Ambiente político se torna mais fragmentado e competitivo para a direita enquanto Lula se fortalece nas pesquisas
Brasília, 15 de novembro 2025
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) enfrenta um revés duplo que pode redefinir o tabuleiro da direita brasileira rumo às eleições de 2026. Tornando-se réu pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) por crime de coação no curso do processo, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro vê sua aspiração presidencial ameaçada pela Lei da Ficha Limpa.
Paralelamente, o sucesso de negociações diplomáticas que atenuaram o polêmico tarifaço imposto pelo presidente norte-americano Donald Trump sobre exportações brasileiras enfraquece o argumento de crise internacional que ele tanto defendeu.
Esses eventos não apenas isolam Eduardo no núcleo radical do bolsonarismo, mas também acirram a fragmentação interna, beneficiando nomes como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ).
A decisão do STF, proferida na sexta-feira (14/nov), baseia-se na denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) que acusa Eduardo de articular sanções econômicas e suspensões de vistos contra autoridades brasileiras, incluindo o ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito.
“A grave ameaça materializou-se pela articulação e obtenção de sanções do governo dos Estados Unidos da América, com a aplicação de tarifas de exportação ao Brasil, suspensão de vistos de entradas de diversas autoridades brasileiras nos Estados Unidos da América e a aplicação dos efeitos da Lei Magnitsky a este ministro relator”
ALEXANDRE DE MORAES
14.11.2025
Caso a condenação se consolide antes do registro de candidaturas, em agosto de 2026, Eduardo ficará inelegível por oito anos, conforme critérios da Lei Complementar 135/2010.
Em resposta, o deputado, exilado nos EUA desde fevereiro, alegou em vídeo nas redes que a medida visa impedir a direita de conquistar maioria no Senado em 2026, chamando-a de “interesse político” do Judiciário.
Essa reviravolta judicial ecoa um histórico de tensões que remontam ao fim do governo Bolsonaro, em 2022.
Já em 2023, investigações da Polícia Federal apontavam tentativas de obstrução de justiça por parte do clã, com Eduardo emergindo como figura central na articulação internacional contra o STF.
Em fevereiro deste ano, uma denúncia da PGR sobre a trama golpista de Jair Bolsonaro – que culminou em sua condenação a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, abolição do Estado Democrático de Direito e organização criminosa – expôs o vácuo de liderança na direita, impulsionando especulações sobre sucessão familiar.

Naquele momento, analistas como o cientista político Cláudio Couto, da FGV, previram que a inelegibilidade do ex-presidente até 2030 forçaria o bolsonarismo a buscar alternativas, mas com Eduardo e Flavio como potenciais herdeiros, o que geraria “disputa por espólio”.
Em março, o autoexílio de Eduardo nos EUA já era visto como empecilho para o PL, abrindo espaço para rivais como o deputado Ricardo Salles (Novo-SP) e o influenciador Pablo Marçal.
O tarifaço, anunciado por Trump em julho de 2025 como retaliação à “perseguição judicial” contra Bolsonaro, impunha 50% de sobretaxa sobre importações brasileiras, sob pretexto de violações de direitos humanos pelo STF.
Eduardo, ao lado do blogueiro Paulo Figueiredo, pressionou diretamente o governo americano via carta e reuniões, celebrando a medida como “Tarifa-Moraes” e justificando-a como defesa da “liberdade”.
No entanto, o anúncio gerou críticas imediatas na direita: o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), chamou-a de “problema para a direita”, enquanto líderes como Sergio Moro e Ricardo Salles temiam prejuízos econômicos.
Setores exportadores, como café, suco de laranja e carne, foram inicialmente poupados, mas o impacto geral expôs a ambiguidade do nacionalismo bolsonarista, como analisou a cientista política Mayra Goulart, do IESP/UERJ: “Revela a hipocrisia da extrema-direita global”.
Atualizações recentes mostram o recuo das sanções. Na sexta-feira (14/nov), negociações entre o chanceler brasileiro Mauro Vieira e o secretário de Estado americano Marco Rubio resultaram na exclusão definitiva de produtos agrícolas do tarifaço, aliviando setores-chave da economia nacional.
Trump, que vinculou a medida à trama golpista de Bolsonaro, optou por uma abordagem “mais prejudicial e geral” inicialmente, segundo o New York Times, mas o lobby de Eduardo agora parece contraprodutivo.
Nas redes sociais, reações misturam deboche e preocupação: o deputado Bohn Gass (PT-RS) ironizou a “pretensão de traidor” de Eduardo, enquanto perfis bolsonaristas destacam o réu como “agora”.
Uma pesquisa da Quaest, divulgada na semana, simulou confrontos diretos, revelando alta rejeição a Eduardo (acima de 50%), favorecendo o “voto útil” em Tarcísio. Esse contexto aprofunda o racha na direita.
Jair Bolsonaro, inelegível e possivelmente preso na Papuda, resiste a endossar Eduardo, priorizando Flavio como “opção óbvia” para o PL.
O governador Tarcísio de Freitas, preferido pelo Centrão e elite empresarial, ganha tração com pesquisas que o colocam à frente em cenários contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que perdeu pontos após megaoperação policial no Rio de Janeiro.
Especialistas como Felipe Soutello, marqueteiro de pesquisas qualitativas, observam: “O antipetismo depende menos do bolsonarismo radical, tornando o extremo menos relevante”.
Antonio Lavareda, do Ipespe, alerta que a rejeição de Eduardo “percola” para o primeiro turno. Historicamente, disputas internas datam de 2023, quando Eduardo já dividia a direita ao rejeitar alianças com o Centrão.
Em setembro último, seu “voo solo” ideológico – sem acordos e com foco em ultradireita global – atormentou caciques, limitando opções para 2026. Em outubro, Flavio se lançou como alternativa, mas com rejeição de 74% em pesquisas, atrás até de Eduardo.
A cientista política Mara Telles, da UFMG, descreve o bolsonarismo como “rachado”, com a família insistindo em monopólio: “Candidatura de Eduardo é nula; Tarcísio é o mais viável”.
Para o Brasil, esses desdobramentos sinalizam uma direita em reorganização: o enfraquecimento de Eduardo pode unificar moderados em torno de Tarcísio, mas o risco de dissidência radical persiste.
Como o marqueteiro Soutello resume, o “eleitor incondicional” de Eduardo ressoa, mas perde peso ante o antipetismo crescente.
Com Lula à frente nas pesquisas, apesar de oscilações, 2026 promete ser uma batalha de narrativas – judicial, econômica e ideológica.
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