Ombudsman sugere que jornal deve aprender com mídias internacionais e revela reações dos leitores a textos que permitem Bolsonaro e cobram Lula: “que diferença ler a opinião da The Economist”
O ombudsman da Folha de S. Paulo, José Henrique Mariante, publicou matéria no jornal em que transcreve reações de leitores aos textos em que ficam visíveis a normalização de Bolsonaro e os ataques a LULA. O jornalista cita editorial, postado no último domingo (9/10), “É a economia, Lula“, e diz que “a Folha adernou feio“, provocando o “entupimento” da caixa de entrada do ombudsman com as mensagens que ele selecionou:
“Novamente apoiando uma ditadura“; “Tapa na cara da democracia“; “O que falta acontecer? Um cabo e um soldado?“; “O pluralismo serve para algum interesse disfarçado“; “A Folha NUNCA EXIGIU que Paulo Guedes ou Bolsonaro explicassem o abandono de suas propostas ditas liberais“; “Que diferença ler a opinião da The Economist”; “Vou me igualar ao Bolsonaro: que merda de editorial”; “Afinal, a Folha quer democracia ou barbárie?“; “A desinformação chegou ao maior jornal do país”; “Editorial distópico”; “Onde a Folha esteve nos últimos quatro anos?”; “Quantos ultimatos Bolsonaro não merecia ouvir?”; “É a democracia, Folha”.
Mariante passa a especular sobre os erros cometidos pelo jornal: “o tom agressivo a partir do título, onde Lula é trocadilho para estúpido“; a “frágil argumentação econômica, quando se diz que a inflação começa a ser contida, mas não que a queda ocorre após desoneração forçada e irresponsável, intervenção na Petrobras, teto solar panorâmico de gastos e uma conta salgada para 2023 contratada por Paulo Guedes para reeleger seu presidente“; ou a “argumentação política, que menospreza o despido apoio dos formuladores do Plano Real, entre os de vários outros economistas“.
Mas o ombudsman conclui que “o problema de verdade está em emparedar Lula, com grande visibilidade, e fingir que o céu está azul, que o país vive a festa da democracia. Imaginar que as reiteradas demonstrações de incivilidade e autoritarismo de Jair Bolsonaro são rompantes impensados; que o difícil, como disse a mulher “ajudadora”, é ele falar palavrão. Considerar que propor e chantagear o STF com a venezuelização do tribunal é discussão legítima entre Poderes. Esperar que a ofensiva contra as pesquisas eleitorais voltará candidamente aos escaninhos do Congresso em caso de derrota do incumbente“.
Mariante diz que a Folha “preferiu até aqui sublinhar a “soberba” e o “acinte” do não detalhamento de uma política econômica petista. Não são tempos normais“. o jornalista acrescentou que “Lula pode e deve ser cobrado, por óbvio, mas nunca menos do que Bolsonaro“. É o presidente que está em débito com a democracia e promete aumentar o rombo institucional se perder ou se ganhar nas urnas no segundo turno. Normalizar o naufrágio não é opção.
Na sequência crítica, Mariante sugere, sutilmente, que a Folha deveria seguir a linha jornalistica de uma ex-colunista do The Washington Post, Margaret Sullivan, que argumenta sobre a “necessidade de a mídia não se limitar à reprodução do que é dito” e diz que “contextualização é fundamental para a notícia, conceito que se choca com as personagens da ficção barata em que vivemos“. Mariante exeplifica com “a entrevista da Folha com Damares Alves e suas evasivas para justificar as graves acusações que fez sobre violência infantil com um leviano “ouvi dizer”.
Mariante sintetiza o texto de Sullivan: “As ferramentas tradicionais da imprensa, que tem o equilíbrio como premissa, não são mais suficientes na cobertura política atual, pois existe um lado que trabalha contra a democracia. Em vez de perder tempo tentando acomodar uma assimetria intransponível, a saída é procurar outro ponto de equilíbrio a partir do interesse público“. Depois o ombudsman dis que “qualquer semelhança com o que ocorre no Brasil ou com a primeira parte desta coluna não é mera coincidência“.
“Outro ponto que Sullivan vê como fundamental neste novo ambiente jornalístico é não economizar na identificação dos políticos“, escreve Mariante, referindo-se ao pensamento da colega norte-americana: “Se antes até havia algum constrangimento, hoje em dia muitos republicanos defendem publicamente que Joe Biden não venceu as eleições. Estes devem ser sempre identificados como negacionistas, pois a democracia pressupõe o respeito aos resultados. Quem consome conteúdo precisa saber com que tipo de gente está lidando“.
