens e conservadores que antes apoiavam o LDP, conforme apontado pelo analista Jeffrey Hall, da Universidade Kanda.

    Impacto nas Eleições e Reações

    Nas eleições de 20 de julho, o LDP e seu parceiro de coalizão, o Komeito, perderam a maioria na Câmara Alta, conquistando apenas 47 dos 124 assentos disputados, enquanto o Sanseito emergiu como a terceira força, atrás apenas do LDP e da oposição tradicional.

    A vitória do partido, que já possui três cadeiras na Câmara Baixa e 140 membros em assembleias locais, sinaliza uma mudança no cenário político japonês, com o fortalecimento de partidos nacionalistas.

    A ascensão do Sanseito também influenciou o discurso político mais amplo. Dias antes da eleição, o governo de Shigeru Ishiba anunciou uma força-tarefa para combater “crimes e condutas desordeiras” de estrangeiros, uma medida vista como uma resposta à pressão do Sanseito.

    No entanto, a retórica anti-imigração gerou alarme entre organizações de direitos humanos e residentes estrangeiros, que temem um aumento da exclusão social. Um trabalhador indonésio em Tóquio expressou preocupação com ser alvo de campanhas políticas, apesar de contribuir com impostos como qualquer cidadão japonês.

    Perspectivas FuturasAnalistas divergem sobre a durabilidade do Sanseito. Enquanto alguns, como Jeffrey Hall, acreditam que o partido pode marcar o início de um populismo de extrema direita no Japão, outros, como Romeo Marcantuoni, da Universidade Waseda, veem-no como um “voto de protesto” passageiro.

    Kamiya, por sua vez, planeja expandir a influência do partido, almejando 50 a 60 cadeiras nas próximas eleições para implementar suas políticas.

    O crescimento do Sanseito reflete tendências globais de ascensão de partidos populistas de direita, como o Alternative for Germany (AfD) na Alemanha e o Reform UK no Reino Unido, com os quais Kamiya afirma ter afinidade.

    Contudo, o impacto de longo prazo dependerá da capacidade do partido de transformar seu apoio online – com mais de 460 mil inscritos no YouTube – em uma base eleitoral estável, enquanto enfrenta críticas por promover divisões sociais.



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