Sâmia Bomfim questiona apoio do PT à reeleição de Arthur Lira na Câmara e diz que PSOL lançará candidatura própria

Partido também decide se comporá governo Lula ou se seguirá independente da gestão do Presidente eleito, sem aceitar cargos

A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) questiona o apoio dado pelo PT (Partido dos Trabalhadores), do Presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva, à reeleição de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara dos Deputados e diz que PSOL lançará candidatura própria.

O partido da líder da sigla na Casa também decidirá no dia 17/12, com maioria já reunida, se irá compor o novo Governo Federal ou se seguirá independente, sem aceitar cargos.

A gente quer ter liberdade para se posicionar como o PSOL sempre se posicionou, como a ala à esquerda no Congresso Nacional, e vocalizar pautas que a gente sabe que ninguém vai pautar“, diz Sâmia à coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S. Paulo.

Temas relativos a direitos humanos, por exemplo, é muito comum que não sejam pautados em função de acordos feitos com fundamentalistas, com setores mais conservadores. A gente quer manter a independência para seguir pautando. Essa é a nossa vocação no Parlamento“, continua.

São contrários à ideia o presidente da legenda, Juliano Medeiros, e o deputado federal eleito Guilherme Boulos (SP), que hoje integram a equipe de transição de Lula. Os favoráveis são os deputados federais Talíria Petrone (RJ), Glauber Braga (RJ) e Fernanda Melchionna (RS) e a vereadora e deputada federal eleita Erika Hilton (SP), segundo Sâmia Bomfim.

Sâmia nega que haja uma pretensão se aliar à oposição ou atrapalhar a gestão de Lula. Ela diz que o apoio que ele recebeu durante a campanha não deve ser confundido com a postura que será adotada pelo partido nos próximos quatro anos.

“A gente vai estar na linha de frente para garantir que o programa do Lula possa ser aplicado no Brasil“, diz a deputada. “Mas a gente sabe que, pela própria composição [com outros partidos] que foi necessária ser feita, em especial no segundo turno, podem ter muitos temas com os quais a gente discorda.”

O PT vai, muito provavelmente, buscar uma saída mediada com as pressões do mercado, como está buscando agora“, afirma Sâmia, citando o debate sobre o teto de gastos como exemplo.

Ela defende que manter a independência em relação ao governo eleito seria também uma forma de preservar a identidade e o perfil programático do PSOL. “O governo te impõe amarras, inevitavelmente“, diz.

A deputada pontua que a escolha por não compor com o governo não se assemelha ao que ocorreu no início dos anos 2000, quando o PSOL nasceu a partir de uma ruptura do PT e fez oposição declarada ao partido da situação.

“Agora a discussão não é sobre ser oposição ou não, mas sobre não depender de cargos no governo para definir qual é a nossa posição política sobre diversos temas”, destaca.

A estrutura de governo é muito sedutora. Não é um aspecto moral ou individual, mas ela molda a posição, ela molda a ideologia partidária. A gente acha que se o PSOL se enveredar por esse caminho agora, pode perder um pouco da sua função, da sua existência“, acrescenta.

Ela cita como exemplo de independência o posicionamento recente do partido em relação ao presidente da CâmaraArthur Lira (PP-AL). Na última semana, a bancada do PSOL decidiu por não apoiá-lo em seu projeto de reeleição, diferentemente do que fará o PT de Lula.

Estuda-se, inclusive, a construção de uma candidatura própria do PSOL para fazer oposição ao deputado alagoano, ainda que dificilmente ela possa sair vitoriosa.

“Eu questiono os hiperpoderes que o Arthur Lira vai ter na próxima legislatura. Não se propõe nenhum nome alternativo para disputar? Vai ser o voto da extrema direita, do centrão e da esquerda no Arthur Lira? Ele pode ter, então, 500 votos? Isso é positivo para o governo Lula?”, diz Sâmia.

Não ter disputa democrática em torno de um tema tão fundamental que é a presidência da Câmara não é bom para o governo Lula. É legítimo, eu entendo e respeito, mas não dá para contar com que o PSOL seja parte disso“.

É difícil, não vou romantizar, mas consegui falar de igual para igual, se impor, ser ouvida e se posicionar”, afirma. “Eu fui a líder mais jovem da legislatura, e da bancada também. Em muitos momentos, éramos apenas eu e a Joenia [Wapichana, deputada por Roraima] de mulheres em reuniões com muita gente, com Lira, com o centrão, então foi muito desafiador“, segue.

Eu chutaria que vai ser o Boulos [o líder do PSOL na Câmara], pelo peso dele mesmo. Entrou com tudo aqui na Câmara. Só não vai ser se ele não quiser. O PSOL foi muito bem. Ampliou a sua bancada, cresceu em referência, soube apoiar o Lula, mas sempre mostrando a sua cara própria. E eu acho que a nossa liderança foi parte importante disso. A sensação é de dever cumprido. De que eu fiz o que era possível e impossível“.

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