Projeto deve beneficiar todo mundo, incluindo “núcleo crucial” – Temer fala em “texto que pacifique o país” – ministros do STF participaram de forma remota
Brasília, 19 de setembro de 2025
Em um tom de indignação veemente, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) classificou como “CHACOTA!” a recente articulação para discutir a “pacificação” do Brasil envolvendo figuras controversas da política nacional.
A crítica, postada em suas redes sociais nesta sexta-feira (19/set), mira diretamente uma reunião realizada na noite anterior na residência do ex-presidente Michel Temer (MDB), em São Paulo, que reuniu o relator do projeto, deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), o deputado Aécio Neves (PSDB-MG) e, de forma remota, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB).
Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes, também teriam participado virtualmente, conforme detalhado na reportagem de Juliana Duailibi em seu blog g1.
A reuniao serviu para delinear o que agora é chamado de “projeto de lei da dosimetria”, uma reformulação do polêmico PL da anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023.
Em vez de um perdão amplo às condenações – rejeitado pelo STF como inconstitucional –, o texto foca na redução de penas para crimes previstos no Código Penal, beneficiando inclusive o “núcleo crucial” da tentativa de golpe, como o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado recentemente a 27 anos e três meses de prisão em regime fechado pela Primeira Turma do STF.
Valente, conhecido por sua oposição ferrenha ao que chama de “golpismo”, não poupou adjetivos: chamou Motta de “fantoche que acha que é presidente da Câmara”, Aécio Neves de “golpista que não aceitou a derrota para a Dilma em 2014” – em referência à eleição presidencial em que Neves disputou o segundo turno contra Dilma Rousseff (PT) – e Temer de “golpista e traidor, articulador da queda da Dilma em 2016”.
Para o parlamentar paulista, essa junção de nomes para debater “pacificação” configura um “DEBOCHE, ACINTE, um TAPA NA CARA do POVO!”.
Em um apelo direto e irônico, ele finalizou com “CORRE DAÍ, XANDÃO!”, apelido carinhoso e provocativo para o ministro Alexandre de Moraes, relator das ações penais sobre os atos antidemocráticos no STF, sugerindo que o magistrado se afaste de qualquer conivência com o que Valente vê como uma manobra leniente.
CHACOTA! Reunir o fantoche que acha que é presidente da Câmara, Hugo Motta, com Aécio Neves, golpista que não aceitou a derrota para a Dilma em 2014 e Michel Temer, golpista e traidor, articulador da queda da Dilma em 2016, para discutir “pacificação” do Brasil? DEBOCHE, ACINTE,…
— Ivan Valente (@IvanValente) September 19, 2025
A proposta da dosimetria, segundo participantes do encontro, visa criar um “pacto republicano” entre os Três Poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário – para reduzir tensões políticas e permitir que o Congresso avance em pautas como isenção de Imposto de Renda e segurança pública.
Temer, em entrevista ao programa Roda Viva da TV Cultura, defendeu a iniciativa como forma de “produzir um texto que pacifique o país”, enfatizando que ela seria “de comum acordo com o STF, com o Executivo, numa espécie de pacto republicano”.
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O relator Paulinho da Força, ao sair da reunião, divulgou vídeo nas redes sociais afirmando que o projeto não perdoará crimes, mas ajustará a duração das penas, podendo beneficiar as 141 pessoas atualmente presas por envolvimento nos atos golpistas.
A Folha de S. Paulo, em seu Painel, reportou que a estratégia de mudar o foco de anistia para dosimetria foi sugerida por Aécio Neves durante o encontro, com Motta participando remotamente para alinhar o texto e evitar confrontos com o STF.
O Globo destacou que o objetivo é uma redução moderada de penas, sem expressiva atenuação para figuras centrais como Bolsonaro, e que o texto deve ser apresentado na próxima semana.
Temer classificou o momento como “histórico”, prevendo um “resultado muito positivo” para a estabilidade institucional.
Nas redes sociais, a repercussão ecoa a fúria de Valente. Um post da GloboNews no X (antigo Twitter) sobre a reunião viralizou, gerando debates sobre se a dosimetria é uma “pacificação necessária” ou uma “concessão aos golpistas”.
. @NatuzaNery, sobre projeto que prevê redução de penas para condenados pela tentativa de golpe: "Falam: 'Ah, mas isso é o que pacifica'. Eu discordo completamente. Aliviar para quem tentou detonar a democracia não pacifica". E @JoelPinheiro85 destaca: "Eu concordaria com você se… pic.twitter.com/hkDhasd43u
— GloboNews (@GloboNews) September 19, 2025
Críticos da esquerda, como perfis alinhados ao PSOL, multiplicam as acusações de revanchismo, enquanto defensores do centro-direita argumentam que o Brasil não pode ficar “paralisado em confrontos passados”, conforme Aécio Neves postou em seu perfil.
Resistências do PL – partido de Bolsonaro – podem isolar a legenda se o texto for aprovado sem anistia plena.
A tramitação do PL da dosimetria avança em regime de urgência, aprovado na Câmara na quarta-feira (17/set).
Líderes partidários devem discutir os detalhes nos próximos dias, com expectativa de uma nova rodada com ministros do STF.
Para Valente e aliados da oposição de esquerda, porém, o episódio reforça a necessidade de vigilância: “O povo não esquecerá quem traiu a democracia”.
O desfecho pode redefinir o equilíbrio entre punição e reconciliação no pós-8 de janeiro, em um ano eleitoral que promete mais tensões em Brasília.








Anistia para “pacificar o país” e assim permitir que o Congresso finalmente possa começar a votar as pautas realmente relevantes para o povo brasileiro, soa mais como chantagem.
Isso é um mal começo.
Figuras de um passado sombrio discutindo sobre o futuro. Tamofu!
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