O presidente dos EUA move ações contra a imprensa dos EUA, alegando difamação; republicano tem histórico farto de casos reportados em seu país
Brasília, 20 de julho de 2025
O presidente Donald Trump moveu um processo por difamação contra o Wall Street Journal e seus proprietários, incluindo o magnata da mídia Rupert Murdoch.
O processo, que busca pelo menos US$ 10 bilhões em danos, foi apresentado após o jornal publicar um artigo detalhado sobre uma suposta carta de aniversário que Trump teria escrito para Jeffrey Epstein em 2003.
Jeffrey Epstein foi um financista americano que se tornou notório por sua rede de tráfico sexual e abuso de menores. Após iniciar sua carreira na educação e depois no setor financeiro, ele construiu uma vasta fortuna e uma rede de contatos com figuras poderosas.
Em 2008, foi condenado a uma pena branda na Flórida por solicitação de prostituição de menores, um acordo que gerou grande controvérsia. Em 2019, foi novamente preso sob acusações federais de tráfico sexual, mas foi encontrado morto em sua cela na prisão, em um aparente suicídio que alimentou inúmeras teorias da conspiração.
Seu caso continua a ser um símbolo de abuso de poder e exploração sexual, especialmente com a condenação de sua associada, Ghislaine Maxwell, e a constante discussão em torno de seus contatos de alto perfil, como Trump.
Segundo a reportagem do Wall Street Journal, a carta fazia parte de um álbum de aniversário de Epstein e continha texto digitado emoldurado pelo contorno de uma mulher nua, desenhado com um marcador.
A reportagem afirmou que a assinatura de Trump estava “abaixo da cintura da mulher, imitando pelos pubianos“, e terminava com a frase: “Um amigo é uma coisa maravilhosa. Feliz Aniversário – e que cada dia seja outro segredo maravilhoso“.
Trump nega ter escrito a carta, chamando a história de “falsa, maliciosa e difamatória“. Ele e seus aliados criticaram a reportagem, acusando-a de ser um ataque politicamente motivado. O Wall Street Journal, por sua vez, declarou que se defenderá “vigorosamente” contra a ação legal de Trump.
Além das novas ações judiciais, Donald Trump foi condenado em maio de 2024 em um caso de “hush money” – expressão em inglês que se refere a dinheiro pago para silenciar alguém, geralmente para evitar que essa pessoa divulgue informações confidenciais ou embaraçosas sobre o pagador.
Um júri de Nova Iorque considerou Trump culpado de 34 acusações de falsificação de registros comerciais. O caso se centrou em pagamentos feitos à atriz de filmes adultos Stormy Daniels para silenciá-la sobre um suposto encontro sexual antes da eleição presidencial de 2016.
A acusação sustentou que Trump falsificou registros comerciais para ocultar pagamentos à Daniels, que totalizaram US$ 130 mil com a intenção de cometer outros crimes, incluindo violações das leis de financiamento de campanha.
Michael Cohen, ex-advogado de Trump, testemunhou que ele fez o pagamento a Daniels e que Trump o reembolsou por meio de registros comerciais falsos.
Trump negou as acusações, alegando que o caso era uma “caça às bruxas” política, a mesma peculiar frase com que acusou a Justiça do Brasil contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), réu no STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe de Estado.
A condenação de Trump marcou a primeira vez que um ex-presidente dos EUA foi considerado culpado de crimes.
Contudo, o republicano foi sentenciado a uma pena de “unconditional discharge” (liberação incondicional), o que significa que não recebeu pena de prisão, liberdade condicional ou qualquer outra restrição que pudesse impedir sua atuação como Presidente.
A sentença foi anunciada em 10 de janeiro de 2025, apenas dez dias antes de sua posse como Presidente dos Estados Unidos.
Essa decisão do juiz Juan Merchan considerou a circunstância de Trump estar prestes a assumir a presidência, e os promotores também recomendaram uma sentença sem restrições que pudessem atrapalhar suas funções presidenciais.
Portanto, Trump foi considerado culpado, em maio de 2024, pelo júri de Nova Iorque, das 34 acusações de falsificação de registros comerciais relacionadas aos pagamentos feitos à atriz de filmes adultos Stormy Daniels.
Apesar da condenação, a sentença final não incluiu tempo de prisão. Os advogados de Trump estão apelando da condenação.
Donald Trump enfrentou várias outras alegações de conduta sexual imprópria ao longo dos anos. Mais de duas dúzias de mulheres o acusaram publicamente de má conduta sexual, variando de toques indesejados e beijos agressivos a acusações mais graves.
Trump sempre negou essas alegações, frequentemente as caracterizando como mentiras politicamente motivadas.
Um caso notável é o da escritora E. Jean Carroll, que acusou Trump de abuso sexual em 1996. Em maio de 2023, um júri considerou Trump responsável por abuso sexual e difamação contra Carroll, concedendo-lhe US$ 5 milhões em indenização.
E. Jean Carroll
Em maio de 2023, um júri federal de Nova Iorque considerou Donald Trump responsável por abuso sexual e difamação contra a escritora e colunista E. Jean Carroll, concedendo-lhe US$ 5 milhões em indenizações.
O caso, amplamente coberto pela mídia americana, refere-se a um incidente ocorrido por volta de 1996 em uma loja de departamentos Bergdorf Goodman, em Manhattan, onde Carroll alegou que Trump a agrediu sexualmente em um provador.
O júri não confirmou a acusação de estupro, conforme definido pela lei penal de Nova Iorque à época, mas concluiu que Trump cometeu abuso sexual e difamou Carroll ao negar publicamente suas acusações, chamando-a de “mentirosa” e “maluca” em postagens no Truth Social em outubro de 2022.
De acordo com a Associated Press, o veredicto determinou que Trump pagasse US$ 2,02 milhões por abuso sexual e US$ 2,98 milhões por difamação, totalizando US$ 5 milhões.
A decisão foi baseada em evidências como o depoimento de duas outras mulheres que acusaram Trump de má conduta sexual, o vídeo do Access Hollywood de 2005, onde Trump fez comentários explícitos sobre mulheres, e testemunhos de amigas de Carroll que confirmaram que ela relatou o incidente na época.
O juiz Lewis Kaplan, que presidiu o caso, esclareceu em julho de 2023 que, embora o júri não tenha considerado Trump culpado de estupro segundo a definição técnica de Nova Iorque (penetração forçada com o pênis), o abuso sexual constatado – envolvendo penetração digital forçada – equivale ao que é comumente entendido como estupro em termos modernos.
Trump apelou do veredicto em 11 de maio de 2023, alegando que o juiz cometeu erros processuais, como permitir testemunhos de outras supostas vítimas e o vídeo do Access Hollywood.
No entanto, em 30 de dezembro de 2024, a Corte de Apelações do Segundo Circuito dos EUA rejeitou o recurso, mantendo a indenização de US$ 5 milhões. Em 13 de junho de 2025, a corte também negou um pedido de Trump para uma nova audiência com um painel completo de juízes, solidificando a decisão.
Até hoje, não há informações públicas de que E. Jean Carroll tenha recebido efetivamente os US$ 5 milhões da indenização do veredicto de maio de 2023. Geralmente, em casos de apelação, o réu pode ser obrigado a depositar o valor da indenização em uma conta garantia ou fornecer uma fiança enquanto o recurso é julgado.
No caso de uma segunda ação por difamação, decidida em janeiro de 2024, Trump postou uma fiança de US$ 91,6 milhões para cobrir uma indenização de US$ 83,3 milhões. É provável que um mecanismo semelhante tenha sido usado para os US$ 5 milhões, mas as fontes disponíveis não especificam se o pagamento foi finalizado ou transferido para Carroll.
Em uma entrevista à CNN em 30 de junho, Carroll afirmou que planeja doar o dinheiro, sugerindo que ela espera recebê-lo, mas não confirmou explicitamente o recebimento.
O caso continua a gerar debate, com Trump e seus apoiadores chamando-o de “caça às bruxas” e “armação política“, enquanto a escritora Carroll e sua advogada, Roberta Kaplan, celebraram as decisões judiciais como uma vitória para as vítimas de violência sexual que buscam justiça.








