O Presidente da República Federativa do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), posa para fotografia ao lado do presidente de Cabo Verde, José Maria Neves – Ricardo Stuckert / PR | Ao lado, o colunista do UOL, Leonardo Sakamoto – Imagem reprodução | Sobreposição de imagens ![]()
Para o jornalista, “Lula quis dizer uma coisa, mas disse outra e ruído é desnecessário”
“Temos uma profunda gratidão ao continente africano por tudo que foi produzido durante 350 anos de escravidão no nosso país”, disse Lula em Cabo Verde, nesta quarta (19/7)“, conforme transcreve o colunista do ‘UOL’ Leonardo Sakamoto.
Segundo o jornalista, o discurso de improviso é a força de Lula, mas também lhe causa problemas. Este é mais um caso em que ele queria dizer uma coisa, mas disse outra, gerando um ruído desnecessário.
Contudo, como ele já pediu perdão à África pela escravidão no Brasil, como na viagem ao Senegal, em 2005, e afirmou que o país tem sim uma dívida com o continente, é um erro comparar essa fala às aberrações do seu antecessor, diz Sakamoto, referindo-se ao inelegível Jair Bolsonaro (PL).
O jornalista lembra que, ao ser questionado, durante entrevista no Roda Vida, da TV Cultura, em julho de 2018, sobre a forma que pretendia reparar a dívida histórica da escravidão, Bolsonaro respondeu: “Que dívida? Eu nunca escravizei ninguém na minha vida”.
As declarações do presidente trazem a oportunidade de reforçar que não é gratidão que o Brasil precisa sentir pelas riquezas produzidas por milhões que foram trazidos à força para trabalhar, mas vergonha e indignação.
Pois esses sentimentos têm potencial transformador, por exemplo, através da busca por compensação.
Em Cabo Verde, Lula falou que “a forma de pagamento [pela dívida histórica] que um país como o Brasil pode fazer [está em] tecnologia, a possibilidade de formação de gente para que tenha especialização para as várias áreas que o continente africano precisa, industrialização e agricultura“.
Devemos, contudo, ir além. Da mesma forma que o Brasil busca ser referência ambiental internacional, também precisa assumir a dianteira em um esforço para compensar a África por séculos de escravidão e de colonialismo.
E garantir que os beneficiados, como a Europa, fiquem com a maior parte da conta. E não apenas com pedidos de desculpas e derrubadas de estátuas de escravizadores.
Mas compensação também significa garantir cidadania de fato aos descendentes de africanos escravizados no Brasil. Por aqui, a pobreza tem cor de pele e é negra, uma vez que o país nunca garantiu igualdade de oportunidades e de direitos.
Somos frutos de uma abolição incompleta, em que a compensação ficou escravizadores (que receberam o controle do Estado com a saída do Império) e não com escravizados. Incompletude que é renovada de forma hereditária.
Continua após a publicidadeTanto que a enorme maioria dos quase 62 mil resgatados da escravidão contemporânea desde 1995 são negros, em uma proporção maior que a proporção de negros na população.
Mudar isso depende do avanço de programas de geração de oportunidades e de combate à desigualdade social, mas também ações afirmativas, como cotas raciais.
Infelizmente, partidos políticos, da direita à esquerda, estão discutindo uma anistia geral por descumprimento das cotas para candidatos negros nas eleições, afastando o grupo que é maioria da sociedade dos parlamentos.
